9 de julho de 2026

As tradições culturais do Pará e de Minas Gerais se encontram na banda Tutu com Tacacá

Bruna Brandão / Divulgação

Apesar do disco de estreia ter sido lançado em novembro de 2021, a banda Tutu com Tacacá existe desde 2016. Criada em Belo Horizonte, o projeto une a cultura e sonoridade do estado do Pará e de Minas Gerais. Entretanto, essa mescla é apenas uma explicação didática, generalizada.

O experimentalismo é, vale pontuar, o marco do grupo. O carimbó, o congado e a malemolência mineira são guias para que essa experiência, que também mergulha na referência carnavalesca, essa, inclusive, a que originou o encontro entre os integrantes fundadores.

A história principia do encontro entre musicistas do Grupo Folclórico Aruanda, dedicado à pesquisa das culturas populares tradicionais brasileiras. Insatisfeitos, formaram outro conjunto: o Bloco da Farofa, que ingressou o carimbó ao carnaval de rua de BH.

O primeiro desfile despertou uma nova possiblidade: o Tutu com Tacacá. Ali nascia a ideia central. A parir desse momento, esses artistas conheceram mestres e movimentos de rodas de Carimbó, no Pará. Voltaram para a sua cidade inspirados. O projeto foi posto em campo, enfim.

O álbum homônimo, que até o fechamento desta reportagem é o único do grupo, está disponível nos aplicativos digitais de música. Essas poucas palavras descritas aqui, nitidamente, são apenas introdutórias. A melhor forma de conhece-los é na prática, com o botão “play”.

No entanto, conversamos com Ana Luísa Cosse (Vocalista) Marina Araújo (Percussionista), e as respostas certamente podem te auxiliar nessa imersão.

Matheus Luzi – Vocês consideram, até que ponto, a importância da banda para o cenário nacional? Faço esta pergunta em vista de que vocês resgatam muitos ritmos populares, assim como costumes, culturas…

Ana Luísa Cosse (Vocalista) – Na verdade, acreditamos que o que a banda Tutu com Tacacá faz não é um resgate. Em nosso entendimento, só se resgata algo que está morrendo ou correndo risco de sumir, sabe? A cultura popular sempre esteve e continuará viva. De maneira geral, vive se reinventando, se refazendo ao longo do tempo, acompanhando os desdobramentos da sociedade. Ela é feita de expressões culturais centenárias que cada vez mais ganham os palcos, sem perderem suas raízes. Daí a relevância de trabalhos como o da nossa banda: nós nos inspiramos no legado das mestras e dos mestres da cultura popular para fazermos o nosso próprio som, para compormos o nosso próprio repertório, buscando homenageá-los por meio da nossa música, sem deixar de apresentar uma musicalidade própria da banda.

Matheus Luzi – A música de vocês é um caldeirão de referências e inspirações. No entanto, seria possível dizer que vocês trazem algo “inédito”?

Marina Araújo (Percussionista) – Acho que sim. O ineditismo da banda está na proposta de misturar todas essas referências e inspirações que vêm de dois lugares diferentes do Brasil: Minas Gerais e Pará. Mesmo que a cultura popular brasileira, de maneira geral, tenha raízes comuns, o que a banda faz é colocar suas particularidades para conversar no palco, seja por meio da mistura de ritmos, de suas composições, ou por meio dos instrumentos musicais utilizados nos shows (do Pará, os curimbós, o banjo, a flauta e os maracás e, de Minas, as caixas de folia, os chocalhos e os patangomes). Acho que isso só a nossa banda tem: se alguém ouvir as nossas músicas, vai conseguir identificar o carimbó paraense, as folias, as catiras e o som do Reinado mineiro, tudo em uma só mistura musical.

“NA VERDADE, ACREDITAMOS QUE O QUE A BANDA TUTU COM TACACÁ FAZ NÃO É UM RESGATE. EM NOSSO ENTENDIMENTO, SÓ SE RESGATA ALGO QUE ESTÁ MORRENDO OU CORRENDO RISCO DE SUMIR, SABE? A CULTURA POPULAR SEMPRE ESTEVE E CONTINUARÁ VIVA.”

Matheus Luzi – Fora a questão “sonoridade”, quais temas vocês pretendem trazer em suas letras?

Marina Araújo (Percussionista) – Algumas de nossas composições apresentam a banda Tutu com Tacacá para o público: falamos sobre a proposta da banda que é misturar as musicalidades de Minas Gerais e do Pará. Outras, vão transitar entre as similaridades e as particularidades da fauna e da flora desses dois estados brasileiros, hora convidando o público para brincar, hora demonstrando o posicionamento político da banda. Falamos, ainda, sobre as saias rodadas do carimbó paraense que têm colorido as ruas do carnaval de Belo Horizonte. Mais de duzentas pessoas que compõem o corpo de baile do Bloco da Fofoca-Carimbó dançam juntas, em um baile a céu aberto de pés arrastados e bem marcados, formando um mar de saias floridas de chita – tecido tradicional do interior de Minas Gerais, característico por suas cores fortes e solares. E falamos também sobre os mestres e as mestras da cultura popular mineira e paraense, numa ode em sua homenagem.

