2 de outubro de 2026

[ENTREVISTA] Viajando por todo lado em uma Kombi, a banda Cao Laru faz “músicas para o mundo”

Por Felipe Ludovice

 

Música é importante, e influencia as pessoas. Sabendo disso, a banda Cao Laru (formado por franceses e brasileiros em uma universidade na França) viajou – e continua viajando – pelo mundo em uma kombi, e adotando o “slogan” de músicos interventores, ocupando assim qualquer espaço que possa recebê-los, como asilos, creches, escolas e hospitais. Por vezes, até tocando nas ruas.

Em 2016, essa história começou a tomar corpo. Foi quando a banda fez sua primeira experiência fora da França. O lugar? Cuba. A partir disso, o grupo decidiu levar a música para todos os lugares e se tornarem uma “banda viajante”. Ainda no mesmo ano, o grupo passou por 13 países, entre a França e a Romênia. Em outubro, a banda veio para o Brasil e compraram uma kombi, que os levou numa viagem de 7 meses, indo da Bahia até a Patagônia, totalizando 25.000 quilômetros rodados.

“A música nos está levando pra perto das pessoas, e parece que, quanto mais kilometros percorremos, mais perto de nós mesmos a gente chega. A estrada leva, mas sobretudo traz de volta. Um mundo sem nenhuma fronteira: nele queremos cantar.”, comentou Noubar, um dos violonistas, compositores e cantores do Cao Laru. 

 

Abaixo, você confere na íntegra uma entrevista que fizemos com o integrante Noubar Sarkissian.

 

 

A formação da banda é muito curiosa. Como tudo isso aconteceu?

O grupo se formou em uma pós-graduação em Pedagogia Musical, em Rennes, na França. Noubar, brasileiro, vivia na França nesse momento, e se juntou aos quatro franceses do grupo, que vieram de cidades e universos musicais bem diferentes. Do leste ao oeste da França, da música clássica aos bailes populares.

 

Nas suas aventuras, vocês viajaram por vários lugares. Qual desses, vocês destacam mais? Qual (ou quais) desses lugares mais inspiraram a banda?

Muitos lugares marcaram nossa recente história, mas, dentre os mais importantes, a chegada à Bariloche de kombi, depois de sair de Salvador 7 meses antes, e encontrar as montanhas e lagos, foi incrível. As montanhas de Minas Gerais, o Lac Léman na Suíça, bem como muitas cidades do México, também são lugares que dão vontade de voltar.

 

Ainda nessa pergunta, como vocês financiavam suas viagens?

Tocando muito. Tocando não só nos teatros e festivais, mas também em restaurantes, nas ruas, em asilos, em escolas, centros culturais. Vendemos muitos discos após as apresentações, e isso também ajuda a financiar nossas turnês.

 

E a aventura de Kombi, como foi?

A aventura de Kombi foi e ainda é uma escolha, um projeto, uma grande parte de nossa vida. É ela que nos leva onde querem nos ver. É nela que compusemos nosso disco mais recente. É ela que faz muita gente sonhar quando nos vê chegar, quase sempre de muito longe. Nela cabemos 9, e todos nossos instrumentos.

 

Vocês são formados por franceses e brasileiros. Como vocês lidam as diferenças culturais entre os integrantes?

Acabamos desenvolvendo um idioma nosso, o franco-portunhol, mas as diferenças culturais e a convivência seguem sendo nosso maior desafio. Viver juntos viajando numa kombi é uma grande escola pra gente, e todos os dias lidamos com cuidado uns com os outros pra que esse sonho siga vivo.

 

Como vocês definem suas músicas e poesias?

Antes dizíamos que tocávamos “Músicas do Mundo”, até que um dia, por engano ou não, um contratante colocou num cartaz, na descrição de nosso gênero musical, ¨Músicas para o Mundo¨, e adotamos essa definição, pois o mundo nos dá tanto, que nossas criações só poderiam ser uma retribuição a tudo isso. Nos alimentamos da estrada, dos personagens, da força que as pessoas nos dão.

 

Falem um pouco desse conceito de “músicos interventores” que vocês adotaram.

Na verdade faz parte da sigla da formação que fizemos na França, que é CFMI (Centre de Formation des Musiciens Intervenants), o que em português dá ¨Centro de Formação dos Músicos Interventores”, o que nada mais é do que um conceito que confere ao músico um papel de interventor social, cultural, e mesmo político. Quando vamos a um asilo, a uma escola pública, a uma APAE, muitas vezes apenas com ajuda de custo, e quase sempre com cachês que estão muito abaixo do que é pago no mercado dos músicos profissionais, vamos porque isso nos toca, mas também porque entendemos que a música tem, sim, um papel importante e poético nas vidas de todas as pessoas.

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva a banda?

Inúmeras. Toda semana tem coisa nova, mas histórias que são recorrentes têm a ver com a kombi, que sempre nos prega peças, ou com estarmos perdidos em algum lugar…

 

 

 

 

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