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[ENTREVISTA] Sid fortalece a raiz do rap no álbum “Poesias e Frustrações”

Matheus Luzi

Publicado

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(Capa do álbum)

 

O rapper Sid representa muito bem a cultura hip-hop. Em “Poesias e Frustrações”, o músico de 22 anos embala versos que são verdadeiras “pedras no sapato” de muita gente. Tudo isso com uma retórica poética que mostra um artista mais maduro e com maior identificação dentro do universo do rap.

A mensagem das dez faixas do álbum é forte, importante e urgente. Apesar de boa parte das letras estar envolta a metáforas, é muito evidente uma leitura dinâmica do mundo e do Brasil atual.

Por se tratar uma bela obra de arte, que infelizmente, pode ser considerada marginalizada, a Arte Brasileira entrevistou Sid. Confira após ouvir o álbum.

 

 

“Nunca precisei rimar sobre droga e nem diminuir mulher”, seria esse verso que abre a faixa “Muro das Lamentações”, uma crítica ao Funk carioca ou ao fato dos artistas estarem se vendendo? Ou seria os dois, ou nenhum?

No caso não é uma critica ao funk em si, pois o funk desempenha um papel cultural nas periferias e favelas do brasil, mesmo contendo um conteúdo extremamente machista! E eu não conheço o funk, não conheço os funkeiros, logo não posso opinar.

 

Em “confissões”, você critica a sociedade e suas imposições e injustiças. No entanto, em determinado momento você canta “Me sinto culpado / Por esse mundo ruim, por esse jogo ruim / Por essa gente que sofre demais”. O que você, afinal, quer dizer com esses versos?

Desde que nascemos, somos moldados de acordo com a sociedade, eu nasci em um meio regado de preconceitos, racismo, machismo , homofobia e outros. Foi uma luta muito grande na minha cabeça entender que eu sou o vilão do mundo, que eu sou um cara branco, hetero, classe media, e que geralmente as pessoas brancas, hetero e classe media, são as pessoas que cometem preconceitos, cometem injustiças (basta olhar pro cenário politico, onde a maioria esmagadora dos políticos são brancos, hetero e classe media e eles que fazem nosso pais ser essa miséria que é).

Então quando eu tomei consciência de que eu fui preconceituoso na juventude, eu decidi mudar. Não fui preconceituoso por que sou um cara ruim, fui preconceituoso por que a sociedade, o meio onde eu cresci, me criou assim, e eu decidi mudar 18 anos de ensinamentos preconceituoso graças ao hip hop, graças as batalhas de rima principalmente. O verso onde falo ‘’me sinto culpado’’ quer dizer isso. Eu me sinto culpado por todos os erros sociais que eu fiz, me sinto culpado por todos os ensinamentos racistas, machistas e homofobicos que eu tive. Mas me sinto extremamente orgulhoso de estar lutando contra tudo isso, e estar tentando construir um mundo melhor onde as pessoas não cresçam aprendendo os mesmos preconceitos que eu aprendi, e que as pessoas não cresçam sofrendo preconceitos devido a tudo isso…

 

Ainda nessa música, sua crítica é voltada a alguém ou à algum grupo em específico?

Não. Raramente minhas criticas são direcionadas a 1 pessoa, ou a 1 grupo.

 

 

As faixas “Autobiografia Parte 3” e em “Assalto a Mão Letrada 2”, seriam duas apresentações da sua vida pessoal?

Todas as ‘’autobiografias’’ são relatos 100% reais da minha vida. ‘’Assalto a Mão Letrada’’ não é exatamente uma apresentação da minha vida, é mais uma apresentação das minhas frustrações e indignações!

 

A que você se refere com o verso “Cuidado com que deseja” na quarta faixa do álbum?

Suicídio e sucesso. As vezes nós desejamos muito alguma coisa, sem ter ideia do fardo que pode ser carregar isso que tanto queremos.

No início da segunda parte após o refrão, eu falo sobre alguns livros espiritas (no momento a crença em que mais acredito) e quase todo o álbum foi composto em um momento de depressão da minha vida pessoal, e eu tinha pensamentos muito ruins, que só aliviavam depois que eu conseguia colocar em palavras… Como eu não queria falar com ninguém, eu falava com o microfone do meu studio pra aliviar, depois decidi juntar os sons e fazer o álbum.

 

Em “Overdose” e “Poesia Tarja Preta” você declara seu amor pela poesia, pela arte. Achei lindas essas letras e essas músicas como um todo. Parabéns! (Comente).

Muito obrigado, são musicas que eu gosto muito, até por que eu me sinto um MC, mas eu me sinto MUITO MAIS UM POETA!

As vezes bate uma raiva, por que a poesia é algo esquecido no mundo atual, mas é algo que me completa, então me sinto na necessidade de amar a poesia, de reviver a poesia, de SER A POESIA!

 

A última faixa “Hellboy” leva que mensagem ao público?

