14 de janeiro de 2026

MPB4 celebra 50 anos de “Cicatrizes” no Teatro Riachuelo [COBERTURA]

Se efemérides são oportunidades perfeitas para festejar marcos especiais, não seria exagero dizer que o MPB4 aproveitou a oportunidade e instaurou uma verdadeira cerimônia apoteótica na noite de estreia do show comemorativo do álbum “Cicatrizes” no Rio de Janeiro. Acompanhados da econômica banda de apoio contando apenas com João Faria (baixo), Pedro Reis (guitarra) e Marcos Feijão (bateria), o quarteto niteroiense explorou arranjos e sonoridades tão densas que pareciam saídos direto das gravações de estúdio. Miltinho, Aquiles Reis, Dalmo Medeiros e Paulo Malaguti Pauleira soavam como uma única massa sonora, fosse em uníssono ou em forma de diálogo. Sem falar, é claro, das aberturas de vozes impecáveis largamente utilizadas por toda performance.

Após forte número de abertura que funcionou como boas-vindas ao público, o MPB4 enfim introduziu “Cicatrizes”, e de maneira peculiar. Não se tratou de uma reprodução fiel do disco na íntegra e nem na ordem exata de faixas, mas quase como fluxo de consciência da banda para com sua plateia.  Entre canções e conversas com a audiência, um panorama sobre o álbum e memórias deles era traçado na medida em que episódios da época eram revelados pelos quatro cantores. A parceria com Paulo César Pinheiro na faixa-título “Cicatrizes” e a gravação da até então inédita composição de Jorge Ben “Bom dia, Boa Tarde, Boa Noite Amor” foram sendo contadas num tom espontâneo e amigável. Todas tocadas com sonoridades parecidíssimas com os registros de estúdio, nos mesmos arranjos, assim como também foi “Agiborê”,“San Vincente” e todo o restante do repertório apresentado.

Confira a apresentação de “Roda Viva”

Crédito: Mauro Machado

Aquilo que talvez tenha sido um dos mais fortes pontos da atmosfera do show, entretanto, foram as conexões entre passado e presente. A celebração de “Cicatrizes” não se deu de modo nostálgico, distante, mas conectada com o momento presente. Os integrantes do grupo comentaram, no plano metafórico e literal, sobre os anos de chumbo da ditadura militar, a censura que sofreram e a dificuldade do fazer artístico no governo Médici. Lembraram, por meio da união entre música e discurso, do fantasma que esses temas representam na história brasileira recente. Isso se deu, inclusive, pelos últimos números de encerramento que contaram com algumas das mais importantes parcerias com Chico Buarque. “Cálice”, “Apesar de você” e “Roda Viva” foram também escolhidas por dialogarem com esse paralelo dado entre o antes e o agora proposto pelo MPB4. Por serem músicas de enorme popularidade, trouxeram uma qualidade grandiosa para o término do espetáculo.

Ficou claro que as muitas cicatrizes sobre os quais tratavam o show não se limitavam ao álbum de mesmo nome, e essa concepção foi aquilo que mais marcou na apresentação. Um grupo veterano, com muita história para contar e com lugar cativo na história da música nacional rememorando um de seus mais importantes trabalhos junto de outros tópicos pertinentes a ele. O MPB4 não pretendeu se reinventar, ou mesmo esconder os sinais do envelhecimento de seus membros, sua questão é seguir fazendo boa música. No caso do que foi mostrado ao público no Teatro Riachuelo, melhora ainda mais se considerarmos o acompanhamento de alto nível por parte da banda acompanhante, das luzes cênicas e maturidade artística ímpar.

Sobre o MPB4

Crédito: André Pinnola / divulgação do show.

Originário da cidade de Niterói e formado em 1965, o MPB4 era originalmente formado por Miltinho, Magro, Aquiles e Ruy Faria. Habilidosos instrumentistas, mas mais habilidosos ainda como cantores, o grupo sempre teve o aspecto vocal como principal diferenciativo. Por sua qualidade, mantiveram relações e parcerias com grandes nomes da música brasileira como Chico Buarque, Quarteto em Cy e Nara Leão ao longo de sua trajetória.

Hoje, com formação diferente, o conjunto tem seu marco bem colocado dentro da história da MPB. Tanto pelas parcerias mencionadas, pelos inúmeros discos lançados, quanto por seu assertivo enfrentamento político durante as décadas de 60 e 70. E, não menos importante, por seguir levando seu legado adiante com tanta firmeza mesmo depois de tantos anos.

Sobre “Cicatrizes”

Posto como álbum favorito do MPB4 pelo próprio MP4, “Cicatrizes” foi lançado em 1972 e é um de seus mais marcantes trabalhos. Ouvia-se maior maturidade nos arranjos instrumentais e vocais, mais ousados, que não deixavam de conservar características já muito marcantes do grupo. Seu repertório refletia o momento político e social vivido pelo Brasil e contava com composições de Milton Nascimento/ Fernando Brant, Miltinho/Paulo César Pinheiro, Chico Buarque e etc.

FOTOS DO SHOW

Todas as fotos publicadas nesta reportagem são de André Pinnola / divulgação do show.

CONTO: Os Bicos de Gás e o Cigarro King Size (Gil Silva Freires)

Maldita família. Malditos papai-mamãe-titia, como diziam os Titãs. Kleber era fã incondicional dos Titãs e a proibição paterna de assistir.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Por que o rock deixou o mainstream brasileiro? (com Dorf)

As novas gerações se assustam quando escutam que o rock já protagonizou o mainstream brasileiro. Não à toa. Atualmente, o.

LEIA MAIS

César Revorêdo: história íntima da solitude

O fimlimite íntimonada é além de si mesmoponto último. Orides Fontela 1. Prelúdio Essa nova série do artista visual Cesar.

LEIA MAIS

O disco que lançou Zé Ramalho

Zé Ramalho sempre foi esse mistério todo. Este misticismo começou a fazer sucesso no primeiro disco solo do compositor nordestino,.

LEIA MAIS

Timothy James: “O Brasil tem sido um grande apoiador das minhas músicas”

Você, amantes do country americano, saiba que há um novo nome na pista: Timothy James. Nascido nos anos 1980, o.

LEIA MAIS

Rock Popular Brasileiro, Edson Souza?

Baião com rock foi uma investida polêmica de Raul Seixas, entre outras misturas. Apesar disso, o cantor e compositor baiano.

LEIA MAIS

Kelline Lima: linhas sinuosas e orgânicas como arquétipos do feminino

O  coração alegre aformoseia o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate. Provérbios, 15:13 1. Kelline Lima.

LEIA MAIS

“Minha jornada musical entre o Brasil e a Alemanha” – Um relato de Juliana Blumenschein

Sou Juliana Blumenschein, cantautora alemã-brasileira, nascida em 1992 em Freiburg, no sul da Alemanha. Filha de brasileiros de Goiânia, meus pais migraram.

LEIA MAIS

Edilson Araújo: verde que te quero verde

Verde que te quiero verde.Verde Viento. Verdes ramas.El barco sobre la mar y el caballo em la montãna. Federico García.

LEIA MAIS

Madé Weiner: da atualidade de ressignificar técnicas das artes visuais

  Sempre evitei falar de mim,  falar-me. Quis falar de coisas.  Mas na seleção dessas coisas  falar-me. Quis falar de coisas. .

LEIA MAIS