19 de agosto de 2026

[ENTREVISTA] Gabo + Zeiveen lançam single de estreia

Gabo + Zeiveen

(Crédito: Rafaela Romano)

 

“Lugar” é o primeiro single da colaboração entre os estreantes Gabo,
paulistano, e zeiveen, aracajuano. Fruto do encontro de duas personalidades díspares e de visões do mundo similares, pode-se dizer que “Lugar” surgiu em 2015, no tempo em que zeiveen morava em São Paulo quando, num bar qualquer.

do antigo Largo da Batata, Gabo sugeriu ao amigo “quero que você escreva uma
letra pra esta música aqui”. A música em questão não saiu mas gerou um
incômodo, a necessidade de que naturalmente realizassem um projeto juntos. Já
com zeiveen vivendo em Aracaju e Gabo em SP, de uma ideia vinda de um
sintetizador e uma ligação, “Lugar” nasceu.

Em entrevista exclusiva, os músicos detalharam esse lançamento. A seguir, ouça “Lugar” e confira as respostas.

 

 

Como nasceu o projeto?

zeiveen: Há três anos, quando voltei de São Paulo para Aracaju, vim com uma bagagem emocional bem complicada e estava num momento de vida em que não tinha um caminho claro pra seguir. Logo antes de me mudar, tinha voltado a compor (depois de um hiato que perdurou minha faculdade inteira) e, talvez sabendo disso, Gabo me sugeriu procurar um pouco mais sobre produção musical.

A collab surgiu nessa época já, quando começamos a estudar meio que juntos o processo de produzir uma música de cabo a rabo. Entre uma conversa e outra à distância, decidimos escrever a canção.

Gabo: A colaboração nasceu muito porque eu já me via inquieto há muito tempo por nunca ter conseguido gravar e mostrar pras pessoas nada do que eu criava musicalmente. Percebi que o zeiveen estava mais ou menos nessa mesma caminhada e como eu sabia que nós tínhamos influências musicais que se relacionavam, resolvi propor pra ele que fizéssemos uma música que obrigatoriamente fosse publicada no final, independente do resultado.

 

O que vocês diriam a respeito do conceito, poesia e musicalidade de vocês?

zeiveen: Escrevo desde que me entendo por gente, poeminhas pro Dia das Mães ou Dia dos Pais. Sempre foi algo que me trouxe prazer e durante muito tempo quis ser escritor. O piano veio logo depois. A minha poesia é instrumento de contar histórias pequenas, quase nunca parece engajada, e repete o mínimo de palavras. Gosto de coisas curtas, porque o ritmo me parece mais natural assim. Minha musicalidade é similar à poesia, busca padrões que possam ser expandidos, coisas bonitas. Ambas, poesia e musicalidade, servem o propósito de serem portas pra eu me comunicar com o mundo – já que é recorrente a minha dificuldade nesse aspecto.

Gabo: No momento tenho trabalhado pra que tudo que eu produza possa ser uma plataforma pra eu me comunicar melhor. Vim da música erudita e do jazz, que possuem preocupações estéticas muito voltadas pros seus próprios gêneros, pra se comunicar com quem já ouve e gosta do som. Então tenho tentado buscar o oposto disso, tentando me comunicar através das próprias palavras e tentado criar diálogos com quem eu não necessariamente conversaria. Sendo objetivo, a busca é tentar ser pop, ou popular, mas sem deixar de propor sons e ideias menos usuais.

 

Qual a inspiração de “Lugar”, e como essa canção nasceu?

Gabo: Pra mim a inspiração é bem biográfica, eu estava vivendo o final de um processo de depressão/crises de ansiedade e só conseguia ver o lado ruim de quase tudo, realmente via “tristeza em todo lugar”. A ideia era emular essa melancolia e pesar.

A música nasceu de um beat que eu estava fazendo na Circuit (que é um instrumento que mistura sintetizadores e bateria). Logo depois que terminei a batida, abri a boca e saiu a melodia que compõe o refrão de “Lugar”. Eu achei bonito e percebi que daria pra criar algo em volta daquilo, fiquei pensando durante algumas semanas mas nada me sugeria uma boa estrofe ou continuação possível, então pedi ajuda do zeiveen e a estrutura da música foi criada.

zeiveen: “Lugar”, pra mim, tem como inspiração os dias que custam a passar, em que eu me sinto forçado por uma corrente maior e não consigo ter uma vontade própria. Ou em que não tenho a força pra exercer uma vontade própria. Na prática, minhas inspirações vieram de trabalhos de outras modalidades artísticas, que levaram às escolhas tanto na letra quanto na música: Haruki Murakami, Leonard Cohen, Alejandro Zambra ou o que eu estivesse lendo à época.

 

Gabo + Zeiveen

(Crédito: Rafaela Romano)

 

Em “Lugar”, vocês querem transmitir qual mensagem?

zeiveen: A “tristeza em todo lugar”  não é aquela que vem à mente assim que lemos a própria palavra “tristeza”. Ela se espalha nas coisas pequenas, nas forçações de barra, no desencontrar de ideias, na distância entre amigos, fatos rotineiros que se acumulam aos poucos. Que mesmo frases simples (e possivelmente bem intencionadas) como “por que você não estuda pra concurso?” ou mesmo “o que você anda fazendo da vida?” podem ser motivos de tristeza imediata pra uma cabeça que vive ansiosa e amedrontada.

