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Clipe

[ENTREVISTA] Em clipe de Thiago Ramil, a poesia expressa as dores dos crimes ambientais

Matheus Luzi

Publicado

em

Thiago Ramil Clareira Criada

(Cena do clipe – Crédito: Guilherme Becker)

 

Clipe, curta, documentário. Tudo isso em um só vídeo que ilustra a intensa e dolorosa canção “Clareira Criada” de Thiago Ramil. Na letra, o eu lírico é uma árvore que sente angustiada sua paz dizer adeus com as chamas, que aliás, não são nada acidentais. Essa é a visão poética de Thiago e seu parceiro de composição Poty Burch, que se fortaleceu com a produção audiovisual do diretor Guilherme Becker.

Pode parecer mentira, mas o clipe foi gravado com cenas reais e imprevisíveis. As imagens foram captadas nos arredores de Porto Alegre, no mês de setembro de 2019. As queimadas que aparecem no vídeo foram flagradas na mata nativa do Rio Grande do Sul, e que com tristeza, foram localizadas com facilidade.

“Clareira Criada” é uma produção que alerta para uma difícil realidade que afronta o planeta e a própria sobrevivência humana. Tamanha importância nos levou a realizar uma entrevista com Thiago, na qual, detalhou os bastidores do vídeo e também opinou sobre a desastrosa atitude do desmatamento. Abaixo você confere a letra da música e a entrevista.

 

“Clareira Criada” (Thiago Ramil/Poty Burch)

Qual é o estado da matéria

Quando o fogo pega

na minha pele e vira fumaça

Estala minha casca

arde peito em brasa

que lateja por dentro

quando o vento assopra

Chama dança a rajada embala e se espalha cedo pela selva mata

Clareira criada

Clarão na madrugada

que cala toda fauna

E faz do mato

pasto pro gado

Pra nascer rompi a terra

Fui crescendo gota a gota

pelos feixes que cruzavam

a cortina de outras tantas

Demorei chegar no topo

vi o vasto mundo em torno

Vasto verde todo como eu

Numa noite vi chegar

uma nuvem suja

sufocando todo ar

Borbulhando cada gota

vi o verde avermelhar

Vi um mar ardendo em chama

Hoje é cinza

Hoje é cinza

 

CLIPE

Direção, Fotografia e Montagem: Guilherme Becker

Roteiro: Bela Leindecker, Guilherme Necker, Thiago Ramil 
Drone: Lucas Picolli 

 

 

– À primeira vista, a música já me choca. Primeiramente pelo título. Na minha análise, vejo que a intenção sua seria de que essas queimadas são criadas por nós mesmo. Seria isso? Não? Ou mais do que isso?

Acredito essa canção traz à tona questões ambientais, políticas e sociais que nos afetam atualmente com muita intensidade, ainda que sejam práticas recorrentes e que compõem o cenário do país desde a conquista da américa e o início do processo e exploração/colonização. Mesmo mudando as práticas de exploração da terra ao longo do “desenvolvimento econômico” do país, a relação com a natureza manteve-se sempre a mesma, apontando para uma relação de “extração dos recursos”, em outras palavras, sugar tudo o que a terra tem pra dar. Isso é bastante irresponsável.
As queimadas criminosas entram nesse contexto como uma prática que ampliou-se nos últimos tempos e ganhou notoriedade por afetar intensamente a região amazônica, situação relacionada ao plantio da soja e à pecuária. É uma prática bastante recorrente, e aqui no Estado do Rio Grande do Sul, e está bastante associada a limpeza de áreas para o plantio e cultivo do Eucalipto (que é extremamente danoso ao solo). Acho importante diferenciar as queimadas naturais, as permitidas e as criminosas, pois a as queimadas são prática reconhecidas e utilizadas como recursos agrícolas e de manejo com o solo (mesmo que existam outros menos agressivos à terra). Porém as queimadas criminosas atendem a interesses pessoais, são extremamente irresponsáveis e agridem (com propósito) toda vida e a biodiversidade de uma região. Isso é muito grave.  
A partir dessas situações, pensei uma forma de expressar e chamar atenção para gravidade dessas práticas por meio da poesia e da canção. Isso, pois, acredito que a música tem a capacidade de sensibilizar e possibilitar às pessoas ouvirem as coisas de uma outra maneira.

 

– Entramos por fim na letra em si. Por aqui entendo que o eu lírico seria a própria árvore, que sente a dor de estar morrendo…

De certa forma sim. Sempre me identifiquei muito com as árvores, o que se intensificou depois de um período em que morei numa casa com um amplo pátio e muitas frutíferas. Gosto muito de conversar com as plantas e me identifico com a perspectiva de ser enraizado em vários aspectos (desde o mapa astral à identificação com o meu lugar de origem). No meu primeiro álbum compus uma música (“Amora”) em que coloco o sujeito/narrador na perspectiva de um pé de Amora. No caso de “Clareira Criada” revisitei a ideia num contexto mais denso; outra temática. Ainda assim, busquei, dentro dos diferentes momentos da canção, trazer não só a gravidade das queimadas como também a leveza e beleza de respirar como uma árvore, entre “a cortina de outras tantas”.  

 

– Gravado neste ano, o clipe registrou cenas reais de desmatamento. Como vocês trabalharam para que isso acontecesse, de forma inclusive, que aparentasse “montagem”?

