3 de setembro de 2026

Do isolamento nasce o novo disco do guitarrista Tony Babalu

Foto de Osmar Santos / Divulgação.

São quase cinco décadas das quais o guitarrista Tony Babalu se dedica à música. Durante toda essa longa trajetória, ele ainda não havia se deparado com uma criatura: o temido coronavírus.

Sua chegada ao mundo ainda no início de 2020, na China, mais tarde, passaria a contornar o conceito de “No Quarto de Som…”, disco que Tony entrega de corpo e alma (ambos já imunizados).

Nessa missão árdua de descrever seus sentimentos e o caos que circula pelo mundo, Tony compôs cinco canções, o que totaliza aproximadamente 15 minutos de muita música boa.

Nas gravações, o artista ficou responsável pelas guitarras, violões, e programação dos demais instrumentos. Já os companheiros Marcelo Carezzato e Beto Carezzato, do icônico Carbonos Studio, de São Paulo, se preocuparam em executar a mixagem a masterização.

“No Quarto de Som…” é um ótimo disco para fugir para um mundo paralelo, onde a liberdade seja verdadeiramente estável. Escute nos apps de streaming, via selo Amellis Records, com distribuição da Tratore.

Matheus Luzi – Você está completando quase meio século de carreira artística. Em vista de toda essa trajetória, como você avalia a sua arte atualmente em frente a uma pandemia? Porque o isolamento social e o caos foram tão importantes para você lançar esse disco?

Tony Babalu – O isolamento forçado levou as pessoas a uma reflexão profunda e individual sobre a finitude de tudo, o que é sempre um tema dolorido, solitário e difícil de enfrentar, e a arte em geral, com a música em particular, contribui positivamente com o relaxamento físico e o desprendimento emocional necessário para enfrentar esse novo cotidiano sem deixar que o lado obscuro predomine. Resumindo, é lembrar que a vida continua e que a pandemia uma hora irá terminar, como tudo termina um dia.

Matheus Luzi – As cinco faixas são totalmente instrumentais. Devido a essa ausência de letras, o público pode não compreender sua mensagem. Vamos tirar um proveito dessa entrevista para você comentar a respeito?

Tony Babalu – As palavras da música instrumental são seu ritmo, harmonia e melodia, e sua mensagem é expressa através da sensação física e emocional que a combinação dessas particularidades traz ao ouvinte, incorporando-se ao meio ambiente e interferindo em seu “estado de espírito”, por assim dizer.

Matheus Luzi – Musicalmente, o que “No Quarto de Som…” traz de diferente em relação aos seus lançamentos anteriores?

Tony Babalu – A diferença está basicamente na ausência de outros músicos, o que leva as execuções e os arranjos a um caminho mais cerebral e menos orgânico, com resultado final mais intimista.

“O isolamento forçado levou as pessoas a uma reflexão profunda e individual sobre a finitude de tudo, o que é sempre um tema dolorido, solitário e difícil de enfrentar, e a arte em geral, com a música em particular, contribui positivamente com o relaxamento físico e o desprendimento emocional necessário para enfrentar esse novo cotidiano sem deixar que o lado obscuro predomine”

Matheus Luzi – Deixo aqui um espaço para você falar sobre o papel de cada instrumento dentro do álbum.

Tony Babalu – Com exceção de “Reflexo”, quero destacar o protagonismo dos violões nesse trabalho, instrumento que proporcionou um tempero acústico na sonoridade. Teclados, bateria, baixo e percussão complementam a harmonia e o ritmo, e às guitarras cabem os solos de três das cinco faixas.

Matheus Luzi – Haveria, dentro da sua visão enquanto autor, alguma faixa que se sobressai?

Tony Babalu – Embora seja uma pergunta difícil de responder, se eu tivesse de escolher a “música de trabalho” destacaria “Lara”, em virtude de sua linha melódica ser de fácil assimilação e memorização.

Matheus Luzi – No âmbito geral, o que o público pode espera dos 15 minutos de som? E você seria capaz de dizer para qual público o álbum pode agradar mais?

