5 de junho de 2026

Analice Uchôa: o vinco da arte nas dobras da realidade

Se acaso me tivessem dado o jugo e o poder de apontar a obra de um pintor naïf como um dos mais importantes das terras nordestinas, lembraria sem hesitar o nome da paraibana Analice Uchôa (Campina Grande, 1948). Não desmerecendo quem quer que seja, haja vista que o Nordeste detém uma seara fértil e sempre possibilitadora de ofercer segas com fartas colheitas.

 

Como todo naïf, ela engendra uma linguagem extremamente particular, eivada de uma profusão de artifícios que são extraídos de uma necessidade íntima. Quem sabe, isso pode explicar o autodidatismo dessa tradição pictórica, que sempre seguiu e dialogou com o que ficou conhecido como arte acadêmica ou os estilos históricos, com suas particularidades, ansiados por circunstâncias inerentes a cada época, ou seja, pelo Ar do Tempo, espécie de aura constelada por imagens e símbolos, consoante o modus vivendi inerentes às formas de viver, sentir e representar.

 

Com efeito, a artista é detentora de uma dicção pictórica muito singular, mesmo se a contemplarmos no conjunto dos naïfs, outorgando à tradição de representar ingênua ou primitiva um condão que faz jorrar uma espécie de elixir, ordenando-nos a ser cientes das tempestades emocionais impostas pela Sra. Vida. Sem embargo, nos presenteia, por seu turno, com a possibilidade de contemplar essa pintura chapada, sem nenhuma pretensão de manuseio da perspectiva, nunca buscando traços faciais ou de delinear figuras. Quero dizer que há uma espécie de apagamento ou ausência dos rostos, apenas corpos que remetem a índices evocadores de que essa ou tal figura é um ser humano. Por isso, bom remarcar um dos componentes primaciais dessa pintura, a saber: a cor preta funciona como elemento neutro, sendo recorrente em quase todas as telas, para fazer, à guisa de corpo. Então, o resto da figura é delineado por meio do uso de cores vivas e puras, numa festa para os sentidos.

 

Tenho para mim que havera de buscar as razões pelas quais essas obsessões de negar o rosto humano aparece de maneira ostensiva em uma pintura autodidata e sem remeter às tradições iniciadas pelo Impressionismo, Expressionismo, Fauvismo, Cubismo, e que vai atingir o seu fastígio com o Abstracionismo. Todos esses estilos históricos sofreram o impacto da invenção da fotografia e do cinema, artes capazes de retratar o humano e sua dinâmica em sociedade, bem como a paisagem do final do século XIX e XX, na qual os indivíduos perdem o contorno que os fazia distintos uns dos outros e mergulham no anonimato das turbas das grandes cidades ou daquelas com tônus mais cosmopolitas.

Mas vejam, nem só de macroestruturas os homens vivem, – e a arte não se cansa de refletir –, mas de toda uma sorte de matizes subjetivos que contemplam as maneiras de travar relacionamentos interpessoais, familiares, amorosos, ou melhor, tudo o que diz respeito ao compasso do dia a dia, no qual vigora uma espécie de prova dos nove, pois há de se submeter e dar respostas muitas, e um tanto de atribulações, nos quais, muitas vezes, não  temos a devida compreensão, e muito menos solução ou refutação. É como se não tivéssemos recebido a esperada carta emitida pelas forças do destino. Sendo assim, nos quedamos em hiatos ou no vácuo de sempre. Quer queiramos ou não, parece ser assim que a sintaxe do existir impõe seu número.

 

Voltando à arte de Analice Uchôa. É perceptível em suas telas uma necessidade de preencher todo o espaço do quadro. Vamos chamar aqui de horror vacui, evocadora de subjetividades com temperamento voluntarioso ou obstinado, teimando em não organizar acordos subservientes ou uma adesão incondicional a uma presença no mundo. Prefiro reter essa metáfora, na medida em que o expresso nas telas reflete um hieratismo estoico  ou uma permanente festa dos sentidos.

A pintora nos presenteia com o sumo que escorre de uma obra clamando por possíveis encantos, que nossas experiências subjetivas ou a chamada realidade pode nos ofertar. Líquido advindo de uma alma ancha de estar sob a luz do sol, escandindo os dias por meio de manobras interiores ou artifícios necessários para se obter nacos de tranquilidade. É preciso lembrar que nem todo afluente lança suas plácidas águas para o largo estuário no qual uns e outros, o que conhecemos por maioria, escorre para o mar. É como se o “realitas” (tudo o que existe), antípoda da “imaginação” ou “faz de conta”, pudesse conviver sem grandes interferências, paralelos, sendo que o segundo é que a arte propõe.

Quero dizer com isso do convite a uma organização interior por meio da arte, consabido é da capacidade desta de circunscrever uma outra realidade, paralela ao perímetro do que  fomos habituados a chamar de tempo e espaço, no qual os seis sentidos conhecidos apalpam nosso íntimo, para podermos saber o que sensações nos causa um estar no mundo.

Rompendo as tramelas nossas, aprisionadoras ao sansara, a que estamos ligados por uma  espécie de costume ou vício, habituados desde que o mundo é mundo, desde que somos amarrados às rédeas da linguagem, impostos desde a primeira luz que nos ofusca no nascimento. Esta, menos dizer, com sua tirania (Roland Barthes), nos impõe o dizer, desencadeando determinados comportamentos. Só através de muito esforço, por meio da vontade, é que conseguimos romper essas correntes.

Só mais uma coisa, para encerrar essa digressão que a requintada pintura de Analice Uchôa evocou-me. Eis a anterioridade nossa, o que nos faz sujeito, mas também nos assujeita, irmanados por uma gramática que, logo que tomamos consciência, podemos aquiescer e prosseguir no coro dos que salmodiam as sílabas daquilo que indigitaram como normal.

 

Mesmo assim, existem as frestas e locas onde podemos forçar a entrada para alargar a vera  dimensão do mesmo, lugares nos quais havemos de encontrar o que nos identifica, o que  nos representa, o que nos imprime prêmio e valia, o que espelha e nos retrata. Por fim, vale sempre repetir: os que detêm a aptidão da arte e a fazem ofício ou aqueles contempladores e apreciadores, resguardam uma outra dimensão, deixando a realidade um tanto distante, e nos abrindo as portas para as salas mais confortáveis do nosso ser.

 

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