3 de julho de 2026

Um gole de juventude

Gente é um bicho muito estranho. Quando é criança, sonha encontrar o mundo. Depois de grande parece que perde o encanto, a vontade, a força… fixa as raízes em qualquer coisa e deixa que o próprio mundo se encarregue de encontrá-lo, quando nem ele, às vezes, sabe por onde anda.

Eu mesmo carrego a feia mania de só conhecer lembranças, porque é a única coisa que tenho do que não tenho mais. Gosto de ligar o som e me esquecer ali mesmo; sinto saudade de viajar o Brasil inteiro pela voz de Belchior, Cássia Eller, Nando Reis… e voltar pra casa após desligar o rádio.

Lembro da minha velha infância, a malandragem de um rapaz latino-americano que acordava às cinco, e às seis já havia escrito uns três poemas enquanto aguardava o ônibus. Lembro do ensino médio onde todos os meus amigos conversavam horas e horas sobre qualquer coisa e sonhavam em ser livres sem saber que naquele momento ainda eram. Hoje quase não conversam, não se há mais um violão tocando legião urbana e nos lembrando do nosso tempo perdido. Hoje, só hoje, perceberam que passarinho quando perde as asas, fica mudo.

A boa notícia é que a juventude é um som do século, ou melhor, de todos eles. A juventude é uma música que marca época e não importa quanto tempo passe, te fará dançar de novo; e o melhor: te fará olhar pra frente e ver no futuro o incrível desejo de viver outra vez [aquilo que ainda não viveu].

Recentemente, como bom nordestino, me peguei ouvindo Flávio José cantar sobre suas dificuldades, sua poesia, seu amor e seus dias dentro do sertão brasileiro… olhei pra trás novamente e vi que a alegria das lembranças está justamente no que elas são: lembranças; e que o futuro só será melhor se tirarmos leite de pedra para que ele seja.

“Carta na mesa
O jogador conhece o jogo pela regra
Não sabe tu que eu já tirei leite de pedra?
Só pra te ver sorrir pra mim não chorar”
(Tareco e Mariola, Flávio José)

A juventude, com sua garra, sonho e vontade, é uma garrafa que nunca se esvazia, de fato. A vida adulta é que é um enorme medo de ter sede. Vá em frente, não tema, dê mais um gole.

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