Tony Babalu – Acho que as pessoas, independentemente de aspectos sociais, culturais ou ideológicos, devem esperar nesses minutos um alento para os dias difíceis que estamos vivendo, algo que a música instrumental oferece através de sua neutralidade e atemporalidade.

“O que a meu ver é importante observar é o fato de que os mesmos 15 minutos de gravação teriam custado uma pequena fortuna para serem produzidos até meados dos anos 2000, isso em um estúdio médio e considerando apenas o processo de captação, excluindo músicos e as demais etapas de produção. Em 2021 esses mesmos 15 minutos custaram apenas energia elétrica, graças ao avanço tecnológico que tornou o acesso aos equipamentos possível e, sobretudo, viável economicamente.”

 

Matheus Luzi – Dentre os processos de criação, gravação e produção, há alguma história e/ou curiosidade que se destaque?

Tony Babalu – O que a meu ver é importante observar é o fato de que os mesmos 15 minutos de gravação teriam custado uma pequena fortuna para serem produzidos até meados dos anos 2000, isso em um estúdio médio e considerando apenas o processo de captação, excluindo músicos e as demais etapas de produção. Em 2021 esses mesmos 15 minutos custaram apenas energia elétrica, graças ao avanço tecnológico que tornou o acesso aos equipamentos possível e, sobretudo, viável economicamente.

Matheus Luzi – Para essa resposta, te dou carta branca. Diga o que quiser!

Tony Babalu – Quero agradecer a generosidade do espaço cedido para divulgação de um trabalho autoral instrumental, algo cada vez mais raro em tempos de excesso de oferta de conteúdo artístico em diferentes formatos e plataformas. Música instrumental não se apoia em pessoas, imagens, atitudes ou posicionamentos comportamentais, o que a transforma em um produto de difícil comercialização, com a consequente falta de interesse do mercado fonográfico em divulgá-la. Obrigado por abrir portas, Matheus, e sucesso para a Revista Arte Brasileira!!

Capa do lançamento.

CONTO: O Desengano do Rock Star Paulistano (Gil Silva Freires)

Tinha uma guitarra elétrica, canções e sonhos na cabeça. A paixão de Alécio pelo rock and roll era coisa herdada.

LEIA MAIS

Uma aula sobre samba paulista com Anderson Soares

Patrimônio cultural imaterial do nosso país, o samba foi descrito e explicado por incontáveis fontes, como estudantes do tema, jornalistas,.

LEIA MAIS

JORGE BEN – Jornalista Kamille Viola lança livro sobre o emblemático disco “África Brasil”

Representante de peso da música popular brasileira, Jorge Ben é um artista que, em todos os seus segundos, valorizou sua.

LEIA MAIS

Lupa na Canção #edição22

Muitas sugestões musicais chegam até nós, mas nem todas estarão aqui. Esta é uma lista de novidades mensais, com músicas.

LEIA MAIS

Olympia Bulhões: a casa de morada e seus emblemas simbólicos

Não te fies do tempo nem da eternidade que as nuvens me puxam pelos vestidos. que os ventos me arrastam contra.

LEIA MAIS

CONTO: A Falta de Sorte no Pacto de Morte (Gil Silva Freires)

Romeu amava Julieta. Não se trata da obra imortal de Willian Shakespeare, mas de uma história de amor suburbana, acontecida.

LEIA MAIS

Pedro Pereira: azul que te quero azul

Comer muito mel não é bom; assim,a investigação da própria glórianão é glória. Provérbios 25:27 A pintura de Pedro Pereira.

LEIA MAIS

O folk voz e violão de Diego Schaun no EP “Durante Este Tempo

Quatro canções formam o novo EP do baiano Diego Schaun, cantor e compositor de música folk que estreou nas plataformas.

LEIA MAIS

Bethânia só sabe amar direito e Almério também (Crítica de Fernanda Lucena sobre o single

O mundo acaba de ser presenteado com uma obra que, sem dúvidas, nasceu para ser eterna na história da música.

LEIA MAIS