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MÚSICA BRASILEIRA INSTRUMENTAL – Trio Misturada lança o disco “Aqui e Ali”

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Três jovens de 22 a 25 anos decidiram, em 2019, que queriam reunir suas influências musicais, assim como aquilo que a estrada e os estúdios de gravações os ensinaram. Eles são Gabriel Maia (guitarra), Mateus José (baixo) e Matheus Marinho (bateria), e, juntos, formam o Trio Misturada.

O primeiro disco do grupo veio no mesmo ano da fundação, e se chama “Caminho”. Algum tempo depois, a tão perturbadora pandemia chegou ao mundo, mas o que eles não esperavam é que ela iria ser um dos principais combustíveis para a gravação de “Aqui e Ali”, o novo álbum dos paulistanos.

No fértil período das lives, que tomaram conta do globo no início do isolamento social, surgiu a ideia de aproveitar um show ao vivo gravar novo trabalho. Assim, eles reuniram composições recentes, escritas no meio ao caos pandêmico, uma característica que é importante de se notar para compreender melhor “Aqui e Ali”.

Apesar de não ter tido tanto planejamento, como aconteceu no disco de estreia, os artistas, ao lado da convidada Debora Gurgel, que é pianista, compositora e arranjadora, conheceram mais a fundo o que cada um tinha a oferecer a respeito das brasilidades, uma questão inesperada, e que está entre as principais cores disco.

No entanto, além da compatibilidade quando se fala de música brasileira, os músicos também perceberam o quanto sentimentos como exílio, lembranças, anseios, esperanças e admirações eram comuns a eles.

Fora esse quadro mais conceitual, temos que destacar que as oito faixas de “Aqui e Ali” são permeadas por sonoridades diversas, tais como o baião, maracatu, bolero, sons mineiros, samba e samba jazz.

A seguir, você confere uma entrevista com a banda!

Matheus Luzi – O que o isolamento social representa para este álbum?

Trio Misturada (respostas elaboradas em conjunto) – O isolamento proporcionou experiencias distintas para cada um, mas todos nós tivemos dificuldades práticas de não ter show (a música ao vivo foi muito afetada), muita incerteza sobre o futuro, afastamentos presenciais e encontros virtuais. Nessa situação a música funcionou como refúgio para nós.

O álbum “Aqui e Ali” foi produzido por conta do isolamento. Iríamos fazer uma apresentação no Auditório Ibirapuera em março de 2020 com o repertório do nosso primeiro álbum “Caminho”, mas o show foi cancelado por conta do início da pandemia. Meses depois os organizadores do show nos chamaram para fazermos uma live no lugar desse show. Conversamos entre nós e vimos que tínhamos novas composições, que o repertório de “Caminho” já estava um pouco distante e decidimos aproveitar a live para gravar um novo álbum, ao vivo – foi assim que nasceu “Aqui e Ali”.

Matheus Luzi – Ao longo das oito faixas vocês exploram vários ritmos brasileiros, no entanto, seria possível dizer que, ao somar tudo isso, vocês criaram algo novo?

Trio Misturada – Não criamos uma nova linguagem, mas incorporamos nossa forma de pensar e tocar música. Embora estejamos no começo da nossa carreira, descobrimos que temos uma linguagem própria, fruto da experiência e percepção de cada um que se mistura.

O jazz e a música brasileira são estilo que permitem alongar perspectivas. Muitos outros grupos de música brasileira instrumental exploraram e exploram isso, desde os anos 1960 e1970, como o Quarteto Novo, por exemplo. Nos dias de hoje temos o Trio Curupira, Leandro Cabral Trio e outros grupos que têm uma proposta que vai na mesma direção, porém sabemos que o que fizemos foi diferente.

Nossa percepção e concepção musical, inclusive por termos escutado muita coisa que aconteceu historicamente nesse meio, mistura a música brasileira de alguns períodos com o jazz, inclusive com o que se chama de jazz moderno. Enfim, nossa música não é exatamente nova no estilo, ela incorpora o que veio antes e nossas leituras e percepções atuais e, nesse sentido, há algo de novo.

Matheus Luzi – Onde está a música brasileira no álbum? Qual o papel dela na composição, produção e gravação das oito músicas?