Matheus Luzi – Como o single “Canto de Moçambique/Tutu com Tacacá” (o primeiro do álbum) foi recebido pelo público?

Ana Luísa Cosse (Vocalista) – Tivemos uma recepção muito calorosa! Essa música é o cartão de visitas da nossa banda e se divide em duas partes: enquanto “Canto de Moçambique” é inspirada nas irmandades de Minas, “Tutu com Tacacá” propõe uma releitura do carimbó, criando um diálogo entre os instrumentos tradicionais mineiros e paraenses. Curimbós e maracás do Pará unem-se a caixas de folia e patangomes de Minas Gerais, entrecortados por guitarra, baixo, bateria, flauta e voz. A cultura popular brasileira é muito diversa, mas tem raízes comuns. Então, as expressões culturais sempre dialogam. O ponto de partida para a mistura das musicalidades de Minas e do Pará foi o tambor: a caixa das irmandades e o curimbó.

Matheus Luzi – De uma maneira geral, seria possível dizer que há um “conceito” por trás do grupo?

Marina Araújo (Percussionista) – Acho que de uma maneira geral, o conceito da banda é essa mistura gostosa entre Minas e Pará, é o que chamo de carimbó paraense com jeitinho mineiro!

A CULTURA POPULAR BRASILEIRA É MUITO DIVERSA, MAS TEM RAÍZES COMUNS. ENTÃO, AS EXPRESSÕES CULTURAIS SEMPRE DIALOGAM. O PONTO DE PARTIDA PARA A MISTURA DAS MUSICALIDADES DE MINAS E DO PARÁ FOI O TAMBOR: A CAIXA DAS IRMANDADES E O CURIMBÓ.

Matheus Luzi – Há alguma história ou curiosidade sobre vocês que queiram destacar?

Marina Araújo (Percussionista) – Nossa banda nasceu com o nome de “Tucupi do Tacacá”, em 2006, quando interpretávamos grandes nomes da cultura paraense. Começamos nossa trajetória interpretando músicas de Mestre Verequete, Mestre Lucindo, Dona Onete, Lia Sophia e Pinduca, principalmente. À medida que a banda foi amadurecendo, fomos criando nossas próprias composições e espontaneamente a musicalidade mineira começou a aparecer com mais força nos nossos ensaios e shows e, aos poucos, fomos entendendo que essa mistura tinha se tornado a essência do nosso som. E foi assim, em uma conversa durante um ensaio, que tivemos a ideia de trazer essa mistura também para o nome da banda, sendo o tutu de feijão um prato tradicional daqui de Minas, e o tacacá, uma delícia da culinária paraense. Desde então, somos “Tutu com Tacacá”.

Tropicalismo: o movimento que revolucionou a arte brasileira

  A designação de Tropicália para o movimento que mudou os rumos da cultura brasileira em meados e fim dos.

LEIA MAIS

Artistas destacam e comentam álbuns de 2023 e de outros anos

Sob encomenda para a Arte Brasileira, o jornalista Daniel Pandeló Corrêa coletou e organizou comentários de onze artistas da nova.

LEIA MAIS

“Quer casar comigo?” (Crônica integrante da coletânea “Poder S/A”, de Beto Ribeiro)

Todo dia era a mesma coisa. Marieta sempre esperava o engenheiro chegar. “Ele é formado!”, era o que ela sempre.

LEIA MAIS

A serenata que mudou tudo: amor, surpresas e bingo

Hoje vamos contar a história de Vânia, uma professora de música que queria homenagear seu namorado e contar uma grande.

LEIA MAIS

ENTREVISTA – Conversa Ribeira e seu Brasil profundo

Três artistas de cidades interioranas, Andrea dos Guimarães (voz), Daniel Muller (piano e acordeão) e João Paulo Amaral (viola caipira.

LEIA MAIS

Nilson dos Santos: uma dimensão lúdica da vida

1. Há artistas cuja obra não nasce apenas da técnica, nem do aprendizado formal das escolas de belas-artes, nem muitos.

LEIA MAIS

Curso Completo de História da Arte

Se você está pesquisando por algum curso sobre história da arte, chegou no lugar certo! Aqui nós te apresentaremos o.

LEIA MAIS

FAROL DE HISTÓRIAS – Projeto audiovisual que aproxima crianças da leitura

Para Michelle Peixoto e Vinícius Mazzon, a literatura tem seu jeito mágico, prático e divertido de chegar às crianças brasileiras..

LEIA MAIS

A vida em vinil: uma reflexão filosófica sobre a jornada da existência

A vida, assim como um disco de vinil, é uma espiral contínua de experiências e aprendizados, em que cada fase.

LEIA MAIS

Dione Caldas: transversais no tempo e no espaço

Olhos acesos sobre o mundoo que não dorme desconhecea sua própria efígie. Henriqueta Lisboa 1.Dione Caldas nasceu em Natal (15.05.1964)..

LEIA MAIS