27 de maio de 2024
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“A Grande Família” e o poder da comédia do cotidiano

A Grande Família

A série “A Grande Família” é exemplo de um gênero do humor que funciona como um espelho capaz de revelar os traços mais engraçados dos nossos dilemas diários. Mergulhe no assunto com este artigo escrito por Jean Fronho em 2018 e editado por Matheus Luzi no mesmo ano.

Existem palavras que, pelo fato de as usarmos com muita frequência em nosso cotidiano, acabamos perdendo a dimensão mais profunda de seu sentido. Uma delas é “humor”. Algumas das definições do termo que constam no dicionário Michaelis On-line são as seguintes: “Estado de espírito de uma pessoa […]”; “Tendência para a comicidade” e “Forma inteligente de expressar-se com ironia sobre qualquer fato ou situação do cotidiano […]”.  Já na oitava edição do Mini Aurélio pode-se encontrar: “Disposição de espírito”; “Veia cômica, espírito, graça”; e “Capacidade de perceber ou expressar o que é cômico ou divertido”.

Relacionando esses resultados, nota-se que, diferentemente do que estamos acostumados a pensar, falar em “humor” não é simplesmente falar de algo engraçado, que nos faz rir. É, antes de tudo, falar de um “estado de espírito”, um modo como a pessoa se dispõe e se apresenta perante os outros. O “material de trabalho” do humor é o sentimento, o que não quer dizer que ele seja uma simples sensação de alegria, de tristeza, de ódio, de inveja ou de medo, mas que, em meio a essa miscelânea de ingredientes, o humor é o estado no qual a pessoa se encontra e com o qual encara o que está à sua volta, mesmo que isso não seja muito favorável. E o humor é bom quando a pessoa está, com ânimo, no contexto em que se encontra.

Divagações à parte, o ponto ao qual eu quero chegar é que um dos cenários mais propícios para enxergarmos essa condição é o cotidiano. Vivemos em um mundo no qual os sonhos e os anseios são alimentados, ao mesmo tempo em que as frustações e os conflitos são inevitáveis. Por isso, é natural que os meios de comunicação encontrem diferentes formas de expor a dramaticidade da vida, aproveitando-se também para transmitir alguma motivação. Nesse contexto, os chamados “programas de humor” se revelam muito eficazes, justamente por conseguirem fazer com que demos risada de situações tão comuns a nós, proporcionando certo conforto diante de fatos que nem sempre são dos mais agradáveis. Em meio ao inevitável mar de sentimentos – nem sempre bons –, vale muito aquilo que tem condições de melhorar o humor.

Na cultura popular brasileira, desde sempre isso foi explorado. Antes do surgimento dos meios de comunicação em massa, os circos cumpriam muito bem essa função. Ainda que misturassem elementos épicos, havia, em maior ou menor grau, situações do cotidiano a serem exploradas. Posteriormente, com o desenvolvimento do rádio, e depois o da televisão e o da internet, a intensa massificação da vida foi deixando a abordagem das experiências diárias comuns cada vez mais escrachadas. E mais poderosas.

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“A GRANDE FAMÍLIA”

Falando especificamente de televisão, um dos programas que melhor ilustra isso é “A Grande Família”. E, aqui, deve-se mencionar outro fator que potencializa o alcance ao público, que é o fato do programa se centrar na família. Trata-se do horizonte perfeito para as pessoas se enxergarem, pois nele se misturam sentimentos, intimidade e dilemas que mais diretamente afetam a vida, aliados a uma noção de pertencimento, que, se por um lado aumenta a responsabilidade, por outro, traz carinho e conforto. A série “A Grande Família” foi inicialmente exibida na década de 70 pela Rede Globo. Em 2001, a emissora começou a exibir o remake, o qual durou até 2014. E o sucesso não foi por acaso. 

A instituição “família” está vivamente presente no imaginário da imensa maioria dos brasileiros. Mesmo aqueles que vivem sozinhos projetam nos integrantes do programa alguns familiares que já tiveram ou que ainda têm, porém, distantes. Isso porque os personagens não são casuais ou aleatórios; são arquétipos, ou seja, modelos que representavam muito bem as pessoas do mundo real em sua forma de lidar no cotidiano. Quem não conhece um pai que seja rigoroso e com uma inabalável integridade de princípios? Quem não conhece uma mãe com coração amoroso, capaz de burlar as convenções para fazer o bem à família? Ou um filho que, apesar da idade adulta, ainda não conseguiu sua independência financeira e vive à custa dos pais? Uma filha apaixonada por um metido a espertalhão que tenta levar vantagem em tudo? E os exemplos continuam: a solteirona de meia idade dona do salão de beleza, o caricato dono do pequeno comércio local, o mecânico garanhão e atrapalhado, o chefe de repartição canastrão e pouco afim ao trabalho, etc. A verdade é que Lineu Silva, Nenê, Tuco, Bebel, Agostinho, Marilda, Beiçola, Paulão, Mendonça e companhia fazem parte das famílias de todos nós. Em certo sentido, eles são nossos familiares porque nos são familiares. Eles sempre têm algo a nos dizer.

