9 de maio de 2026

[RESENHA] “EU E OUTRAS CONSEQUÊNCIAS”, de Tanussi Cardoso

 

RESENHA DE Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

 

O novo livro de poemas “EU E OUTRAS CONSEQUÊNCIAS” (Penalux, 2017), de Tanussi Cardoso aborda os conflitos existentes no interior de nossa realidade, sejam eles entre o eu e o mundo, o eu e o outro, os vários eus que compõem o mistério de um ser e, até mesmo, uma Super-realidade, entre o ser e Deus. Mas não é apenas o eu que se basta. Como uma teia de aranha, as consequências são os desdobramentos do sujeito, o que se funda no seu espaço interno e no seu ambiente externo, formando toda a physis. O ser não se satisfaz com sua pequenez de dentro e precisa se expandir para outros horizontes. Daí no título “e outras consequências”. No livro de Tanussi o que vale é a lei dos espelhamentos e seus paradoxos e tensões. Na bela orelha de Affonso Romano Sant’Anna, este diz: “É uma arte poética que retira das contradições a sua força”. O interessante a se notar na obra tanussiana é o confrontar de olhares, como entre o amor e a morte e, até mesmo, a vida e a morte. Os dois polos de uma mesma realidade.

O livro magistral de Tanussi Cardoso é formado por três partes. Na primeira parte, “Da colheita”, encontramos a essência do ser em confronto com outras realidades, sejam elas terrenas ou divinas. Na segunda parte, o conflito ocorre entre a cidade com toda sua violência e agressividade e a beleza silenciosa na natureza que funda a sede da poesia. Mas a poesia também se conjuga no mosaico urbano de nossas necessidades mais viscerais. A última e terceira parte, “Do enigma”, vem nos falar dos mistérios da linguagem do amor e suas dobras e continuidades, cujo clímax e êxtase recaem no sexo. A poesia de Tanussi, apesar de abarcar esta gama imensa do nosso real não se volatiza nas pequenas coisas, no banal e desinteressante mundo do supérfluo. Como disse Astrid Cabral, no seu maravilhoso prefácio sobre o escritor aqui em questão: “Tanussi Cardoso é poeta do lirismo a pino. Produz uma poesia sem contaminações com o reles, sem concessões ao banal rasteiro”. É de extrema urgência e importância tudo o que Tanussi poetiza. É um canto órfico ao amor e à morte que nos caracteriza, pois somos feitos de chama e deserto. Como disse Ricardo Alfaya, no posfácio do livro “o que torna o título de Tanussi diferenciado é justamente a inserção cósmica que sugere”.

No confronto com o outro, há perdas e ganhos, nos construímos e desconstruímos com o olhar do outro: “Há sempre perda no contato,/Mesmo que se some à pele o espanto”. Nessa cúpula de contrastes, encontramos também a dupla cisão do estar e do ser, duas faces do humano, na sua permanência transitória e na sua essência de eternidade, a alteridade e a identidade: “eu não sou/de onde nasci//eu não sou/de onde vim//eu sou/onde estou/eu sou/onde sou.” A repetição de “sou” nos versos de fechamento soa como leitimotiv de nossa multiplicidade vulcânica que atiça os espelhamentos do ser, a dobra é em espiral, é uma dobra barroca, como diria Deleuze, pois ela se espelha em diferença e não numa repetição insonora.

Outra tensão importantíssima no seu livro é entre a palavra e o silêncio, como estas duas linguagens podem se intercomunicar e formar a persona do sujeito. Na Arte, na poesia, é necessária a construção do sentido pelo não sentido, pelo deserto que nos move e impulsiona para a construção do verbo. E Tanussi utiliza uma bela estratégia para criar vácuos e plenitudes em seus versos. Usa poemas sem pontuação e outros com pontuação para revelar a força cristalina do branco e a temeridade da noite. O vazio, a introspecção e a linguagem e a extrospecção. Temos o eu e aquilo que o constrói que é a Arte: “O abismo que é abismar-se/Com o abismo e as maravilhas da Arte”. Temos, assim, a palavra-verbo que constitui a linguagem do grito, do barulho que fazemos para sermos conhecidos e expostos pelo preenchimento e o vazio que molda a esfinge, aquilo que desconhecemos dentro de nós mesmos. É a dupla cisão do ser que se desdobra em ato e pensamento, em gesto mudo e palavra dançarina. São voos da imaginação de um poeta múltiplo e plural que sabe versar com maestria e amadurecimento. Assim, temos, paradoxalmente, a gestualidade dos versos, sua dramaticidade e tragicidade em sermos Édipos e querermos desvendar os mistérios do ser humano. Tanussi Cardoso quer revelar a pausa de que precisamos para respirarmos melhor e a embriaguez dos sentidos caudalosos. Os jogos de espelhamentos que são tensos perfazem sua voz teatral: “(O espelho/só o espelho/existe)”.

A descoberta do sentido do ser se dá através da poesia, este mistério da palavra inaugural e primordial e o título de um dos poemas é bem ilustrativo, “Origem 2”. Temos, assim, as contradições entre o ato e a fala, entre o real e o interno, o que nos circunda e o que se engendra dentro de nós, querendo ser expelido para fora a partir da bela poesia de Tanussi: “O poeta, sutilmente,/afirma/o que o poema desdiz”. Aqui temos os ecos pessoanos de “o poeta é um fingidor”. Os jogos de fingir, ficcionais também produzem suas máscaras, e o que era essência se dissolve no ar. Sua poesia é de extrema solidão, mas também de comunhão com a humanidade que reside em nós e que quer ter contato com o exterior, com o outro. Se na poesia, residem o silêncio e a voz pronunciatória, é na origem que encontramos esse reflexo humano de Deus: “Ouvir a pronúncia de Deus/Ou seu silêncio”. Na origem divina, há o noturno e o diurno, as trevas e a luz, o caos e a ordem, o silêncio e a linguagem.