O clipe foi gravado em um dia de captação, nos arredores de Porto Alegre, cidade onde vivo. Eu o Guilherme (diretor) estávamos procurando uma clareira recente, mas não sabíamos exatamente onde localizar, pois não há registros das queimadas ilegais. Assim, saímos de carro em direção ao centro do estado do Rio Grande do Sul e encontramos uma clareira oriunda de uma queimada recente há menos de 30 km do centro da cidade. Seguimos a captação ao longo do dia e no final da tarde, quando estávamos retornando para cidade, nos surpreendemos com uma grande fumaça que invadia a estrada. Ao nos aproximarmos percebemos que ocorria uma queimada da mata nativa do Rio Grande do Sul, em uma pequena área já cercada por vastas plantações de Eucalipto. O que se deu, portanto, foi o registro de uma queimada de mata nativa do Rio Grande do Sul para a limpeza da área (muito provavelmente para o plantio de Eucalipto – monocultura extremamente agressiva ao solo). Na edição do clipe buscamos ampliar o diálogo sobre essas situações com imagens de grandes queimadas, uma vez que são práticas recorrentes, irresponsáveis e que agridem a biodiversidade de muitas regiões do país. Por isso (e outras muitas preocupações) que buscamos nesse clipe denunciar práticas ilegais de maneira poética, procurando caminhos criativos para abordar temáticas tão graves e alarmantes.

 

– Em meio as gravações, houve sentimentos “ruins”? Acredito que estar perto de uma destruição desse nível não é nada agradável.

Muitos. Não só pela situação vivenciada no dia da gravação, mas por observar a paisagem e se ver cercado por plantios “infinitos” de Eucalipto, que se estendem por incontáveis Km’s adentro do Estado. São práticas recorrentes e rotineiras. O que vimos naquele dia foi um recorte de algo que ocorre quase todo dia, todos os meses, há anos. Fora o impacto das grandes empresas e seus latifúndios que, de outra forma, agridem vorazmente e inconsequentemente a biodiversidade da região. Exaurem os recursos da terra, poluem os rios, extinguem a fauna e a flora, e quando a terra jaz seca, esgotada, o capital global se desloca da noite pro dia e passa a explorar outro lugar, da mesma forma. Isso dói muito. E é dessa dor que nasceu a música “Clareira Criada“.

 

Thiago Ramil Clareira Criada

(Thiago Ramil – Foto/Divulgação)

 

– Eu entendo o clipe de “Clareira Criada” vai muito além de ser um vídeo para uma música. Entendo mais como curta-metragem do que como clipe musical. Minha visão pode ser aprovada por você? [RISOS]

Achei legal a perspectiva de um curta por mais que não tenhamos pensado nisso. Penso que a letra da música carrega em si um espécie de “roteiro”, de uma situação narrada a partir de um sujeito/árvore, o que possibilita essa associação como curta-metragem, por apresentar uma breve história. Ao mesmo tempo penso que a captação das imagens e a montagem do clipe traçam um paralelo com uma perspectiva quase documental desse fenômenos que ocorrem recorrentemente. Por isso penso que o clipe habita o encontro, entre a narrativa da canção, o registro de queimadas ilegais, e olhar poético do Guilherme Becker que conseguiu costurar essas possibilidades com grande sensibilidade.

 

– Como você enxerga essa realidade ambiental? Qual sua visão de um futuro próximo e distante?

Acho extremamente preocupante e assustador. Diversas instituições e centro de pesquisa vêm alertando para a gravidade de ações que, atendendo a interesses econômicos, desrespeitam e ignoram acordos ambientais. Ainda assim essas  multinacionais seguem agredindo sem pesar o meio ambiente. O capital segue sua lógica de exploração sem frear um segundo, mesmo havendo catástrofes ambientais causado por ações humanas. O Brasil, infelizmente, tem sido palco de muitas catástrofes de impacto imensurável e que tem sua origem no interesse do capital pelo capital. Nos últimos anos podem citar inúmeras situações: Belo Monte, Mariana, Brumadinho, Queimadas Amazônicas, óleo no Nordeste… O que mais me assusta é o fato de que mesmo havendo essas situações absurdas a lógica da exploração permanece a mesma, os interesses e benefícios seguem sendo os mesmos, a impunidade permanece a mesma, e os danos (que são irreversíveis) se acumulam como mais um dado estatístico numa reportagem do jornal; “uma notícia que passa”. Toda essa fragilidade se intensificou a política do atual (des)governo que vem mais do que nunca desrespeitando as políticas ambientais e o cuidado com o meio ambiente.  Penso que não estamos mensurando o impacto que estamos causando na vida de todo o planeta (incluindo a vida do próprio), e isso me preocupa muitíssimo. Por isso penso que, mais do que nunca, precisamos ouvir os indígenas, que sabem muito bem como cuidar da terra. E cuidar da terra é cuidar de todos nós.

 

– Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar referente a esse assunto?

Acho é interessante comentar que o fato da minha companheira, Geórgia Macedo, ser antropóloga e trabalhar junto aos Mbya-Guarani e Kaingang que vivem próximos de Porto Alegre. Isso certamente me aproximou desses povos, os quais me ensinam muito sobre a maneira como eles se relacionam com a natureza em seu modo de vida. Soma-se a isso o meu sincero interesse e gosto em me relacionar com as plantas, pensando-as como seres vivos semelhantes.

Uma curiosidade, mas que não deixa de ter sentido pra mim, é o fato de eu ter no meu mapa astral muitos elementos de terra e  além disso me vejo muito conectado às minhas raízes.

A música “Amora”, por exemplo, compus para Geórgia que também é Bailarina. Nessa canção me vejo como uma árvore que não sabe dançar por ter as pernas aterradas, e que dança apenas com a copa da folhagem. Muitas vezes me vejo dançando assim, com as pernas firmes no chão e a cabeça balançando (risos); quase que como uma árvore. 

 


 

Entrevista realizada por Matheus Luzi

 

 

 

 

Fundador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Apaixonado pelo Brasil e por seus grandes artistas.

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