21 de fevereiro de 2024
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Uma melodia que deixa líquida a palavra e impulsiona o despertar dos seres – crítica de Fernanda Lucena sobre “Excalibur”, o espetáculo de Aquim Sacramento

Que sons tocam em seu interior? Que vozes falam em sua cabeça? Que trilha sonora explica o seu agora? Em que volume você pensa? Em que velocidade seus
pensamentos falam? Há som de choro dentro de você? gritos de desespero de uma essência aprisionada pelo medo de ser diferente? medo da rejeição de quem acha que a vida é uma monocultura? Que sons emitem os seres diversos que lhe habitam e que foram jogados no porão do seu inconsciente enquanto você vive os papéis dos personagens que o patriarcado te vendeu como modelo ideal de personalidade? “E se, porventura, fosse mais belo contemplar o alto? (…) Você sente um desejo de metamorfose? Sente alguma coisa que te atrai, que te atrai, que te atrai em direção ao alto?” (Dimash).

“Excalibur”, o espetáculo, tem o nome da lendária espada do Rei Arthur, que segundo a lenda adentrou uma pedra como uma faca quente numa margarina e não mais poderia ser retirada de lá a não ser que pelas mãos do legítimo rei. Excalibur significa “corta o aço”. E o que Aquim faz com o público?

O show começa com um solo percussivo que dá vazão a todos os pensamentos que enovelam as tramas de cada pessoa da plateia. É como se Aquim Sacramento pudesse ouvir os diversos ruídos mentais que diminuem a sensibilidade do público. Assim, esse primeiro solo parece varrer da mente coletiva e conectada, tudo o que a ocupa levianamente, um chamado à presença plena de sentidos atentos que possam beber os significados do espetáculo, para que se possa contemplar o alto, que porventura é bem mais belo. É sobre alcançar silêncios que permitam que os sons do artista preencham as almas presentes, verdadeiramente, no alto.

Os barulhos do pensar cotidiano na labuta diária da vida ganham ritmo pelos toques rápidos que principiam o espetáculo. Quando todos eles passam a estar regidos pela cadência dos instrumentos que estão sendo tocados, o artista parece ganhar poder sobre tudo o que o contempla. Ele faz com que os pensamentos acelerados dos presentes se amansem, quando finda o solo e abaixa a cabeça em gesto devoto ao sentir de sua plateia, entregue, lhe aplaudindo. Aqui, Aquim apazigua oris. Orí que significa cabeça, coroa, chakra coronário, lugar que abriga o divino.

Aí ele vai pro vibrafone. Ahhhh, vibrafone, “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê e os meus olhos ficam sorrindo.” (Pixinguinha) Com a mente em silêncio, pode-se ouvir as batidas de cada coração indo lá se derramar nas teclas, o dele pelas mãos, os do público pelos olhos e ouvidos entregues, em profundo deleite. Os acordes nos levam para um lugar de pertencimento profundo, onde tudo é aconchego. E os tons de amarelo e azul que iluminam o palco parecem nos levar às águas mais límpidas de nossas emoções. Seja lá qual for o problema que cada ser chegou ali fritando na cabeça, suas vozes foram silenciadas e nesse momento só há lugar para um prazer muito genuíno, ao contemplar os enlaces sonoros que Aquim parece tecer, como quem faz com agulhas de tricô uma unidade entre palco e plateia, razão e emoção, yin e yang. Agora somos todos um. E ainda mais diversos.

Blackout.

Quando a luz começa a renascer, ele não está mais em cena. A dança preenche os olhos. Dois corpos que chegam, se veem de longe e se apresentam um ao outro,
mergulhando na maré calma que inunda o palco com o azul do mar. Tiram do fundo de suas águas uma força simétrica e sincrônica, que expande, relaxa e revigora. Tropeçam para perto, se fundem, se encaixam e se soltam. Cada ser encontra ao mesmo tempo o seu chapéu e baila com ele do seu jeito singular. Disso nasce um ânimo que traz Aquim de volta ao palco, com um figurino que exala o seu orgulho em ser diferente do estereótipo de homem que o patriarcado inventou para manter a engrenagem do capitalismo funcionando.

Fluindo livre como um rio que vai dourando o palco, tão calmo em ser exatamente quem ele é. Brinca com sua singularidade, dança com ela. E se algum pensamento na
plateia for contra o seu cropped, cale-se agora e cale-se para sempre. Feminino e masculino casados em um ser. Polos representados pelos dançarinos em cena.
Orquestrando seus sons com qualidade, atento aos volumes, ao seu ritmo, ao tempo de sua respiração. Diante de tanta liberdade, o ambiente ganha uma energia uterina e isso descansa os corpos, os que dançavam agora se deitam, cada um em um pólo de Aquim. Até que o som os desperta, tranquilos, levitando sincrônicos para depois cada um encontrar no movimento seu próprio caminho dentro da mesma música. E assim é!

Ondas de rio que desaguam no mar são as palmas e pés pisando no batuque que o vibrafone adoça. E nesse embalo os brincantes presentes se desafiam, se fundem, se firmam entregando um ao outro um colar de pipocas. Eles saem de cena, caminhando cada um a sua trajetória para a mesma direção no mistério da vida, deixando pronta uma caminha das flores de Obaluaê (as pipocas) para que Aquim volte ao seu lugar de destaque e mostre as suas habilidades percussivas nas raízes agridoces do pagodão da Bahia.

