24 de maio de 2026

As tradições culturais do Pará e de Minas Gerais se encontram na banda Tutu com Tacacá

Bruna Brandão / Divulgação

Apesar do disco de estreia ter sido lançado em novembro de 2021, a banda Tutu com Tacacá existe desde 2016. Criada em Belo Horizonte, o projeto une a cultura e sonoridade do estado do Pará e de Minas Gerais. Entretanto, essa mescla é apenas uma explicação didática, generalizada.

O experimentalismo é, vale pontuar, o marco do grupo. O carimbó, o congado e a malemolência mineira são guias para que essa experiência, que também mergulha na referência carnavalesca, essa, inclusive, a que originou o encontro entre os integrantes fundadores.

A história principia do encontro entre musicistas do Grupo Folclórico Aruanda, dedicado à pesquisa das culturas populares tradicionais brasileiras. Insatisfeitos, formaram outro conjunto: o Bloco da Farofa, que ingressou o carimbó ao carnaval de rua de BH.

O primeiro desfile despertou uma nova possiblidade: o Tutu com Tacacá. Ali nascia a ideia central. A parir desse momento, esses artistas conheceram mestres e movimentos de rodas de Carimbó, no Pará. Voltaram para a sua cidade inspirados. O projeto foi posto em campo, enfim.

O álbum homônimo, que até o fechamento desta reportagem é o único do grupo, está disponível nos aplicativos digitais de música. Essas poucas palavras descritas aqui, nitidamente, são apenas introdutórias. A melhor forma de conhece-los é na prática, com o botão “play”.

No entanto, conversamos com Ana Luísa Cosse (Vocalista) Marina Araújo (Percussionista), e as respostas certamente podem te auxiliar nessa imersão.

Matheus Luzi – Vocês consideram, até que ponto, a importância da banda para o cenário nacional? Faço esta pergunta em vista de que vocês resgatam muitos ritmos populares, assim como costumes, culturas…

Ana Luísa Cosse (Vocalista) – Na verdade, acreditamos que o que a banda Tutu com Tacacá faz não é um resgate. Em nosso entendimento, só se resgata algo que está morrendo ou correndo risco de sumir, sabe? A cultura popular sempre esteve e continuará viva. De maneira geral, vive se reinventando, se refazendo ao longo do tempo, acompanhando os desdobramentos da sociedade. Ela é feita de expressões culturais centenárias que cada vez mais ganham os palcos, sem perderem suas raízes. Daí a relevância de trabalhos como o da nossa banda: nós nos inspiramos no legado das mestras e dos mestres da cultura popular para fazermos o nosso próprio som, para compormos o nosso próprio repertório, buscando homenageá-los por meio da nossa música, sem deixar de apresentar uma musicalidade própria da banda.

Matheus Luzi – A música de vocês é um caldeirão de referências e inspirações. No entanto, seria possível dizer que vocês trazem algo “inédito”?

Marina Araújo (Percussionista) – Acho que sim. O ineditismo da banda está na proposta de misturar todas essas referências e inspirações que vêm de dois lugares diferentes do Brasil: Minas Gerais e Pará. Mesmo que a cultura popular brasileira, de maneira geral, tenha raízes comuns, o que a banda faz é colocar suas particularidades para conversar no palco, seja por meio da mistura de ritmos, de suas composições, ou por meio dos instrumentos musicais utilizados nos shows (do Pará, os curimbós, o banjo, a flauta e os maracás e, de Minas, as caixas de folia, os chocalhos e os patangomes). Acho que isso só a nossa banda tem: se alguém ouvir as nossas músicas, vai conseguir identificar o carimbó paraense, as folias, as catiras e o som do Reinado mineiro, tudo em uma só mistura musical.