Trio Misturada – A música brasileira que está no álbum estava e está dentro nós. Ela está em tudo: desde que éramos pequenos ela foi uma realidade para nós, nos nossos estudos, trabalhos e práticas em geral. Embora tenhamos tido forte contato com vários outros estilos, como jazz e blues, por exemplo, sempre tocamos música brasileira – ela faz parte da nossa língua, do nosso vocabulário. Nesse álbum buscamos explorar bastante essa linguagem que agregamos desde que começamos a ouvir música e também durante os anos de estudo.

“’Aqui e Ali’ teve uma ótima receptividade, inclusive por parte de críticos e jornalistas – nunca saímos tanto na mídia, embora o espaço para a música instrumental não seja tão grande como o de alguns outros estilos. Nas redes sociais a repercussão também foi muito boa.”

Matheus Luzi – Como se deram esses momentos de descoberta de que vocês se combinavam em muitos sentidos, principalmente, musicais?

Trio Misturada – Nós já tocávamos juntos na Banda Nova Malandragem, uma Big Band de samba rock basicamente instrumental. Fazemos parte da cozinha dessa banda – normalmente estávamos lado a lado fazendo o ritmo, o acompanhamento e a harmonia para os sopros da Nova Malandragem. Fomos criando uma amizade muito forte também e assim foi nascendo a ideia de formar o Trio Misturada – ele foi uma consequência quase que natural dessa convivência musical e da amizade. E foi muito legal porque a cada ensaio do trio, na medida em que fomos trazendo cada um suas próprias composições e criando algo juntos, as afinidades musicais e a amizade se tronavam ainda mais evidentes e mais fortes. Deu muita liga!

Matheus Luzi – O disco foi lançado há algumas semanas e, por isso, acredito que vocês já tenham recebido alguns feedbacks. Quais foram?

Trio Misturada – “Aqui e Ali” teve uma ótima receptividade, inclusive por parte de críticos e jornalistas – nunca saímos tanto na mídia, embora o espaço para a música instrumental não seja tão grande como o de alguns outros estilos. Nas redes sociais a repercussão também foi muito boa.

Recebemos muitos feedbacks positivos de amigos, colegas de profissão, professores e familiares, mesmo daqueles que não tem o costume de ouvir música instrumental – disseram que conseguiram se aproximar da nossa música, entender e gostar desse estilo.

Matheus Luzi – Ainda que sem letras, há alguma mensagem por trás de “Aqui e Ali”?

Trio Misturada – Esta é uma ótima pergunta, pois é algo importante para nós. Não nos expressamos por letras (não temos nenhuma restrição a isso), mas procuramos nos expressar pelo som. Todas as músicas nossas tem uma mensagem, pois foram compostas baseadas em algo que sentíamos/sentimos e que vivemos. De uma forma orgânica, as músicas do álbum “Aqui e Ali” estão relacionadas ao momento que vivemos: estamos distantes e, ao mesmo tempo, conectados, AQUI isolados, mas em contato com todos virtualmente; ou esperançosos que ALI as coisas melhorem. Enfim, é um reflexo dos tempos de pandemia, uma fotografia desse tempo: saudades, solidão, medos, preocupações, incertezas, esperanças, encontros, enfim uma mistura de dualidades.

A música “Aqui e Ali” começou a ser composta pelo nosso guitarrista Gabriel Maia (@gabriel_c_maia) enquanto ele estava estudando em Boston. Foi inspirada no cancioneiro brasileiro, sobretudo no álbum “Cantiga de Longe” de Edu Lobo (@oficialedulobo) que ele estava escutando bastante e fala do sentimento de estar longe e perto, fala da distância, da saudade e do encontro. Ele teve que retornar ao Brasil por conta da pandemia e terminou de compô-la aqui.

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Matheus Luzi – Ainda nessa questão, pergunto: vocês acreditam que “Aqui e Ali” traz um certo teor de leveza e entendimento até para quem não é ouvinte de música instrumental?

Trio Misturada – Sim, esse foi um dos feedbacks que nos deixa muito felizes: saber que muitas pessoas, inclusive familiares e amigos que não tinham o costume de ouvir música instrumental, ouviram e se conectaram com nosso som.

