13 de abril de 2024
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A literatura feminina e os seus desafios

Literatura Feminina

LITERATURA FEMININA: Eu fiquei sem escrever algo concreto por dois meses. Um bloqueio talvez ocasionado pelo meu anseio por coisas novas. E de repente me deparo com um livro, o e-book chamado “Mulher Do Fim Do Mundo”. Neste livro, encontrei diversas mulheres numa sociedade opressora. Uma sociedade que oprime a nós mulheres. E essa opressão nos traz danos psicológicos. 

Mas eu arrisco dizer que a Mulher não é do fim do mundo e sim a mulher do mundo. O mundo sem a mulher não funciona.

Nesse exato momento eu poderia continuar o assunto falando sobre a opressão sofrida por nós ou então sobre a literatura afro-brasileira – algo muito falado por mim – dizer que ela não se restringe somente a Luiz Gama, Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto. Porém o papo é de mulher para mulher, mas nada que você não possa se interessar e querer aprender sobre isso. O assunto em si é a literatura feminina e os seus desafios.

Então vamos ao ponto de partida.

Como bem sabemos e que muito foi falado por mim, a jornada da mulher na literatura não foi nada fácil, ocupar um espaço que sempre foi ocupado por homens é quebrar as barreiras de uma sociedade extremamente machista e opressora. Pois séculos antes da sua chegada na literatura a mulher não podia ter acesso ao conhecimento e com a sua chegada ela veio desconstruindo todo o processo literário. 

Essa desconstrução acaba com a ideia de que a mulher aceita qualquer coisa porque é um ser frágil e carente. Uma visão equivocada da sociedade sobre o seu lado feminino! A verdade é que a sociedade desde os primórdios da humanidade tenta construir a mulher à sua maneira, o que acha necessário e correto. Mas a cada tentativa se depara com a mulher independente e feminista. Aquela mulher bem decidida. Aí surge o medo das mulheres dominarem o mundo, porque para o bem de todos a mulher submissa e sem conhecimento é melhor para uma convivência social e política. 

Certa vez, numa oficina de poesia dada por mim a convite, eu falei que mulher com conhecimento é mulher com asas para voar longe, o que é condizente com a realidade atual dessa mulher livre. Então qualquer coisa que a mulher faça será alvo de críticas de toda a sociedade. Quando eu falo sociedade eu coloco também nessa bagagem a mulher, porque algumas mulheres não conseguem lidar com o posicionamento e liberdade de outras mulheres. Tem uma lógica nisso, analisando todo o contexto histórico feminino vemos que a mulher foi educada a ser dependente não independente e tomando espaço no campo da educação, cultura e literatura vem mostrando outra realidade.

Primeiro que os desafios não estão só com a mulher em si na literatura, mas também com essa mesma mulher na sociedade. 

Conversando com outras mulheres elas me relataram que não foi nada fácil chegar onde chegaram, muitas cobranças de amigos e familiares. Muitas delas eram mulheres de 40 anos de idade. A própria sociedade diz que os 40 anos é a “idade da loba” o que soa um tanto pejorativo não contribuindo em nada com as mulheres. Mas essa expressão pode ser vista em vários aspectos, do ponto de vista mais profundo. A principal ideia é que aos 40 anos a mulher é mais ágil, ativa e livre. Outros fatores tem como ideia a mulher bem madura, voraz sexualmente e poderosa, rompendo as barreiras de muitos tabus.

Com relação a romper barreiras posso citar como exemplo a escrita Maria Carolina de Jesus.

Mas é preciso enfatizar que quando se fala da figura feminina na literatura brasileira é referida como uma escrita melosa, adocicada feito mel. Chata e monótona para muitos! Tanto que a mulher não é referência na literatura. Nas rodas de bate papo são sempre mencionados os escritores homens. A mulher tem a imagem de doméstica, empregada, mãe e esposa, jamais escritora ou uma profissão melhor que a do homem. 

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Vejamos o exemplo de Maria Carolina de Jesus na literatura feminina

Literatura Feminina
Carolina Maria de Jesus (Foto: Audálio Dantas)

Durante muito tempo a escritora, nome forte da literatura feminina, permaneceu no anonimato. Saiu do anonimato quando o seu primeiro livro foi publicado, ‘’Quarto de Despejo’’. 
Uma mulher negra, pobre, residente numa favela. A favela é Canindé em São Paulo. 
Com uma dura realidade, a escritora cuidava de seus três filhos catando papéis para a sobrevivência de todos. 
Mesmo sem estrutura e sem muito acesso ao estudo, a autora nutriu uma grande paixão pela literatura. Com poemas e diários escrevia a sua situação precária de vida. 
Uma difícil realidade que muitos negros enfrentam até hoje, fruto do escravismo, onde negros não podiam sequer saber escrever seus nomes. 
Na visão de Carolina de Jesus, assim como é tão conhecida, ‘’o negro só é livre quando morre’’. E com relação a ser pobre ela dizia que ’’o maior espetáculo do pobre da atualidade é comer’’.

Maria Carolina de Jesus uma mulher à frente de todas as dificuldades e preconceito social e racial. Uma mulher que ousou ser bem mais que mãe, bem mais que mulher, bem mais que ser catadora de papel.
Quando sonhou em ser escritora no ano de 1941 foi atrás de seu sonho sem medo das portas se fecharem para ela. Ela foi até a redação de um jornal, o Jornal Folha da Manhã e mostrou seu escrito em homenagem a Getúlio Vargas. Não deu outra, seu poema foi publicado com a sua foto estampada no dia 24 de fevereiro. Esse ato virou uma rotina na sua vida, Maria Carolina continuamente levava seus escritos para o jornal e com o tempo fora apelidada pelos seus leitores como ‘’A Poetisa Negra’’. 
Maria Carolina incansavelmente escrevia o seu mundo e jamais deixou de lutar pelos seus ideais. Sua luta sempre constante era presente em seu trabalho literário, seja em prosas e versos. 
A Favela de Canindé foi o cenário de sua vida e as páginas do seu diário, que originou o livro ”Quarto de Despejo”. Neste lugar sonhou um mundo melhor para seus filhos e toda comunidade pobre.

Saiba mais sobre Carolina Maria de Jesus nas reportagens de El País

Sobre a articulista Clarisse da Costa

Clarisse da Costa, escritora catarinense, designer, YouTuber e Imortal na Academia Mundial de Cultura e Literatura. Livros publicados: “Hiper-grafia” em parceria com o Escritor Samuel da Costa, “Nagô das Negras”, livro solo, “Oceanos” livro solo. Organizadora de 3 antologias, “Mulheres da Resistência”, “O Cálice do Desejo” e “Paixões a Flor da Pele”.

[RESENHA] A literatura brasileira é seca, é úmida, é árida, é caudalosa.

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