“NA VERDADE, ACREDITAMOS QUE O QUE A BANDA TUTU COM TACACÁ FAZ NÃO É UM RESGATE. EM NOSSO ENTENDIMENTO, SÓ SE RESGATA ALGO QUE ESTÁ MORRENDO OU CORRENDO RISCO DE SUMIR, SABE? A CULTURA POPULAR SEMPRE ESTEVE E CONTINUARÁ VIVA.”

Matheus Luzi – Fora a questão “sonoridade”, quais temas vocês pretendem trazer em suas letras?

Marina Araújo (Percussionista) – Algumas de nossas composições apresentam a banda Tutu com Tacacá para o público: falamos sobre a proposta da banda que é misturar as musicalidades de Minas Gerais e do Pará. Outras, vão transitar entre as similaridades e as particularidades da fauna e da flora desses dois estados brasileiros, hora convidando o público para brincar, hora demonstrando o posicionamento político da banda. Falamos, ainda, sobre as saias rodadas do carimbó paraense que têm colorido as ruas do carnaval de Belo Horizonte. Mais de duzentas pessoas que compõem o corpo de baile do Bloco da Fofoca-Carimbó dançam juntas, em um baile a céu aberto de pés arrastados e bem marcados, formando um mar de saias floridas de chita – tecido tradicional do interior de Minas Gerais, característico por suas cores fortes e solares. E falamos também sobre os mestres e as mestras da cultura popular mineira e paraense, numa ode em sua homenagem.

Matheus Luzi – Como o single “Canto de Moçambique/Tutu com Tacacá” (o primeiro do álbum) foi recebido pelo público?

Ana Luísa Cosse (Vocalista) – Tivemos uma recepção muito calorosa! Essa música é o cartão de visitas da nossa banda e se divide em duas partes: enquanto “Canto de Moçambique” é inspirada nas irmandades de Minas, “Tutu com Tacacá” propõe uma releitura do carimbó, criando um diálogo entre os instrumentos tradicionais mineiros e paraenses. Curimbós e maracás do Pará unem-se a caixas de folia e patangomes de Minas Gerais, entrecortados por guitarra, baixo, bateria, flauta e voz. A cultura popular brasileira é muito diversa, mas tem raízes comuns. Então, as expressões culturais sempre dialogam. O ponto de partida para a mistura das musicalidades de Minas e do Pará foi o tambor: a caixa das irmandades e o curimbó.

Matheus Luzi – De uma maneira geral, seria possível dizer que há um “conceito” por trás do grupo?

Marina Araújo (Percussionista) – Acho que de uma maneira geral, o conceito da banda é essa mistura gostosa entre Minas e Pará, é o que chamo de carimbó paraense com jeitinho mineiro!

A CULTURA POPULAR BRASILEIRA É MUITO DIVERSA, MAS TEM RAÍZES COMUNS. ENTÃO, AS EXPRESSÕES CULTURAIS SEMPRE DIALOGAM. O PONTO DE PARTIDA PARA A MISTURA DAS MUSICALIDADES DE MINAS E DO PARÁ FOI O TAMBOR: A CAIXA DAS IRMANDADES E O CURIMBÓ.

Matheus Luzi – Há alguma história ou curiosidade sobre vocês que queiram destacar?

Marina Araújo (Percussionista) – Nossa banda nasceu com o nome de “Tucupi do Tacacá”, em 2006, quando interpretávamos grandes nomes da cultura paraense. Começamos nossa trajetória interpretando músicas de Mestre Verequete, Mestre Lucindo, Dona Onete, Lia Sophia e Pinduca, principalmente. À medida que a banda foi amadurecendo, fomos criando nossas próprias composições e espontaneamente a musicalidade mineira começou a aparecer com mais força nos nossos ensaios e shows e, aos poucos, fomos entendendo que essa mistura tinha se tornado a essência do nosso som. E foi assim, em uma conversa durante um ensaio, que tivemos a ideia de trazer essa mistura também para o nome da banda, sendo o tutu de feijão um prato tradicional daqui de Minas, e o tacacá, uma delícia da culinária paraense. Desde então, somos “Tutu com Tacacá”.

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