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Madu “Estuda Tom Zé” em novo disco

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Sillas H / Divulgação.

Em referência quase que óbvia a “Estudando o Samba”, de 1976, o cantor e compositor Madu presenteou as plataformas digitais com “Estudando Tom Zé”, um álbum de apenas cinco faixas, mas que diz tudo sobre a paixão consciente que o artista tem por este ícone da música brasileira, o velho e bom Tom Zé.

Na obra de releituras ferozes, Madu canta “Sandália”, “Mãe (Mãe Solteira)”, “Solidão”, “Esquerda, grana e direita” e “Se o caso é chorar”. Dentre as cinco, aqueles com conhecimento médio a respeito da discografia de Tom, pode reconhecer com facilidade três delas. Por outro lado, “Sandália” e “Esquerda, grana e direita” podem soar como canções inéditas, apesar de isso estar extremamente distante da realidade.

Essa viagem ousada de interpretar o homem tropicalista surgiu antes mesmo do conceito do álbum vir à mente de Madu. Isso porquê quem apresentou a ideia de gravar Tom foi o produtor Guilherme Gê, em um convite especial para cantar “Vai”. O encontro discográfico inédito até então para Madu o trouxe a inspiração para pesquisar mais sobre o artista secular. Daí, deu se início a gestão de “Estudando Tom Zé”.

Com produção musical de Guilherme Gê, e com as participações especiais das cantoras Elisa Gudin e Daíra e de Jr. Tostoi, o disco já está disponível nas plataformas de streaming.

  • CURIOSIDADE MUITO BOA! A voz do próprio Tom Zé tem uma participação tímida, mas dourada na introdução da “Sandália”. Além disso, Tom escreveu a orelha do EP e já tinha feito outro trabalho com o Madu no disco “Dharma”.

Matheus Luzi – Inicio nossa entrevista pedindo para você comentar sobre “três pessoas”: o Madu ser humano, o Madu músico e o Madu fã de Tom Zé.

Madu – O Madu ser humano quer ser justo, se interessa pelo outro, é vaidoso e preocupado, elabora a vida melhor pela manhã, curte os mares e os rios e aprendeu a rezar e a estudar cantando.

O Madu músico não sabe nada, tem um canto genuíno e cheio de intuição. Autoconhecimento e pesquisa são fundamentos que o fortalecem como cantor. Não desgruda do violão e domina os acordes para que não falte amparo à sua voz. Vive um jogo de sedução. Harmonias e notas passeiam no agito da mente desse intérprete.

Tom Zé deixa esse Madu entusiasmado, o faz querer palco, teatro. Traz o pensamento crítico pra dentro da canção. Transformador pro seu processo criativo e um combustível permanente de euforia boa.

Matheus Luzi – Partindo da resposta anterior, o quê esses “três sujeitos” colaborou para que “Estudando Tom Zé” se tornasse uma realidade?

Madu – Esse estudo, foi um presente que essa jornada de vida me ofereceu. É também um enorme desafio.

 Poder contar com um músico incrível, sensível e bem relacionado que é o meu produtor Guilherme Gê, que desbravou todo esse terreno, e a generosidade desse gênio que é Tom Zé me colocaram no lugar que gosto de estar como cantor.

A escolha do nome foi mais um incentivo visto que sou um profundo admirador de “Estudando Samba”, “Estudando Pagode” e o “Estudando Bossa Nova”. Tenho fé nas minhas escolhas e gosto muito do que faço.

Matheus Luzi – Ao escutar o álbum, a gente já sente que você renovou bastante a obra do músico tropicalista. No entanto, nada mais interessante do que você mesmo contar sobre o processo de produção. Afinal, o que você acredita ter trazido de novo nas cinco canções?

Madu – O Gê vem com essa pegada pop e sabe que eu gosto de alongar as notas. No meu último álbum “Dharma”, já tínhamos encontrado esse conceito, e a nossa afinidade musical só cresceu. Trouxemos uma produção aveludada, com sentimento e profundidade. Nas guitarras houve um capricho. A nuance feminina da Elisa Gudin e Daíra. A batera do João Viana. A prosa e a poesia do Tom Zé. Acredito que vamos nos renovar e Estudar Tom Zé para sempre.

Capa do lançamento (Foto de Ana Alexandrino e arte de Barbara Coimbra)

Matheus Luzi – Em release enviado a imprensa, você cita que a ideia do álbum também lhe abriu caminhos para se aprimorar com mais intensidade na obra do Tom Zé. [COMENTE]

Madu – Sempre tive interesse pela obra dele, mas achava a escuta um pouco complexa. Timbres especiais e um certo desconforto que aos poucos treina os ouvidos e mostra novos caminhos. Com a participação dele no Dharma, fui mais a fundo. Assisti, li e ouvi muita coisa.

Matheus Luzi – Sobre as cinco músicas do álbum, qual sua visão particular sobre as letras?

Madu – “Sandália” foi uma conquista do Gê assistindo um programa antigo do Jô Soares. Ele logo entrou em contato com Tom Zé e trouxe essa genuína e delicada canção para o repertório. Datada dos anos 50, num cenário, onde o chão era de terra batida e se calcava sandálias. Me vejo no sertão de Irará, numa troca de olhares, onde a arte serve para conquistar determinado sentimento.

“Mãe (Mãe Solteira)” é a canção do “Estudando Samba” que mais gosto de interpretar. Criamos um pano de fundo com “Dorme, dorme meu pecado, minha culpa, minha salvação”. Foi um processo criativo delicioso. Trocar musicalmente com Elisa Gudin e João Viana é marcante pra mim.