De que eu sou o hellboy, por que eu luto contra tudo que conforta o mundo, luto contra os preconceitos e contra as hipocrisias que confortam e estagnam o pensamento humano. Em um verso eu falo ‘’se o estado é a igreja com muito prazer eu sou hellboy’’ pois vivemos em um pais laico onde boa parte das leis e decisões politicas são baseadas em religião, pois o politico quer renovar seu mandato, então ele agrada a massa (em sua maioria cristã), e quando se fala em pensamento da massa de manobra, falamos também em um pensamento moldados dentro de uma igreja, logo as decisões são para agradar religiosos, te parece familiar, ‘’deus acima de todos, brasil acima de tudo’’? Não sou contra a igreja, sou contra alguns membros corruptos e abusivos da igreja.

Eu sou o HELLBOY, e vim mostrar que o inferno é aqui onde vivemos, onde as leis não tem valor, as pessoas não tem sentimentos, e o dinheiro é o deus mundano.

 

(Foto/Divulgação)

 

Em suma, todas as letras, em algum momento, tem a palavra “Deus”…

Deus ou deuses. Durante 7 anos fui ateu, e desisti completamente da minha religiosidade e fé. A 5 anos conheci minha esposa e ela conseguiu reviver tudo isso em mim, conseguiu reviver minha fé. Eu passei quase uma década sem falar com deus, por que eu acreditei que ele havia abandonado a gente… Hoje me sinto próximo de deus, ou deuses, o bastante pra contestar ele(a), pra reclamar com ele(a), ate pra duvidar dele(a), e nada disso diminui minha fé.

Creio em algo maior que me da liberdade, liberdade ate mesmo pra não concordar com NADA DISSO! No fundo eu ainda sou mal resolvido com os céus. Busco explicações, respostas e imagens que acho que só encontrarei após essa vida aqui.

Mas é bom cantar e escrever tudo isso, até para não esquecer [hahahahaha].

 

Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar?

Tenho sim.

A história do por que eu comecei a rimar “Ideologia”.

Eu rimo a muito tempo, quase 7 anos, mas comecei a rimar “Ideologia” tem uns 4-5 anos. No inicio eu rimava sobre tudo que hoje eu odeio…

E tudo mudou numa terça feira, em uma batalha de rap no entorno de Brasília, em Samambaia.

Tem um amigo meu (que eu não citarei o nome) que batalhava comigo sempre, ele morava na Ceilândia na época e não tinha muito dinheiro, mas era MUITO TRABALHADOR, e ele adorava zuar nas batalhas e eu também, e quando a gente batalhava junto, era zuação e baixaria na certa [hahahah]! Nessa terça feira, a ex-esposa dele conseguiu na justiça que ele não visse mais o filho dele (que ele amava muito e ate levava pra batalhas de vez em quando) e ele tava muito triste nesse dia, muito triste mesmo, eu fui buscar ele em casa pra nós colar na batalha, e quando eu cheguei na casa dele, ele demorou uns 30 minutos pra sair, e quando saiu tava com a cara fechadona, eu fui conversando com ele e falou o que que tinha acontecido. Ele não falava com o pai dele a uns 8 anos, por que o pai dele tentou esfaquear a mãe dele quando ele tinha 12 anos e ele se meteu na frente e tomou uma facada, e ele sempre ficava pensando se voltava ou não a tentar falar com o pai, e naquela terça feira o pai dele tinha falecido e ele estava na merda por que se arrependia de não ter falado com o pai nos últimos anos, mas ao mesmo tempo odiava o pai… Ele havia perdido o pai e o direito de ver o filho no mesmo dia!

Naquele dia, ele foi pra batalha mesmo assim, e ele batalhou ate a final, e na final a gente caiu junto e eu não dei meu melhor na batalha de proposito e ele me massacrou, e quando a batalha acabou ele me agradeceu por ter buscado ele… Ele me disse ‘’Sid, meu dia esta uma merda irmão, uma merda mesmo, mas essas 2 horinhas que ficamos aqui batalhando, fumando cigarro e jogando conversa fora , eu esqueci que tava uma merda… Obrigado por essas duas horinhas’’.

Naquele dia eu percebi uma coisa, que a minha vida era boa demais, que eu tinha os dois pais em casa, que eu não tinha que trabalhar pra caralho que nem esse meu amigo pra me sustentar, que eu vivia no céu mesmo, num mundo das fantasias! E que por eu viver muito bem, eu não tinha direito de cantar merda, de falar merda, de só rimar idiotice, eu tinha que cantar algo que ajudasse os outros, por que eu já tenho tudo no mundo, mas muita gente não tem, então o mínimo que eu posso fazer é me doar pra essa causa, decidi que ia rimar “Ideologia” ate o dia que eu parasse de rimar.

 

Sinta-se a vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Esse foi meu primeiro álbum, e foi um marco no minha carreira e na minha vida pessoal! Foi um álbum baseado em depressão, criado no meio do tumulto de uma depressão, mas foram as musicas que mais mudaram meu jeito de pensar, meu jeito de me expressar artisticamente. Foi uma dor do caralho fazer esse álbum, eu sei que nunca vai ser o maior álbum do brasil, ate por que eu não sou o hype [haha], mas ele sempre vai ser a cura da minha depressão e eu amo muito esse álbum independente da opinião de qualquer um!

Foi um prazer enorme responder essa entrevista, sem duvidas as melhores perguntas que já me fizeram ate hoje! Um abraço galera!

 

 

 

 

 

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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