26 de outubro de 2026

Com participações especiais de cantoras mulheres, Craca e Dani Nega lançam álbum politizado O DESMANCHE [ENTREVISTA]

 

Não há dúvidas de que O DESMANCHE se trata de um álbum politizado. Isso percebe-se em todas as frentes do trabalho. Primeiro pelo fato de que todas as participações especiais foram feitas por cantoras mulheres, indicando assim uma “luta” contra as desigualdade sexuais. Outro fator é o poder político das letras. E para terminar, o fato de que as músicas são dançantes, trazendo assim a força do ato de dançar como uma forma artística de expressar opiniões.

“O DESMANCHE é um disco produzido num dos momentos mais incertos da história brasileira. Entre uma manifestação e outra. Entre perdas irreparáveis, repressão perseguição e censura a artistas e professores. Por isso nasceu desse jeito: em parte celebração, em parte denúncia. É um trabalho onde a poesia de Dani Nega se refinou sem apelar às metáforas. O papo segue ainda mais reto do que o primeiro disco. A sonoridade mantém a estética sucateira já conhecida da dupla mas acrescentamos, por meio das participações especiais e dos novos materias experimentados, outros temperos populares para reagir com o aparato eletrônico.”, comentou Craca.

O DESMANCHE é o segundo disco do Duo, e traz 9 faixas autorais e inéditas.

 

Abaixo, veja na íntegra uma entrevista que fizemos com Craca.

 

Para ouvir as músicas completas, clique no botão verde no quadro abaixo.

 

A primeira pergunta: as músicas do álbum dialogam de alguma forma com a atual situação política e social do Brasil?

O Desmanche é um álbum feito sob diversos golpes e entre uma manifestação e outra. É, portanto um trabalho que retrata a atualidade política brasileira que, lamentavelmente, não difere muito do passado nacional. Estamos falando de um país onde o Estado é grande responsável pelo feminicidio, pelo genocídio negro e indígena. Isso tudo aparece nas letras das músicas e aparece nas performances ao vivo pois não nos é dado outro espaço para falar desse assunto senão aquele espaço por nós mesmos conquistado. Assim, fazemos do palco nossa zona autônoma temporária. Nosso momento de falar sem censura institucional, do amor, da luta, dos afetos, das injustiças. E fazemos isso celebrando. Pois, num país onde a classe política beneficia-se da imobilidade do povo, que a cada dia perde um direito conquistado a ferro e fogo, dançar e festejar é um ato subversivo.

Ainda nessa questão, quais são as temáticas debatidas no álbum?

Fala-se do racismo, do machismo, do homofobismo, dos assassinatos provocados pelo Estado, da história do negro no Brasil estamos morrendo a mais de 500 anos.  Mas fala-se também dos afetos. Das paixões. Dos amores. 

“O prazer como forma de resistência”, gostaria que vocês comentassem essa frase presente no release de vocês em relação à O DESMANCHE.

Essa frase não é nossa é?  rsrsrs
De toda forma… acho que pode se abordar o assunto de diversas formas. Em nosso primeiro disco Dani fala “gozar na vida, me torna uma preta muito perigosa”. Acho que essa frase é praticamente auto-explicativa. Mas também tem outro lado: os sucessivos golpes, perdas de direitos, prisões arbitrárias e até mesmo assassinatos têm deprimido muito as pessoas. A assassinato de Marielle, com balas da polícia militar, foi um golpe muito duro no ânimo das pessoas. Mas no dia seguinte nos encontramos na rua. Centenas de milhares. Milhões talvez. E isso nos anima. O olhar parceiro de quem não se deixou enganar vilmente pela narrativa do golpe tem poder antidepressivo. E aí… percebe-se que não se luta sob depressão. Para a luta vamos com ânimo e cabeça erguida. Eu, homem branco, ainda que com histórico de exílio político, o que já me deu bagagem na vida para lidar com certas complexidades, apreendo diariamente com as mulheres, com os negros e com as mulheres negras em especial, que a cabeça deve estar erguida e a união festivamente celebrada. Deprimir é uma forma de reprimir. Celebrar é uma forma de atacar.

