13 de dezembro de 2025

Poeta português fala de sua relação com o Brasil e de sua poesia [ENTREVISTA]

 
Essencialmente é difícil arriscar uma definição ou nascimento, uma vez que é também uma descoberta constante para João, que adotou o nome de Capanga como uma forma de liberdade de escrita e expressão.
 
Segundo ele, o nascimento de “João Capanga” pode ter acontecido em 2012, quando ele criou esse “personagem”.
 
O poeta mora em Porto, e é convicto de sua paixão pela arte brasileira, e em especial, pelos poetas nacionais. As escrituras dele são expressas em molduras de cadernos e posta no instagram, na qual conta com 7 mil seguidores.
 
 
 

 

O que você aprendeu ao longo dos anos em que pratica sua arte? Como aplica isso a realidade?

Ao longo destes anos aprendi inúmeras coisas. Sobretudo, aprendi a utilizar esta arma que é a escrita. Uma arma capaz de nos defender e capaz de chegar ao coração dos outros. 
Aprendi a trabalhar a minha visão. Uma visão mais sagaz, capaz de ter um olhar mais fundo nas trivialidades da vida. E aprendi que os outros são, numa grande generalidade, boas pessoas, que me ajudam e que me alegram por serem receptivas ao que escrevo. 

Na realidade, escrevo porque preciso. É uma grande necessidade tirar o que vai no peito. 
Para mim é maravilhoso materializar pensamentos, torná-los reais, palpáveis e passíveis de serem transmitidos. Se nao tivesse este escape, certamente estaria em agonia.

 

 Por que você diz que 2012 foi o “nascimento” do seu carácter artístico?

2012 foi o ano em que comecei a escrever com mais método, a coleccionar o que escrevia e quando criei este carrasco literário – João Capanga. Reparem… Não se negoceia com um capanga! Este personagem, ou heterónimo, como quiserem chamar, dá-me a possibilidade de escrever literalmente o que eu quiser! Tanto as coisas mais vis e más, como as coisas mais doces ou outras perversões, todas elas ainda assim, são coisas intrinsecamente humanas. O Capanga, desde que nasceu tem vindo a exercer as opiniões que não costumam sair da cabeça pois são censuradas pelas esferas em que nos encontramos. 

 

 

Como você trabalha sua poesia? Em algum momento, você chega a mencionar o Brasil e seus poetas?

Sim, faço referência ao Brasil. O vosso português não é igual ao nosso. Não falamos o mesmo português. Até em Portugal não se fala a mesma língua portuguesa, nem em Macau, nem em Moçambique, nem em Angola, nem em Cabo-Verde. Os brasileiros, tal como os africanos dos PALOP falam um português bem mais gingado, com muito mais elasticidade e criatividade, e eu gosto muito disso. O meu português no entanto é seco e pesado, com alguns palavrões pois sou do Porto e as pessoas são mais quentes na linguagem e eu amo isso também. 

A minha poesia é trabalhada num processo trifásico: pensamento livre; pensamento mágico; pensamento real. Mas não é algo estanque, eu gosto muito de ouvir e ler outros poetas. E no que diz respeito aos brasileiros há sempre dois nomes que eu gosto muito. Vinicius e Drummond. Não sei como conseguiam escrever tão bem. Mas ainda gosto de ouvir as entrevistas de Hilda Hilst.

Não sei se têm esta noção, mas o samba e a bossa nova são uma moda que tem ficado pelo Porto, trazido pelos estudantes Erasmus que estudam aqui. As vozes de estes e outros poetas são veiculadas nessas músicas que me encantam. 

 

 Do que falam suas poesias?

Tenho 2 tipos, as frases nos cadernos, que são um haiku japonês ou uma citação e os poemas propriamente ditos e lidos. 

Falam de sexo, das mulheres, da psicologia, do obscurantismo da tv, das coisas pequenas, das coisas grandes como a morte e a vida. 

 

 

Quais foram seus lançamentos?

Eu não tenho nenhum livro lançado. Tenho algumas participações em antologias. Hoje em dia qualquer um pode ter um livro editado pelas vanity press, 1000€ chegam para isso e muito mais. Não. Eu não quis fazer isso. Sinceramente, nem morro de amores por uma espécie de elitismo que a poesia tem. Não sei se vou tentar publicar e tentar impingir os meus poemas a outros. Prefiro outras coisas. Um poema não tem de estar fechado num livro. Fiz uma exposição e preparo-me para lançar um documentário onde aí se refletem alguns dos traços mais importantes do Capanga. O teaser sairá no dia 1 de Julho. Uma obra que foi feita com a colaboração de Ivo Gomes, videógrafo e amigo.  

 

Quais suas influências poéticas e artísticas no Brasil?

Já falei dos poetas brasileiros, mas também gosto muito dos poetas americanos, norte-americanos do sec.XX. Mas um poeta não se inspira só com outros poetas como é óbvio. Vocês têm outros artistas poderosos, como é o caso dos gémeos na streetart, Vik Muniz na fotografia, Romero Britto  na pintura, e no cinema… O cinema é brutal. 

 

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva seu trabalho?

Geralmente peço a outros artistas, muito maiores do que eu para lerem o meu trabalho. O gigante Chico Buarque esteve aqui no Porto este mês… Escrevi-lhe uma carta e pedi para que lhe entregassem. 
Cheguei a pedir inclusivamente  ao meu Presidente da Republica, à Adriana Calcanhoto (que nunca me respondeu) e a outros que efectivamente leram um poema meu e lhes fico grato para sempre. 

Fazer isto é um misto de alegria e dor. Alegria pois tenho a crença e a liberdade de lutar pelo que acredito. Dor por ás vezes me sentir ignorado ou por estar a “rastejar”. Afeta-me o Ego. Mas talvez o Ego precise de ser afetado… 

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

Aplausos ou apupos… Mas ao menos um eco. Envio mensagens para o espaço (internet) na esperança de mexer com alguém. Por isso decidi escrever para vocês, atravessar o mar para escrever para um País irmão, que me diz muito e que infelizmente só conheço através da cultura. 

 

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