15 de abril de 2024
Coluna do Mauro Machado

Flores Astrais trazem a energia do Secos & Molhados para o Brasil de 2022 em noite no Teatro Riachuelo

De forma quase folclórica, os Secos & Molhados foram um verdadeiro fenômeno dos anos 70 em popularidade, criatividade, qualidade artística e quebra de paradigmas, e é bem verdade que seu legado continua influenciando gerações de músicos até hoje. Os cariocas Danilo Fiani (voz), Mário Vitor (voz, guitarra, violão), Luiz Lopez (voz, violão e piano), Alan James (baixo) e Rike Frainer (bateria) entenderam bem isso e resolveram homenagear o grupo através de Flores Astrais. Tributo, homenagem, cover. Quaisquer um desses termos serve, e ao mesmo tempo, se faz insuficiente para dizer aquilo que Flores Astrais faz com relação aos Secos & Molhados.

O show contou com repertório, interpretações, figurino e maquiagem replicados daquilo que foi apresentado ao Brasil em 1973, mas não parou por aí. Houve também jogo de luzes dançantes que foi espetáculo próprio, assim como jam sessions que colocaram a personalidade desses músicos para além do teor de reproduzir o original. E até aquilo que não é necessariamente musical, mas estava no comportamento inconformado e transgressor do Secos e Molhados pôde ser visto, como quando Danilo Fiani parou para proclamar a letra de “Tem Gente Com Fome”, também contextualizada pelo cantor em seu discurso. Fiani a apresentou como uma canção que, apesar de gravada por Ney Matogrosso, não chegou a receber versão pelos Secos & Molhados dada a censura da ditadura militar. O momento, surgido de improviso, não foi combinado com os companheiros de banda, mas fez todo sentido e emocionou a plateia. Gritos e aplausos foram dados, então, com efusividade por quem ali estava presente.

Foi por momentos como esses e pelo conjunto da obra que Flores Astrais conseguiu divertir seu público na mesma medida em que honrou o trabalho do conjunto no qual se inspira. É muito difícil cantar como Ney Matogrosso cantava, ou mesmo harmonizar vozes como ele harmonizava junto de João Ricardo e Gérson Conrad, mas não se trata de estar no mesmo nível. Ao contrário de espetáculo musical que deixa quem assiste boquiaberto, com músicos virtuosos tentando ressignificar a obra de um dos grupos mais icônicos da MPB, foi assistida uma ode a ele com pitadas de personalidade própria.

Aquilo que era mais importante, capitaneado pelo espírito transformador e revolucionário dos Secos & Molhados, estava lá. Flores Astrais mostraram o quanto ainda estamos, no Brasil, ligados aos anos 70. Pelo fator atemporal em canções clássicas como “O Patrão Nosso de Cada Dia” e “Sangue Latino”, mas também pelas questões sociais tão graves que encontrávamos antes e encontramos agora.

Vídeo registrado por Mauro Machado

Foto de capa da matéria: Lucíola Villela