2 de outubro de 2026

Novo álbum de César Lacerda marca uma nova etapa em sua carreira [ENTREVISTA]

 

O disco TUDO TUDO TUDO TUDO é poeticamente, algo muito particular na história de César Lacerda. O músico está comemorando o auge dos seus 30 anos de idade, e o álbum representa para ele um processo de vida muito relevante. TUDO TUDO TUDO TUDO também é um primeiro encontro de César com sua maturidade.

Em questão de musicalidade, o disco tem requinte e sofisticaçaõ, como diz o próprio músico. “E isto, está claro já numa primeira escuta. Mas ele preza pela simplicidade. Os arranjos foram todos pensados para não dispersar o ouvinte da relação forte com a letra. Em suma, toda a parte musical serve de apoio para o texto”, comentou.

 

Abaixo, você verá na íntegra uma entrevista especial que fizemos com César Lacerda.

 

 

Vamos começar então. Primeiro, explique o nome do álbum…

A canção que abre o disco, ISSO TAMBÉM VAI PASSAR, afirma: “tudo acaba; tudo, tudo, tudo, tudo.”. É uma canção sobre a efemeridade dos diversos aspectos da vida. E nasceu daí o título.

Há força poética na repetição. Ainda além, cria-se interesse e surpresa através da insistência que é repetir quatro vezes uma palavra cujo significado quer fazer caber a totalidade das coisas todas.

Por fim, este disco nasceu do meu interesse em combinar linguagens diversas, e até mesmo opostas, na música popular.

 

Você tentou fazer algo fora dos padrões… No que isso resultou?

Pelo contrário. Este é o meu disco de interesse no padrão. Ou, ao menos, é o meu disco onde estes aspectos mais específicos do que percebemos e chamamos como “padrão” na música popular estão mais iluminados. Quis experimentar fazer um disco assim, voltado para um público mais amplo e diversificado.

É importante, no entanto, tentar elaborar mais alongadamente sobre o que é o padrão

É perceptível que a nossa sociedade se estilhaçou, se segmentou de forma demasiada. A arte deveria, eu imagino, ser aquilo que consegue desestabilizar estas barreiras, furar essas bolhas. No entanto, ela tem servido, muitas vezes, de instrumento para radicalização deste fenômeno. A pretensão ambiciosa do disco é aproximar universos que por motivos políticos, sociais, estéticos ou algorrítimicos, enfim, estão se descolando.

 

Em release, vocês se referem aos vícios estéticos da música brasileira a partir dos anos 2000. O que quer dizer com isso? E o que você fez para se diferenciar?

No release, o Marcus Preto, diretor artístico do disco, analisa um recorte da produção nacional que ganhou nos últimos anos a classificação de indie. Para ficar mais claro, mas também numa tentativa redutora de correspondência histórica, esta música seria a MPB de outrora.

Há uma diversidade de eventos nos últimos quinze, vinte anos que podem nos fazer compreender mais claramente o que é esta música e o seus personagens. Como por exemplo, a mudança no paradigma de comércio de música, o enfraquecimento do papel das majors no mercado, a forma como as políticas públicas e de fomento interferiram na produção cultural nacional, a chegada da internet e o aprofundamento do diálogo e seus desdobramentos… Nasce daí, de dentro de um cenário aberto, confuso e, por isto mesmo, muito rico, toda uma geração de músicos. E toda uma forma de se fazer e pensar música.

A sensação que tínhamos, eu e Marcus, nos diálogos que tivemos para criar o disco, era que todo um arcabouço estético criado em discos neste período havia chegado num limite e, portanto, datado. A repetição destes elementos e características se tornaram, neste sentido, um vício. Era necessário reinterpretar essas questões e apontar para um novo norte.

No meu disco, fiz canções com temáticas que lidam com a contemporaneidade e os seus desafios. No entanto, tanto o ponto de partida quanto o de chegada desejavam oferecer ao ouvinte mais conforto que confronto.

Num momento como o nosso, de refluxo social propulsionado pela instabilidade política, esta narrativa encontra desafios. Pode parecer haver absoluta riqueza em criar obstáculos para o ouvinte médio. Para mim, agora, o desafio é o de aproximar. Me aproximar.

 

Você fez um álbum com letras diretas e canções bonitas. Comente.

A canção popular no Brasil tem força imensa. E faz parte da nossa formação como nação. Somos um país de pouca relação com a literatura, por exemplo, fruto da perversidade que é ter gerações e gerações impedidas do acesso à educação. Por outro lado, nosso iletramento não nos impediu de viver o milagre; a canção feita aqui e cantada por todo um povo demostra grandeza profunda e rigor estético. Não obstante, a renovação desta linguagem segue nos levando a lugares realmente reveladores.

Levando tudo isso em consideração, a ideia deste disco, era criar um repertório de canções fortes pelo prisma da beleza. Canções simples, com letras diretas, que pudessem alcançar pessoas distintas. De lugares distintos na sociedade.

 

Como foram os processos de criação/gravação/produção?

Todo o processo foi muito rápido. Compus as canções em três meses, a gravação durou uma semana. A orientação clara e decidida do Marcus e a sensibilidade profunda do Elisio Freitas (produção musical) tornaram tudo muito fácil.

 

 

 

 

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