2 de outubro de 2026

[RESENHA] As piruetas metafóricas de “Corais Laranjas”, canção escrita por Marcelo Callado e Gustavo Benjão

 

Maio de 2014. Muita coisa acontecendo e a música brasileira fervendo com o novo cenário. Em meio a tudo isso, Marcelo Callado e Gustavo Benjão escreviam “Corais Laranjas”, uma canção moderna. Repleta de metáforas, e versos atípicos. A melodia? Mais uma delícia a ser apreciada pelo mundo, uma pérola que não escolhe tempo para ser ouvida.

O nome da música, um tanto curioso, explode em perguntas. Para Marcelo, Gustavo poderia explicar muito melhor do que ele. Em uma conversa entre eu (Matheus Luzi) e Benjão, o compositor abriu as portas e deu a palavra da melhor forma possível. “Não sei se existe uma metáfora ou é apenas a simbologia do título”.

Ele continua. “Eu li um tempo antes de fazermos a letra uma matéria falando de uma espécie de coral laranja que estava invadindo o ecossistema marinho da costa brasileira e destruindo outras espécies de corais nativos e como isso teria um impacto profundo na biodiversidade marinha no longo prazo. Fiquei bem impressionado em como já estamos vivendo mudanças profundas e como a vida é de certa forma efêmera e passageira.”

 

VAMOS AO QUE MAIS INTERESSA

A letra começou a ser escrita quando Marcelo estava em turnê com Caetano Veloso. Detalhe que reflete a distância, importante para a construção poética de qualquer um. O que não foi diferente em “Corais Laranjas”. O verso “Escreva uma carta para mim”, é uma prova disso. Tanto para Marcelo quanto Gustavo, essa estrofe inicial mostra o valor da verdade e do trabalho, na intenção de levar conforto para os momentos latentes.

Depois dessa primeira estrofe, os poetas vão longe. Muito longe. Estou falando dos anos 1990, quando as manhãs das criançadas era preenchida com a alegria (ou não) do palhaço Bozo, nas telas do SBT. Como a canção foi lançada agora, é muito comum que haja, por parte do público, a ligação com o presidente Jair Bolsonaro, já que nas redes sociais o político, muitas vezes, tem seu nome abreviado para Bozo. Mas é apenas coincidência, mesmo. A ideia era de usar o programa infantil como metáfora para “tempos” que não voltam mais.

 

 

A seguir, a letra dança outro ritmo, mudando totalmente de assunto. “2014 sofri um acidente. Tive um teto preto descendo a escada de um bar em SP, e quebrei alguns dentes. Isso foi muito sinistro, mas não foi nada que a infinitude de amor por trás do olhar da mulher amada não resolvesse… ou não!”, recorda Marcelo.

Outra dança. A próxima estrofe reflete a Copa do Mundo no Brasil, no mesmo ano da composição da letra, ao comparar o “Maracanazzo” com a Guerra Nuclear. “Estávamos às vésperas da Copa do Mundo no Brasil e toda a empáfia da Fifa e da CBF, a corrupção pra fazer os estádios e obras de infraestrutura e toda sujeira que envolveu a realização de uma Copa e poderia dar em um vexame”, comentou Benjão.

Letra escrita, e o resultado do tão esperado evento uma desgraça para quem aguardava com tesão o Hexa. “No fim das contas, o 7×1 foi simbólico e como dizem por aí: a bola pune! Sobre a guerra nuclear, é apenas uma expressão pra simbolizar um momento apocalíptico, ou da barbárie humana”, comentou benjão.

Quem liga a Bolsonaro ao Bozo citado por eles, já imagina uma crítica à atual política nacional. Mas não. Novamente, eles falam do Bozo mesmo. E neste verso, as crianças dos anos 1990 se identificam com “E o Bozo pode nunca voltar”, e o triste, é que realmente ele nunca vai voltar. Quem sabe alguém semelhante que também faça as crianças rirem? É uma pena que as coisas mudaram, a inocência delas está indo pro esgoto. Fedido demais.

Benjão explica o porquê da palavra “Sol” estar em letra maiúscula no verso “O Sol vai nascer todo dia aqui”. “O sol está em letra maiúscula pra ter a importância de sujeito da ação, como agente do recomeço e como símbolo da certeza que nada como um dia após o outro pra superarmos os obstáculos internos e externos que criamos e/ou a vida nos apresenta.”

Próximo parágrafo, e mais um giro temático. Marcelo que começou a escrever a letra, e nesse momento, as dificuldades de seu casamento eram fortes e marcantes. Nisso, os versos “Escreva uma carta para mim / Dizendo que a verdade é o que pode nos salvar”, veio como neve para aliviar o fogo que se acendia, com a proposta de que realmente, a verdade pode salvar Marcelo, o mundo, e tudo.

“Ao mesmo tempo, estaria fora de casa por um bom tempo excursionando a trabalho, daí veio a ideia de que seria muito bacana que a mulher amada me escrevesse uma carta contando assuntos que permeassem o andamento do universo.  ‘A casa a caminhar sem minha presença’ seria um deles”, explica Marcelo.

Um passo pra lá, outro pra cá. E os poetas caem para o cancelamento do Jornal O Globo, “Eu cancelei a assinatura do Globo por achar extremamente tendenciosa e manipuladora a cobertura das manifestações de 2013. Resolvi fazer a minha parte e não dar dinheiro pra esse grande conglomerado da mídia que pauta seu jornalismo pela sua agenda política e econômica, se tornando uma fonte de informação ou falha, ou tendenciosa. Prefiro buscar informações e notícias em meios mais isentos, que não sejam subalternos do capital e cumpram a função da imprensa de forma íntegra e isenta.”, disse Benjão.

e depois decidem que a economia pouco importa, e que o importante é dançar. “Acho que faz parte de todos nós esse sentimento de que podemos batalhar, batalhar, batalhar por algo mais justo, uma melhor distribuição de renda por exemplo, mas chega uma hora que temos que nos divertir e esquecer isso um pouco. Acho que ninguém consegue ser feliz pensando em economia o tempo inteiro de sua existência, não?”, diz Marcelo, almejando o sagrado divertimento e descanso.

“Que o amor é infinito quando vejo teu olhar”, foi um verso que os questionei, por estar com o coração vazio. E a resposta de Benjão, não poderia ser melhor: “Amantes e apaixonados entenderão!”.

A próxima estrofe é de alguma maneira existência, mas fruto de observação e constatação do momento que viviam os brasileiros. A ameaça dos corais laranjas à biodiversidade da costa brasileira traduzem um trecho da canção que está entre as metáforas. Ainda assim, o verso Especuladores irão partir / Muita coisa ainda me faz pensar” deixam às claras além desses pensamentos, pode-se deixar livre para pensar, refletir.

Para terminar a entrevista que fiz, deixei os artistas livres para dizerem o que acham, em sua visão, da última estrofe. “No inverno no hemisfério sul,  o sol de fato fica um pouco mais distante da terra, e isso é tão simbólico  imagético, ou até surreal quanto imaginarmos uma revoada de maritacas em Wall Street. E o nosso olhar sempre a se cruzar quer apenas dizer que apesar de tudo isso que acontece no mundo, apesar do Bozo (o presidente palhaço), apesar das mudanças climáticas em ritmo acelerado e violento, apesar da economia, apesar da grande mídia tendenciosa, apesar de contarem as mesmas piadas ano após ano, é preciso que tenhamos a capacidade de nos manter conectados com as pessoas que amamos. É isso que nos faz humanos e é isso que pode nos salvar!”

 

 

 

 

 

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