Gabo: Gostaria de transmitir como o cotidiano é duro e nos torna menos sensíveis às necessidades e cuidados que precisamos ter com os outros. E num momento tão difícil que vivemos, com tantos tipos de violência sendo propagados e até celebrados, acho importante podermos cantar sobre a tristeza. As redes sociais tentam nos moldar pra uma vida sem problemas, sem dilemas e uma música como “Lugar” pode ser um escape pra quando precisamos simplesmente assumir que não estamos bem. Vivemos num momento difícil pra se dizer que está triste.

 

Como vocês encaram “Lugar”?

zeiveen: Como uma forma de expor o que sinto há um tempo de forma honesta, ainda que calculada e pós-processada até os mínimos detalhes. No entanto, “Lugar” começou como uma forma de desenvolver despretensiosamente os fundamentos de produção – ou seja, era uma plataforma de treinamento – e, por isso, ao conseguirmos cruzar a linha de chegada no dia do lançamento, já é, em si, uma vitória.

Gabo: Pra mim é uma fotografia de um passado não tão distante. De alguma forma, é uma música que encerra um ciclo da minha vida e inicia outro. Musicalmente, acho que ela é um norte pros meus próximos trabalhos, espero conseguir continuar perseguindo o Pop mas sem deixar de propor novas estéticas e histórias.

 

Quais são os planos para o futuro?

zeiveen: Quero seguir estudando formalmente Produção. Tenho um monte de composições engavetadas e quero botar quase todos eles pra fora do papel. Sei que posso, e preciso, melhorar muito, e essa carreira me atrai bastante.

Gabo: Quero tentar lançar pelo menos mais alguns singles no ano que vem ainda nesse mesmo ambiente de músicas tristes e melancólicas. E acho que mais importante, quero me manter aberto a conversar sobre o que eu sinto e sobre o que as pessoas sentem. Com o lançamento de “Lugar” estou descobrindo uma potência no diálogo sobre a arte que eu não conhecia e que tem me feito muito bem, é um processo quase terapêutico poder falar com as pessoas sobre o que se sente e ouvi-las também.

 

Você(s) tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar?

zeiveen: Conheci o Gabo através da Rafa (fotógrafa do projeto) que, inclusive, conheci através de aplicativo. Durante algum tempo, ela foi provavelmente a única amiga que acompanhava minha rotina em São Paulo. Ambos, já me disseram que sou o “que não nega rolê” e, realmente, não neguei esse projeto com o Gabriel.

Mas esse não foi nosso primeiro projeto. Um dia, Gabo e eu tomávamos cerveja quando ele me mostrou uma música dele já quase feita. Só não tinha letra, mas era uma canção de amor. Começamos a escrever naquele dia, mas nunca terminamos. Ainda bem que pudemos reatar.

Gabo: A “Lugar” foi toda produzida remotamente, comigo em SP e o zeiveen em Aracaju, mas em Julho desse ano tive a oportunidade de ir pra Aracaju e passar algum tempo na casa do zeiveen com a sua família. Em um dos dias, resolvemos fazer uma versão ao vivo de “Lugar”, mas pra variar a coisa ficou um pouco mais complexa. Desse dia saiu uma lado b que agora estamos mixando e que vai se chamar algo como “Lugar – Churrascaria Version” já que acabamos usando aqueles sons de baterias de teclados de cantor de churrascaria e nos arriscamos em fazer agudos gospel e improvisos vocais a la Tim Maia. Acho que vai ser engraçado pra quem ouvir a música original, que tem uma carga emocional forte e foi cuidadosamente pensada, poder nos ouvir simplesmente nos divertindo despretensiosamente com a música.

 

(Edição de Matheus Luzi)

 

 

 

 

 

Manuelito: para além de um mestre da fotografia

Oriundo do Ceará,Manuelito veio residir em Mossoró, aqui permanecendo e trabalhando até o final de sua vida. Suas fotografias deixavam.

LEIA MAIS

Carlos Gomes: um naïf registra e exulta uma pintura lúdica

O homem benigno faz bem à sua própria alma, mas o cruel perturba a sua própria carne. Provérbios, 11, 17.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: O funcionamento de um cineclube (com Cadu Modesto e Tiago Santos Souza)

Neste episódio, Matheus Luzi investiga os cineclube, casas de cinema independentes cujo o viés comercial é, na prática e teoria,.

LEIA MAIS

O Ventania e suas ventanias – A irreverência do hippie

(Todas as imagens são reproduções de arquivos da internet) A ventania derruba árvores, derruba telhas, derruba vidas. Mas a verdade.

LEIA MAIS

FAROL DE HISTÓRIAS – Projeto audiovisual que aproxima crianças da leitura

Para Michelle Peixoto e Vinícius Mazzon, a literatura tem seu jeito mágico, prático e divertido de chegar às crianças brasileiras..

LEIA MAIS

Paz, Festa e Legado: Cem anos de Dona Amélia

Era uma noite de dezembro em São Paulo, dessas que misturam o frescor do verão com o brilho das luzes.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Quem foi o poeta Roberto Piva (com Jhonata Lucena)

O 10º episódio do Investiga se debruça sobre vida e obra de Roberto Piva, poeta experimental que viveu intensamente a.

LEIA MAIS

Maringa Borgert guia passeio pela história, cultura e artes do Mato Grosso do Sul

O Mato Grosso do Sul é um estado independente e unidade da Federação desde o final dos anos 1970 quando.

LEIA MAIS

Gabriel Acaju: “ABAIXO O ESTADO CENTRAL DE SAGACIDADINHEIRO!”

Para compreender o segundo álbum de Gabriel Acaju é necessário um mergulho na história criada pelo artista, história essa que.

LEIA MAIS

Analice Uchôa: o vinco da arte nas dobras da realidade

Se acaso me tivessem dado o jugo e o poder de apontar a obra de um pintor naïf como um.

LEIA MAIS