Na segunda parte, encontramos o entrelugar da natureza e da cidade, do deserto e da plenitude, do silêncio e dos choques visuais e sensórios do meio urbano. O “entre” parece ser a palavra-chave desta parte que desdobra o rio caudaloso na sua movência natural. O deslocamento do rio pode percorrer a natura e a urbe multifacetada e caleidoscópica: “Um rio/move-se/desloca-se/desnuda-se entre”. Enquanto a natureza se caracteriza por sua nudez e inocência primeva, o meio caótico urbano se veste de palavras e atropelos, são os sinais citadinos que nos levam do pouco e do menos, ao muito, ao múltiplo. A simplicidade da natureza é cortada por um rio que se reparte em dois, num entrelugar do paraíso e da artificialidade. Mas não pensem que a natureza por ser simples deixa de ser densa. Longe disso. Ela também produz seus espelhamentos e complexidades: “Árvores perdem suas raízes,/entrelaçadas/nos fantasmas de outras árvores    “. Os mistérios das cifras e dos símbolos naturais nos conduzem à admiração pelo abismal, pelo que não pode ser traduzido por palavras banais, mas pela linguagem metafórica da poesia que se traduz em silêncio oracular. Assim, o silêncio e o canto, paradoxalmente, se encontram na natura. Um canto que é “música calada”, como diria San Juan de la Cruz na sua mística e interpretação dos dons divinos. Em Tanussi, temos: “O pássaro sangra o silêncio/com a violência do seu canto”. Assim, temos os intercâmbios entre a natureza e a cidade, produzindo seus espelhos metamorfóticos.

Na terceira parte, “Do enigma”, o amor produz seu grito de dor e de prazer, pois ele está totalmente inserido no tempo: “O que o amor/exprime/enquanto voz”. Nessa parte, temos os inúmeros jogos de eros, com a dupla face do erotismo, pois amor é vida e morte, pulsão e destruição: “O amor acaba quando começa/Como morremos no momento de nascer”. Eros é força de ligamento, de união entre opostos, mas também desmoronamento e tempo que se esvai num instante. Amor é passagem e permanência, a voz e a desertificação da linguagem, pois o ato do amor explode as palavras nos vácuos do desejo. Eros também tem a audácia de querer desafiar o tempo e interrompê-lo na cama elástica dos sentidos, do sensório, abertos ao corpo que esfaqueia a palavra proliferadora de nós. Nós queremos ultrapassar o tempo e fundar a eternidade do ato erótico que pode se esconder nas dobras do gozo. A escrita é a satisfação de um desejo como o prazer carnal, o verbo se faz carne: “Escrevo/não para passar o tempo/mas para ele não passar”. Portanto, no livro excepcional de Tanussi Cardoso que nos conduz aos caminhos e descaminhos dos contrastes, percebemos toda a multiplicidade do verdadeiro versar deste poeta amadurecido e digno de constar nos livros teóricos e didáticos de literatura de todo o país. Pois sua poesia nos faz pensar sobre nossa realidade circundante e sobre o sentido do ser. Trabalha com os temas fundamentais da literatura e desafia o leitor a desvendar os enigmas de sua existência, que é tempo, memória e esquecimento.

 

 

 

 

Newsletter

Dos livros às telas de cinema

Não é de hoje que muitas histórias de livros despertam desejos cinematográficos, algumas dessas histórias ao pararem nos cinemas até.

LEIA MAIS

Lupa na Canção #edição21

Muitas sugestões musicais chegam até nós, mas nem todas estarão aqui. Esta é uma lista de novidades mensais, com músicas.

LEIA MAIS

“Fiz da arte um motivo para viver” – por Pedro Antônio

Quadro “Cinco Girassóis” de Pedro Antônio   Meu nome é Pedro Antônio, tenho 23 anos, e hoje eu posso afirmar que.

LEIA MAIS

Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, é inspiração do também Bernardo Soares, cantautor do “Disco

Olá! Eu sou Bernardo Soares, um artista da palavra cantada, compositor de canções que atua a partir de Curitiba, no.

LEIA MAIS

Curso Completo de História da Arte

Se você está pesquisando por algum curso sobre história da arte, chegou no lugar certo! Aqui nós te apresentaremos o.

LEIA MAIS

Novo pop rock de Jan Thomassen se esbarra na “crise dos 40” 

“Envelhecer consciente de que não há caminho de volta”. É este um dos pensamentos do novo single do cantor e.

LEIA MAIS

As “Dancinhas de Tik Tok” são inimigas da dança profissional?

Os avanços tecnológicos e suas devidas popularizações presenciadas desde o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 se.

LEIA MAIS

Bárbara Silva: mais um caminho para compreender a Nova MPB

Recentemente, nós publicamos sobre “o que é, afinal, a Nova MPB?”. A matéria que pode ser acessada aqui nos traz.

LEIA MAIS

BEDEU – Em emocionante entrevista, a compositora Delma fala sobre o músico gaúcho

Em Porto Alegre (RS), no dia 4 de dezembro de 1946, nascia aquele que daria o ar da graça ao.

LEIA MAIS