9 de junho de 2026

Mário Quintana e sua complexa simplicidade em Caderno H

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CADERNO H: A COMPLEXA SIMPLICIDADE DE MARIO QUINTANA

 

Mario Quintana (1906-1994) foi um poeta gaúcho de constância poética durante toda a vida. Escrever fazia parte de sua rotina e dizem que se casou com a própria poesia, já que nunca teve esposa e filhos. Essa quase “dedicação exclusiva” pode, em parte, explicar a devoção de Quintana pelos versos, mas está longe de explicar como o poeta gaúcho conseguiu se tornar especialista numa simplicidade tão complexa. Mestre das sacadas rápidas, Quintana usa de poucas palavras para brincar com a vida. Dizia sempre que um bom poema era aquele que parecia ler a gente, ao invés do provável contrário.

Caderno H foi seu projeto mais duradouro, escrito ao longo de anos em suas colunas em jornais e reunidos em sua totalidade num livro de mesmo nome. Passear por suas páginas é se surpreender com sacadas rápidas de velho oeste como “o fantasma é um exibicionista póstumo”. Sim! O fantasma nunca aprende, e Quintana também não. Mesmo após sua morte, sua poesia segue atual e presente. O poeta gaúcho é exemplo de que prêmios, títulos e cadeiras de academias de letras não são requisitos necessários para se tornar eterno. Mesmo nunca tendo ocupado uma cadeira da academia brasileira de letras, cargo que seria mais do que justo, Quintana ocupa espaço privilegiado na própria poesia mundial.

Quintana comenta que nunca escreveu nada que não fosse real. Nada que não tivesse vivenciado, sonhado, imaginado, pois tudo isso era real para ele. Conta, em Caderno H, a história do dentista que todas as vezes que via o poeta perguntava “como vai a poesia?”, e as pessoas ao redor se viraram para o poeta tímido e contido. Incomodado com as interrogativas do dentista, o poeta passou a perguntar ao dentista antes que ele pudesse iniciar o diálogo. “Como vai o maçarico?”, lançava ao dentista que acabou passando a evitar o poeta. Tímido em rua, mas nunca tímido em poesia.

O poeta não gostava de sarau e nenhum tipo de representação de poesia. Para ele, a poesia bastava nela mesma, escrita num papel onde “já passou todo o mistério da vida”, uma frase dele mesmo. A poesia, para ele, era simples e prática, sem complicações. Transmite a mensagem por si só. De fato, Quintana nunca foi de floreamentos desnecessários. Sempre direto ao ponto, com um toque de humor em muitas de suas poesias, tornou-se referência não de como fazer poesia, mas de como viver a própria poesia.

 

Reportagem de Davi Drummond.

 

 

 

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