Assim, os bailarinos preparam um terreno seguro, abençoado e protegido sobre o qual o artista, já com outro figurino, é semeado sensivelmente e, quando voltam, voltam juntões, mais ousados, muito conectados, trazendo uma chuva de Bahia com eles. Fertilizando Aquim, coreografando a força baiana viva que faz todo mundo brotar de dentro de si e se mexer na cadeira, lambuzando de swing os assentos da plateia, metendo dança na baianidade máxima do pagodão.

Trajados pelo branco da paz de Oxalá, finalizam suas participações varrendo a atmosfera com insabas (folhas). “Sem folha não tem sonho, sem folha não tem festa, sem folha não tem vida, sem folha não tem nada”. (Maria Bethânia)

Azul e rosa como o céu no por do sol, agora o palco é todinho dele, como no verbo do princípio, mas agora sem ruídos mentais, a plateia em catarse de paz e inspiração. E Aquim finda o espetáculo pulsando com o vibrafone o ritmo que deixa nos corações dos presentes uma provocação sobre a dança interna entre o feminino e masculino que habita todos os seres, em proporções e formas distintas, com certeza. Tocando a música tema do espetáculo, “Excalibur”.

“Excalibur” é uma composição de Zack Nascimento, sob referencial teórico musical indicado por seu professor, Aquim. A primeira música inspiração dessa obra é “Don’t Hurt Yourself”, de Beyoncé, com influências de Led Zeplin. E uns semi-tons são recortados do show da diva e costurados no final de “Excalibur”, o espetáculo. Acordes vizinhos que deslizam entre si. Essa letra de título “não se machuque” é um alerta de última chamada para uma pessoa acordar pra vida. É chegado o momento!

Aquele momento em que a identidade se conecta ao seu ritmo verdadeiro, monta em seu cavalo, ocupa sua nave, veste seu traje, afina seu instrumento, aperta o rec e dança um trap. Depois de retirada sua espada da pedra, deixe ela, que ela vai se apresentar! Chega de contarem sem ela a sua história, ela se sabe melhor que ninguém, então irá protagonizar essa conversa.

“You should see me in a crown” – você deveria me ver com uma coroa – Billie Eilish, é a segunda referência da faixa. “Mordo minha língua, espero minha vez. Usando um sinal de alerta, espero até que o mundo seja meu. Visões, eu vandalizo, fria na extensão do meu reino” afirma ela. Rainha coroada pela “Excalibur”, uma espada que corta dos dois lados, elegante demais para ficar em uma bainha na cintura, guardada na camuflagem de uma coroa, invisível para a maioria, radiante para semelhantes. Cortante no que excede.

O vibrafone é a grande estrela do espetáculo, um instrumento melódico harmônico de percussão em lâminas (teclas), um teclado percussivo que, nessa obra, dialoga com a harmonia de um teclado tradicional e uma guitarra, enlaçados com a percussão de uma bateria. Uma melodia que deixa líquidas as palavras, derrete as letras e no sentir consegue nos dizer tudo. Trilha sonora de uma transgressão, cada ouvinte uma nova história. Usando quatro baquetas e tocando tudo dobrado, Aquim Sacramento atravessa as veias abertas do Brasil, em transgressões de superação da homofobia e no vital despertar do real.

Ao sabor de uma vitalidade que transborda em muitos aplausos, os corpos vivos e verdadeiramente presentes voltam-se para si, colocam-se de pé e vivem a catarse do som das palmas. Agora eles vão para os seus destinos, se encontrarem com as mesmas pedras em seus caminhos, mas com os volumes regulados entre o barulho da razão e as batidas do coração. Ouvindo o som da fonte dos insigths e regulando o poder do medo sobre o tear do seu caminho. Podem agora perceber em uma dessas pedras onde está a sua excalibur, a força guerreira capaz de proteger a sua verdade dos cacos petrificados da homofobia, do
racismo, do machismo e de todos os códigos patriarcais de poder que oprimem a diversidade humana.

Seria o próprio ritmo a Excalibur de cada um? Enquanto dentro de você ecoar uma poluição sonora que nem você dá conta de suportar, saiba que sua espada está presa na pedra. Mas por ter retirado a dele, Aquim tem o poder de nos fazer sentir por alguns minutos a qualidade sonora que podemos viver internamente no cotidiano, em todos os agoras. Tire o seu ritmo da pedra. Orquestre o seu som interior. E caminhe o seu caminho, no seu tempo. Escreva e leia a poesia do seu protagonismo no tear dos acontecimentos de sua vida, ser histórico-social!

Sobre a autora da crítica

Fernanda Lucena é Bacharela Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (UFOB), pós graduada em Marketing Digital (UNOPAR) e Produção Cultural, Arte e Entretenimento (FACUMINAS). Contato: fernandalucenaproduz@gmail.com

Créditos

Uma realização ALVES PERCUSSION

EXCALIBUR, o espetáculo de Aquim Sacramento

Compositor da música tema: Zack Nascimento
Dançarina: Uiliane Monteiro
Dançarino: Alan Fradique
Filmagem e edição: Avoa Filmes
Fotógrafa da capa: Karen Silva
Autora da crítica: Fernanda Lucena
Editor da publicação: Matheus Luzi