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Entrevista

Música nova de Caio Barros é construída por meio de reflexões socioculturais, filosóficas e psicanalíticas

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(Capa do lançamento)

Um acontecimento aparentemente que passaria despercebido fez florescer a inspiração de Caio Barros. Foi assim, numa noite comum, após um grito vindo da rua, que o músico partiu para escrever “Preste Atenção”, canção que traz várias influências do disco music, música eletrônica, rock e música popular brasileira, tudo isso em uma atmosfera dançante.

Depois do susto, Caio passou a refletir questões sociais, culturais, psicanalíticas e filosóficas. Assim, “Preste Atenção” foi construída em uma estrutura conceitual fora da caixinha.

A história da música como um todo é muito interessante e, por esse motivo, conversamos um pouco com Caio, pequena entrevista essa que você confere a seguir.

Matheus Luzi – Como surgiu o single?

Caio Barros – O processo criativo de “Preste Atenção” se iniciou em uma noite de 2018 após eu ser despertado por um grito vindo da rua. Aquilo de fato, ativou meus gatilhos e levantei para checar se algo estava acontecendo, olhei da sacada, chequei o grupo de whatsapp dos moradores do prédio para saber se havia algum comentário. Nenhuma mensagem. Aparentemente, nada. Ainda assim, o sentimento de medo, ansiedade e impotência me tomou.

Fiquei aquela noite insone, com uma sensação de vazio e com a pergunta que introduz a música ruminando: “Será que alguém aqui ouviu? O grito da rua, o vazio”.

Matheus Luzi – O que a letra traz, qual sua mensagem?

Caio Barros – Após esse episódio passei então a um processo de associação de ideias utilizando recortes de pensamentos filosóficos, psicanalíticos e sócio-culturais (Freud, Marx, Walter Benjamin) como fonte de auto-análise e como insumo para minha composição.

 Quero dizer: o grito naquela noite me acordou. Isso é um gatilho pessoal, mas o que não me acorda? O que é o sono dos justos?

O quanto eu me deixo enganar por mim mesmo? Isto é, quando deliberadamente fecho os olhos para alguma situação por ser mais cômodo ou pela simples apatia que a vida diária ensinou.

Desta maneira, qual o cinismo que me – ou nos, se estendermos este pensamento para a sociedade – deixou assim? Qual foi o momento de cisão com os pensamentos ingênuos? Quando tudo desandou e desencantou? 

Em seguida, um pensamento de auto-censura: “Preste atenção pras coisas que importam”. Mas esse Preste Atenção também é paradoxal, afinal determinar apenas um ponto de foco é um processo que pode conduzir à alienação.

Passei a refletir também sobre as redes sociais que servem como distração – um alívio talvez – para nos afastar da dura realidade, do enxame de pensamento que nos consome e  até mesmo como instrumento de prazer sexual, uma vez que “likes” liberam dopamina (segundo um estudo de 2016 da Universidade do Estado da Califórnia). 

Além disso, existe a questão política-fetichista envolvida nas mídias sociais ou, em outras palavras, como elas influenciaram as últimas eleições e como as pessoas passam horas a fio discutindo fervorosa e anonimamente. Este comportamento me parece, de certa forma, uma maneira também de atingir o gozo – sendo categoricamente freudiano – nesse aspecto. 

 Outro ponto da letra, é a produção de uma segunda realidade onde não existe a necessidade de fingir pra gostar de alguém. Primeiro porque o perfil das redes sociais é um avatar, uma invenção. Segundo, pois quando existe uma discordância online é possível simplesmente bloquear ou deletar o “oponente”. Comportamento que me parece extremamente violento quando transportado para o dia-a-dia.

Em suma, diria que “Preste Atenção” é um convite à reflexão sobre o amadurecimento pessoal, sobre as dificuldades relacionadas à vida contemporânea. Muito embora ela parta de uma experiência isolada e, extremamente pessoal, seu intuito é buscar conexões para ressignificar o sentido de prestar atenção. 

Matheus Luzi – O que você tem a dizer sobre a sonoridade da música?

Caio Barros – A sonoridade da música é fruto da combinação de diferentes gêneros como disco music, música eletrônica, rock e música popular brasileira. De fato, para mim é até difícil classificar em um determinado gênero, pois acho que ela reside na intersecção desses estilos.

Procuro criar uma atmosfera envolvente e tensa, mas ao mesmo tempo fazer uma música que seja minimamente dançante. Desta maneira, lanço mão do uso de sintetizadores, somados a guitarras e baixo funkeados. Além disso, como guitarrista de ofício, temos um solo com uma distorção carregada.

Enquanto isso, a voz tem um tom mais etéreo e melódico, conduzindo o ouvinte ao longo da música. Por esta razão, acredito que a sonoridade tenha um caráter experimental e moderno.

Talvez seja interessante citar que meu projeto é inteiramente gravado em home studio. Todos os instrumentos são tocados por mim (com exceção à bateria, que é criada eletronicamente) e sou eu mesmo quem desenvolve os arranjos. Após completar a gravação envio o projeto para um amigo – Marcelo Zanin -, que me auxilia com a pós-produção, mixagem e masterização.

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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