“Solidão” é também desse álbum marcado pelo arame e por David Byrne. Me parece uma poeira leve. É doce a interpretação, e a produção macia.

“Esquerda, Grana e Direita”, do álbum “Vira Lata na Via Láctea”, é a mais contemporânea construção. Muitos plays nas plataformas. Uma grata surpresa. Fizemos uma produção ousada. Texto bom, levada boa e tem mensagem endereçada.

“Se o Caso é Chorar” foi furtada de grandes gênios. Chopin, Rolling Stones, um Tango de Nelson Goncalves, um remorso de Lupicínio Rodrigues, uma inversão de Caetano Veloso e uma pitada de Ari Barroso. Daíra aceitou meu convite, gravação memorável.

Matheus Luzi – Faço a mesma pergunta, mas desta vez direcionada para a essência das músicas, tanto na sua ótica artística quanto nas gravações originais de Tom Zé.

Madu – Acredito que a essência dessas vitoriosas canções se dá somente na escuta. Escutar Tom Zé, por si só, é um ato revolucionário. Aflora a nossa marginalidade no sentido do pensamento crítico e traz possibilidades de interpretação.

Matheus Luzi – Talvez haja algum leitor que, infelizmente, talvez ainda não conheça Tom Zé, ou conhece pouco. Em minha visão pessoal, seu álbum é um bom caminho para esse encontro com a obra do Tom. Nesse sentido, diga algumas palavras para incentivar esse público a sair daqui e ir direto para os streamings.

Madu – Esse álbum é um convite a toda essa imensa discografia. Outros artistas maravilhosos como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Juliana Linhares, Leticia Letrux, O Terno, Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante interpretam também de forma singular. São todos referências pra mim e vale muito a escuta. Criei uma playlist, também no meu perfil, que reúne minhas favoritas. É um passeio convidativo.

Sillas H / Divulgação

Matheus Luzi – Sobre as participações especiais e os músicos como um todo que participam do projeto, o que você tem a dizer?

Madu – A participação da Elisa Gudin se deu por ela ter interpretado Elton Medeiros, parceiro de Tom Zé em “Mãe”, no seu último EP. Gostei muito do seu canto e interpretação e entendi que cabia uma nuance feminina nessa faixa. Contar com o baterista João Viana, nessa mesma canção completou a atmosfera que queríamos.

Daíra que canta comigo a última faixa “Se o caso é Chorar”, é, na minha opinião, uma das mais talentosas cantoras do brasil. Sempre gostei da sua técnica e seu timbre. Deu certo. Escuto repetidas vezes, me arrepio e aprendo com ela.

Matheus Luzi – Há alguma relação da ideia do álbum para com o atual momento que vive o Brasil e o Mundo?

Madu – Sim. Trata-se de uma personalidade necessária para a liberdade de expressão e para um ambiente democrático. Precisamos nos politizar, nos relacionar. Somos também o outro e o coletivo.

Matheus Luzi – Há alguma história ou curiosidade interessante sobre o álbum que merece ser destacada?

Madu – Tem muita coisa boa, mas ainda não posso contar. Muitos seres iluminados conspiram a favor desse projeto. Me sinto privilegiado por embarcar nesse mote.

Matheus Luzi – Agora é o clássico momento das entrevistas da Arte Brasileira no qual deixo você completamente à vontade para falar o que bem entender, sobre qualquer assunto que desejar.

Madu – Muito grato por esse encontro. Desejo a todos os leitores e ouvintes, um novo momento. Cheio de compreensão, carinho, envolvimento e amor.
Quero que o mundo cante e estude Tom Zé.

Um beijo, do ocidente tropicalista.


FICHA TÉCNICA

Sandália (Tom Zé)
Madu – Voz
Guilherme Gê – Violão aço, Violão nylon, Ash body (baixo), Ganzá, Caxixi,
Cadeira de ferro com vassourinha e Programações
Produção musical, arranjo e mixagem – Guilherme Gê
Masterização – Alexandre Rabaço

Se o Caso é Chorar (Tom Zé/Antônio Perna Froes) feat. Daíra
Madu – Voz
Daíra – Voz
Guilherme Gê – Violão nylon, Guitarras, Ebow, Teclados, Baixo, Samples e
Programações
Produção musical, arranjo e mixagem – Guilherme Gê
Masterização – Alexandre Rabaço

Mãe (Mãe Solteira) (Elton Medeiros/Tom Zé) feat. Elisa Gudin
Madu – Voz
Elisa Gudin – Voz
João Viana – Bateria
Guilherme Gê – Teclados, Guitarras, Ebow, Bass Moog, Baixo e
Programações
Produção musical, arranjo e mixagem – Guilherme Gê
Masterização – Alexandre Rabaço

Só (Solidão) (Tom Zé)
Madu – Voz
Jr Tostoi – Locução, Texto
Guilherme Gê – Violão nylon, Baixo, Guitarras, Teclados, Yamaha Electone
Combo Organ, Samples, Caxixi, Ganzá, Block e Programações
Produção musical, arranjo e mixagem – Guilherme Gê
Masterização – Alexandre Rabaço

Esquerda, Grana e Direita (Tom Zé)
Madu – Voz
Jr Tostoi – Texto
Guilherme Gê – Guitarras, Baixo, Moog, Yamaha Electone Combo Organ,
Teclados, Samples, Programações e Vocais
Produção musical, arranjo e mixagem – Guilherme Gê
Masterização – Alexandre Rabaço

CAPA EP ESTUDANDO TOM ZÉ
Foto: Ana Alexandrino
Arte da capa: Barbara Coimbra

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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