Das nove faixas, sete são autorais, feitas por vocês dois em parceria. Como foram esses momentos de composição das músicas do álbum?
Todas as faixas são autorais. Creio que você quis dizer “inéditas” certo? Nosso processo de composição é bastante variado. Algumas destas músicas surgiram de improviso. Outras foram sendo construídas bem lentamente. Mas em todos os casos, Dani Nega é quem escreve as letras e Craca é quem cria as bases. Claro que existe uma troca de opiniões para fazer a coisa chegar onde queremos. Frequentemente a Dani apresenta um primeiro esboço de texto e Craca busca um groove “para encaixar” esse material. Gravado esse esboço, começa um período de muitas horas de edição e arranjo eletrônico em torno desse rascunho. Ao longo desse processo, Dani vai acertando os detalhes e adicionando mais conteúdo. Ao fim é feita a regravação da voz por uma definitiva. E daí segue-se à mixagem como em qualquer disco.

E em relação as linguagens sonoras, como essa questão foi trabalhada em O DESMANCHE?

Assim como no trabalho anterior, partimos de uma coleta de sucata, tralha, sujeira étnica largada pelo mundo afora. Particularmente neste novo disco, há muito material inspirado nos instrumentos de cordas do Mali. Há muito da nova cena eletrônica latino-americana. E há muito também da música de tradição popular brasileira. Fomos de encontro a sons referenciais. Quem sabe, sons antepassados. Do ponto de vista da parte vocal, Dani Nega tem se deixado influenciar pelas métricas de Kendrick Lamar, o flow de Goldlink e Anderson Paak assim como a sonoridade vocal da música tradicional brasileira de grupos como a A Barca ou As Clarianas.

DISPOSITIVO TRALHA, o antecessor deste álbum continha algumas músicas instrumentais, o que não aconteceu em O DESMANCHE…

A parceria entre a gente se afinou. Acertamos também nossa dinâmica de produção e criação. Assim, quando decidiu-se gravar um novo disco, estava claro que não haveria mais espaço para as músicas instrumentais que eu, Craca crio para minhas performances. O trabalho agora adquiriu outra envergadura discursiva e faixas instrumentais não contribuiriam nesse sentido. Estamos experimentando agora o aprofundamento na pesquisa voz/texto. 

No entanto, as músicas parecem terem sido feitas para dançar. É isso mesmo?

Sim. Somos seres dançantes. Dançamos porque isso nos reúne. Nos fortalece. Dançar não é necessariamente alienar-se. Pelo contrário. A dança, na África, é uma forma de encontro e de luta. Devida ao legado da MPB, passamos a acreditar que existe música para ouvir e outra música para dançar. Principalmente quando falamos em música politicamente engajada, parece que seria errado dançar. Mas isso ocorre porque nos idos de 68, a música brasileira estava sendo tão duramente reprimida que era conveniente não fazer muito alarde. Tocar baixinho, quase sem amplificação, em locais pequenos e discretos. Assim acontece a Bossa Nova. Era também importante usar metáforas para driblar a censura. Daí a força poética dos nossos grandes compositores.  A atitude agora é outra. Queremos evitar que voltem a nos calar dessa forma novamente. Por isso gritamos, pulamos. Falamos sem rodeios. “Papo reto” como gosta de dizer Dani Nega. Se querem nos calar, vão ter que nos fazer parar de dançar também. 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?

O disco foi realizado com diversas participações especiais, todas femininas. Quase todas negras… Juçara Marçal, Luedji Luna, Clarianas, Sandra-X, Graça Cunha, Nanny Soul, Roberta Estrela D’Alva. 

 

 

 

 

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