Será o acaso? O domínio do imprevisível? Aquele encontro que acontece e muda a trajetória sem prévio planejamento ou intenção? Ou será alguma força sobrenatural que une sonhos nada distantes?
Mais parece um leve e gracioso empurrãozinho de quem conhece bem os corações sonhadores. Aliás o que seria de nós sem um pequeno sopro do “Acaso”?
Foi nesta linha tênue entre o que é e o que poderia ser que conheci Elias Martins.
Por “acaso” a vida nos fez estar no mesmo ponto de encontro: o check-in de uma estadia de hospedagem particular! Sim, estamos falando de dois lados daquela famosa plataforma de hospedagem! Mas que, não cabe mais delongas no caso!
Elias é músico e vocalista da Banda de Blues Rock Mindigo! Eles vieram de Minas Gerais procurando frio em Curitiba! O que, por acaso, não encontraram!
Sim, caro leitor, o nome da banda remete a palavra “mendigo”, e não me pergunte sobre a aparência dos integrantes, deixo que o “acaso” lhe atice a curiosidade de descobrir sozinho!
Aposto como o dedinho nervoso saiu imediatamente desta leitura e foi direto a uma rede social ou ao ChatGpt (ou eterno Google, para os já ultrapassados tecnologicamente! rsrs).
Agora que já conhece os quatro integrantes da Banda Mindigo, quero que pare e ouça a música “Canção da América”, de Milton Nascimento. Quase como um oráculo sagrado dos corações amigos, Milton descreve um mapa do sentimento que guardamos do lado esquerdo do peito! Foi essa melodia que ecoou em meus pensamentos quando recebi os meninos da banda Mindigo no meu apartamento: um cabeludo demais, um careca demais, um seriamente estranho de bom coração e um, digamos, chato legal demais!
Espero que depois desse meu último parágrafo, eu não tenha perdido a amizade deles! Ohhh Milton Nascimento, me ajude que realmente eu esteja do lado esquerdo do peito deles! Ai! Vamos em frente!
O rock, muitas vezes estigmatizado pelo caos, revelou ali sua face mais serena: a face da fraternidade. Há tempos eu não sentia a leveza e verdadeira amizade tão perto de mim!
A história da Mindigo não começou com um anúncio de jornal procurando músicos. Começou com a vida. Elias Martins (50, e cabeludo) e Eric Wildmark (50, e chato legal) já dividiam jingles e spots publicitários muito antes de dividirem o palco. A amizade, forjada no dia a dia do trabalho, transbordou para as notas musicais.
Depois veio Hairlan Rodrigues (54, ele é sério mesmo! Até o momento da resenha do garçom! rs), trazendo a bagagem de bandas de cover dos anos 80. E, por fim, o “neném da banda”, Paulo Neves (36, careca que ganhou meu chapéu!), que trocou as baquetas da igreja e as pistas de dança de salão pelo groove da Mindigo.
Como Elias bem definiu: “A música é sobre afinidade. Você pode tocar com muita gente, dar certo uma vez, mas o encaixe real, a conexão que faz você querer estar junto, é rara”. E eles têm esse “encaixe”.
“Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves / dentro do coração / amigo é coisa pra se guardar / no lado esquerdo do peito…”
Durante a nossa conversa, perguntei o que fariam se um deles não estivesse ali amanhã. O silêncio (e lágrimas, eu vi…) que se seguiu foi preenchido por um olhar de gratidão genuína. “Sem ele, a vida seria muito mais difícil”, confessou Elias, olhando para Eric.
Eu me referia ao trecho da música que diz:
“Pois seja o que vier (seja o que vier)
Venha o que vier (venha o que vier)
Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar…”
Um paralelo aqui: nesse momento, eu, também com os olhos cheios de lágrimas, me enchi de um sentimento de “Haaaaaaaa! Quebrei os duroes do rock! Por essa eles não esperavam!” (rsrsrs).
Eles são o exemplo vivo de que a banda é apenas o pretexto. Se o rock parasse de tocar hoje, o churrasco estaria garantido amanhã. Eles se completam nas diferenças: a agitação metódica do Eric, o “maestro” perfeccionista, equilibrada pela energia vibrante do Paulinho, que entre um intervalo e outro, não resiste a um pagode ou a batucar no próprio corpo, para desespero — e riso — dos companheiros.
Eu tive a alegria do “acaso” de estar alguns dias com eles e desfrutar dessa amizade, que parece mágica aos olhos de uma criança! Aos olhos de minha criança interior tenho a certeza da verdade que há! E confesso, foi bom demais sentir essa energia amiga mesmo como intrusa por um tempinho!
Mas a essência da banda é tudo, menos desalinhada. Com letras que resgatam o lado humano e o companheirismo, eles estão conquistando o mundo — literalmente. Com a canção “The Loudest Drum” tocando em rádios da Inglaterra e em mais de nove países, eles provam que o Blues Rock feito com alma não tem fronteiras.
Ao som de Milton, encerramos nosso encontro com a certeza de que, “mesmo que o tempo e a distância digam não”, a Mindigo já gravou sua marca. Eles não são apenas quatro músicos no palco; são quatro amigos que decidiram que, venha o que vier, eles enfrentarão juntos.
Porque, no final das contas, a trilha sonora da vida fica muito mais bonita quando cantada em coro.
Ahhh! Você deve estar se perguntando como chegamos nesse ponto? Tudo passa por uma coincidência, um sonho próximo, uma curiosidade, um desafio, um “tamo junto”, seguido de um pensamento de “onde estávamos com a cabeça quando aceitamos?”…e um troféu recebido das minhas mãos! Eita! Entendeu nada? Perfeitamente compreensível! Mas fique calmo! Você terá a oportunidade de entender essa longa história de três ou quatro dias e tudo o que o “acaso” nos aprontou através das minhas redes sociais e da banda Mindigo em breve!
Vale a pena acompanhar ao som de “mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção, o que importa é ouvir a voz que vem do coração…”
E eu digo, mesmo que o tempo e a distância digam não, vocês, Mindigo, fizeram história na minha vida por “acaso”…
Cada um tem o troféu que merece! Deixo aqui e nas minhas memórias a marca do meu troféu carinhosamente recebido do “Acaso”!
Até breve! Caro leitor!
Toda música trabalhada nesta coluna está disponível em uma playlist no Spotify
Sobre “Playlists da Vida Como Ela É”
A Playlist da Vida Como Ela É é uma coluna de crônica musical que deixa de lado a teoria técnica para focar na música como trilha sonora do cotidiano. O espaço explora o encontro entre o fone de ouvido e a vida real, transformando cenas do “corre” diário — como o trânsito, o café frio ou uma nova porta que se abre — em curadorias emocionais. O objetivo é criar conexão e identificação imediata, mostrando como a sonoridade certa humaniza a rotina e altera nossa percepção do mundo, servindo como uma ferramenta de sobrevivência e poesia para quem vive a vida exatamente como ela é.
Sobre a autora da coluna
Ger Paiva é cantora, compositora e escritora, movida pela missão de conectar pessoas através da arte. Gestora com sólida experiência no setor industrial e empresária, ela transita entre o rigor dos negócios e a sensibilidade dos palcos, transformando o cotidiano em crônica e melodia. Hoje, atua unindo sua visão estratégica à escrita criativa para explorar as trilhas sonoras da vida real em sua coluna na Revista Arte Brasileira.