Para nós, isso é muito importante, pois o trio nasceu como uma ideia fazer música acessível, que não fosse baseada em virtuosismos, que as pessoas gostassem de ouvir. Isso não quer dizer que não estamos atentos aos aspectos mais complexos e aprofundados da música e da técnica musical. Por exemplo, na música “Brincadeiras” do Gabriel Maia, existem várias mudanças de compasso. Muitas das composições presentes em “Aqui e Ali” tem harmonias que não são exatamente simples. No nosso primeiro álbum, na música “Caminho”, há uma linha de baixo feita pelo Mateus José e um solo de bateria do Matheus Marinho num compasso de 9/8. Mas procuramos colocar estas sofisticações sempre a favor da música, e não o contrário.   

Matheus Luzi – A estreia de vocês aconteceu em 2019, com o disco “Caminho”. O quê mudou nesse meio período? Vocês acreditam que o som de vocês evoluiu e amadureceu? Quais são as possíveis comparações entre os dois lançamentos?

Trio Misturada – Sempre estamos amadurecendo como músicos e, de alguma forma, isso pode ter acontecido entre nosso álbum de estreia e o segundo álbum. Contudo, talvez esse não seja o aspecto que nos chama mais a atenção entre estes trabalhos. No álbum “Caminho”, de 2019, procuramos elaborar uma música com uma abordagem mais moderna, talvez mais geracional no sentido de uma música do nosso tempo. Já em “Aqui e Ali” a brasilidade veio à tona – e deixamos vir com alegria e entusiasmo, afinal a música do nosso país é maravilhosa.

Uma diferença importante entre os dois trabalhos é que “Caminho” pôde ser gestado em mais tempo. Conseguimos ensaiar bastante (foram alguns meses), gravar com menos pressa e tivemos menos pressão de tempo para mixar, editar etc. Já a preparação do álbum “Aqui e Ali” teve que ser muito rápida e objetiva. Quando decidimos fazer a live, escrevemos as partituras das músicas rapidamente e tínhamos que chegar nos ensaios já bem preparados. Por conta da pandemia tivemos poucos e restritos ensaios: usamos máscaras, tínhamos distanciamento e fomos muito focados no escasso tempo que tínhamos.

Além disso, “Aqui e Ali” foi gravado ao vivo. Para nós, músicos jovens, esse foi um desafio e tanto! Sem muito tempo para ensaiar, nos preocupávamos porque iriamos improvisar ao vivo e não teríamos chance de regravar. Aqui vale um registro importante: a participação da Débora Gurgel no álbum. Além da musicalidade e bom gosto, ela levou um clima de alegria e leveza aos ensaios e ao show. Levou também sua experiência, nos ajudando a lidar com essa questão de improvisar ao vivo. No final das contas, o momento do show, que foi também o momento da gravação, foi um encontro musical que nos deu muita alegria e nos sentimos a vontade – e a Debora foi genial para conseguirmos isso! Quem assistir os vídeos do álbum vai perceber essa alegria e entrosamento, mesmo que estejamos todos com os rostos cobertos por máscaras.

No campo pessoal/individual, entre um álbum e outro, muita coisa mudou. O Mateus José, nosso baixista, foi pai, nasceu seu filho Ben; nasceu também sua escola de música. Nosso guitarrista, Gabriel Maia, foi estudar em Boston nos Estados Unidos. O Matheus Marinho, nosso baterista, começou a dar aulas como assistente da pianista Débora Gurgel na Escola do Auditório Ibirapuera. Além disso, por conta da viagem do Gabriel, o Mateus José e o Marinho começaram a tocar mais juntos em trabalhos diferentes.   

Matheus Luzi – Há alguma história ou curiosidade sobre o álbum que se destaque?

Trio Misturada – Achamos muito curioso não termos combinado previamente que as músicas do álbum tivessem mais ritmos brasileiros – nos surpreendemos quando fomos compartilhando e arranjando as canções. Também foi curioso e surpreendente que fazer a live foi muito gostoso. Adoramos tocar juntos e quando a Debora entra fica uma alegria tremenda!

Matheus Luzi – Agora deixo vocês a vontade para falarem tudo que quiserem!

Trio Misturada – Gostaríamos de registrar que para nós é muito importante ter o trio como espaço onde podemos criar e compartilhar nossas próprias composições. Temos muita vontade de continuar trilhando esse caminho e deixar, de alguma forma, nossa contribuição para a música instrumental brasileira.

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