Daí, voltamos à expressão “estado de espírito”, mencionada no início do texto. “A Grande Família” é uma fórmula de sucesso no humor não apenas porque traz coisas que provocam risos, mas por ser uma representação adequada do modo como a imensa maioria das pessoas se situam – ou já se situaram – no cotidiano. Não há maneira melhor de mexer no humor das pessoas do que as inserindo numa dimensão em que podem se identificar com o mar de sentimentos no qual elas estão mergulhadas, e ainda com a forma como eles se configuram. A família suburbana em uma casa prosaica, que lida com o controle de gastos, e que conta com os costumeiros contratempos do pai, da mãe, dos filhos, dos genros e dos agregados é um cenário perfeito para os brasileiros se enxergarem. E como se trata de personagens de um programa de comédia, eles proporcionam um bom estado de espírito, um “bom humor”. O que torna especial a capacidade de proporcionar alegria é que, assim como todas as famílias, ela não é uma família perfeita. Os típicos problemas estão ali: despedidas, brigas, discussões, separações conjugais, dívidas, ofensas que deixam marcas. Porém, acaba triunfando o otimismo, pois se sabe lidar com os bons momentos, além de haver um sentimento de solidariedade, pois é comum que pensemos: “eu também estou passando ou já passei por isso”.

TENSÃO E ALÍVIO EM FAMÍLIA

Não foram poucos os estudiosos que se debruçaram sobre o tema do humor. Ao longo da história, é possível identificar algumas teorias que explicam o motivo do ser humano se alegrar, dar risada. Duas dessas teorias são as que se fundamentam nas concepções de superioridade e de alívio.

De um modo geral, segundo a primeira concepção, tendemos a achar graça quando percebemos alguma privação no outro, o que direta ou indiretamente faz com que nos sintamos superiores. No mundo contemporâneo, esse tipo de humor pode ser despertado tanto na forma do insulto que pretende ridicularizar o outro, quanto na auto-humilhação. No caso de “A Grande Família”, por inúmeras vezes vários personagens passaram por situações extremamente embaraçosas e pitorescas. É evidente que há algo de mórbido em rir por ver o outro em má situação. Mas, quando isso é trabalhado na perspectiva da identificação, o humor ganha outro caráter. Alguém pode rir do Agostinho tendo que ir morar de favor na casa do sogro, não apenas porque essa pessoa tem casa própria, mas, também porque ela já passou pela mesma situação.  Ou alguma pessoa rir da Marilda com crise de consciência após ter reatado o relacionamento com um homem que fingia lhe amar, não por se deliciar com a tristeza alheia, mas por já ter sentido na pele o que isso significa.

Quando dilemas assim são colocados de um modo escrachado, o que era trágico vira cômico a partir de uma perspectiva de identificação, pois o universo de sentimentos, com suas configurações, é o mesmo. É aí que entra a segunda concepção: a de alívio. Sigmund Freud é o mais notório pensador dessa perspectiva, na qual o humor é a superação de uma tensão. As relações humanas são marcadas por tensões, e o riso seria um sinal de alívio diante delas. A mistura entre comédia e drama fica evidente, por exemplo, ao fim de cada episódio: termina-se com uma discussão generalizada que tem como música de fundo a animada música homônima, composta pela dupla baiana Tom e Dito. Ou seja: por mais que o clima esteja quente, no fim a sensação que fica é de que “está tudo em casa”; eles “brigam por qualquer razão, mas acabam pedindo perdão”.

Com certeza, “A Grande Família” não é o único programa de comédia que se aplica a esse caso. “Sai de Baixo” segue uma lógica semelhante. O mesmo se pode dizer de “Meu Cunhado”, que teve como protagonista o personagem “Bronco”, interpretado pelo saudoso Ronald Golias. Pode-se citar também os inúmeros personagens criados e interpretados pelo genial Chico Anysio, os quais representavam diferentes facetas do povo. Isso para não falarmos nas telenovelas, que imortalizaram personagens, cômicos ou não, devido à total identificação com os brasileiros. Mas, no caso da comédia, mais do que fazer com que o outro se identifique, ela deve ajudar a alterar positivamente o “estado de espírito”, o que requer a abordagem de problemas concretos, que façam parte do cotidiano de todos, além da capacidade de saber destacar o que há de pitoresco nisso, para que se ria um pouco do personagem e um pouco de nós mesmos. Talvez, por isso, toda comédia do cotidiano tem um aspecto de uma grande família, dada a grande proximidade entre os personagens e os telespectadores.

Daqui 50 anos, iremos comemorar algum lançamento ou estaremos apenas idolatrando os velhos ídolos de hoje?

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