30 de maio de 2024
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Uma breve leitura dos festivais de ontem e de hoje

Nesta manhã de quinta-feira, dia 22 de março de 2017, acabei de ler o livro “Tropicália – A história de uma revolução musical”, de Carlos Calado.

A Obra de Calado, criada a partir de registros históricos em bibliotecas e declarações detalhadas de artistas que viveram o movimento da tropicália – que teve uma duração curta, entre 1967 à 1968 – abusou muito de falas a respeito dos famosos festivais musicais da TV Record e da TV Excelsior, que embelezaram a fama de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, entre tantos outros.

Foi com esse ar e atmosfera, que eu, um leigo no assunto, cursando o último ano de jornalismo, pude compreender o quanto esses festivais foram importantes para a música popular brasileira, mas foi também com essa leitura que eu pude perceber o quanto os tempos mudaram.

Antigamente, nos anos 60, os festivais como o Festival Internacional da Canção exibido em TV aberta, e os programas também de emissoras como a Record, eram muito críticos, tanto em questão de bancada, com os júris como em questão de plateia.

O público que acompanhavam os programas e festivais nas arquibancadas e plateias não hesitavam em criticar determinadas canções, roupas, artistas e seus discursos, as vezes, até arremessando tomates e latinhas de cerveja e refrigerante. Já no momento em que estamos, uma plateia jamais iria ter essa atitude. Mesmo com o descontentamento, não se vê mais sinceridade na voz do povo, o que realmente me preocupa muito. Estaria as pessoas menos sinceras, mais falsas e sem tom crítico? Ou a produção desses eventos exige cautela nas manifestações do público?

(Fica também outra reflexão, indo mais a fundo na crítica que estou fazendo: latinhas tudo bem, é algo que as pessoas compravam nos eventos, mas e os tomates? O que faziam as pessoas em apresentações culturais com tomates? Para mim, fica claro mais uma vez, que o público já ia pros festivais prevenidos. Talvez os tomates seriam levados pela galera já pensando em arremessa-los diretamente aos narizes dos artistas, e até mesmo para sujar a roupa dos mesmos, que muitas vezes desagradava o público, como o caso de Rita Lee que se apresentava toda despojada pra época).


Alguns dias antes, em 2 de março deste ano, algo incrível aconteceu na TV brasileira. O programa “Amor e Sexo”, exibido as quintas-feiras na madrugada pela TV Globo, já conhecido por sua notoriedade, acrescentou muito, quando a recém cantora lançado na mídia Liniker, apareceu cantando uma obra-clássica de Chico Buarque “Geni e o Zepelim”, cuja letra, nas entrelinhas aborda uma travesti (Geni) odiada em sua cidade, após recusar sair com Zepelim que representava o luxo e o poder.

Curiosamente ou não por acaso, Liniker é uma artista que sempre aparece com roupas, acessórias e maquiagens femininas, causando desde sempre polêmicas, gostos e desgosto, ainda mais quando sua voz potente e diferenciada e suas músicas sempre muito inovadoras se sobressaem.

A apresentadora Fernanda Lima chamou ao palco a cantora, que com muito brilho, apresentou-se com um vestido mais brilhante ainda, em tom de cinza, com longos brincos, maquiagem e batom, além de estar alinhado no topo do palco. Ela cantou a introdução e as primeiras partes da música de Chico, com um belo arranjo por trás de sua voz. Depois, ao início do refrão “Joga pedra na…”, ele e a banda param, e Liniker diz “NÃO JOGA!”, apontando o dedo indicador para frente. Em seguida, ele fala “O Brasil é o país que mais mata travestis, transexuais, homossexuais e bissexuais do mundo. Isso tem que acabar. Basta! Só assim podemos nos redimir.”, e termina “Bem dita Geni!!!”.


Bom, não sei se vocês conseguiram relacionar o primeiro relato com o segundo. Mas para mim, o programa liderado por Fernanda Lima está revolucionando a forma como se faz TV no Brasil. Certamente, se isso tivesse acontecido em outro período, ou seja, há uns 30, 20, ou 10 anos, o público teria vontade não só de bater em Geni, como também de espancar Liniker, o que não é nada bom.

Com isso, não quero dizer que a plateia tem que ser agressiva. Muito pelo contrário, acredito que quanto mais sinceridade, mais passivo a situação se torna, porque os artistas crescem não somente com elogios, mas também com críticas.

Ao meu ver, a semelhança principal entre os dois relatos é que a TV forma artistas, e o público junto a esses artistas, constroem a história, como aconteceu com a Tropicália.

Abaixo, deixe o seu comentário a esse respeito, e se não gostarem do meu texto e da minha crítica, por favor, jovem tomates ou latinhas de cerveja em mim, mas de preferência, que acertem logo o meu rosto. Obrigado!

Escrito por Matheus Luzi em março de 2017

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Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.