16 de agosto de 2026

O médico que receitava mais que remédios (Por Fredi Jon)

Por Fredi Jon, do Grupo Serenata&Cia) – Existem encontros que a vida prepara sem avisar. Alguns chegam discretamente, mas deixam marcas que o tempo não consegue apagar.
Foi assim numa noite em que eu e meu flautista fomos homenagear Dona Rosalva e Seu Armando por suas bodas de casamento. A casa estava cheia de filhos, netos, amigos e histórias. Era uma daquelas celebrações que nos lembram que o amor verdadeiro não é feito de grandes gestos, mas de milhares de pequenos gestos repetidos ao longo dos anos.
A serenata seguia seu curso quando meu olhar encontrou alguém que eu não esperava ver.
Lá estava o Dr. Pedro Guedes.
Naquele instante, voltei muitos anos no tempo. Antes de ser seresteiro, eu era apenas um músico da noite, carregando violão de um lado para outro e tentando sobreviver. Havia dias em que o dinheiro mal aparecia. Entre os músicos, brincávamos dizendo que o almoço era um “X-Músico”: pão com mortadela e muita esperança.
Foi nessa época que conheci o Dr. Pedro.
Ele cuidou de mim, da minha irmã e da minha família inteira. Se tínhamos dinheiro, acertávamos a consulta. Se não tínhamos, ele atendia do mesmo jeito. Sem julgamentos, sem cobranças, sem fazer ninguém se sentir menor.
Mas sua maior qualidade não era a medicina.
Era a humanidade.
Seu olhar experiente parecia enxergar além dos sintomas. Antes de perguntar onde doía, queria saber como a vida estava. Muitas vezes saíamos do consultório levando menos remédios e mais coragem.
Ao vê-lo ali, entre os convidados, senti que não poderia ignorar aquele encontro.
Pedi licença a Dona Rosalva e Seu Armando e expliquei que, às vezes, uma homenagem abre espaço para outra.
Então cantei duas músicas que não estavam no repertório da festa.
Antes da primeira, compartilhei um pensamento:
“Há pessoas que passam pela nossa vida deixando lembranças. Outras deixam ensinamentos. Mas existem aquelas raras que deixam abrigo. E quem encontra um abrigo humano jamais esquece o caminho de volta.”
Quando terminei, vi seus olhos se encherem de lágrimas.
As canções seguiram carregadas de gratidão. Não era uma homenagem apenas a um médico. Era uma homenagem a alguém que escolheu cuidar das pessoas quando elas mais precisavam.
Ao final, a sala inteira aplaudiu de pé.
Meses depois, recebi a notícia de sua partida.
E foi então que compreendi o tamanho do presente que aquela noite havia me dado.
A vida nem sempre nos permite agradecer a tempo. Muitas vezes guardamos o reconhecimento para depois, como se as pessoas queridas fossem permanecer para sempre ao nosso lado.
Com o Dr. Pedro foi diferente.
Hoje a saudade existe, mas ela caminha ao lado de uma profunda paz. A certeza de que pude olhar nos olhos daquele homem e dizer, através da música, o quanto sua bondade ajudou a construir a minha história.
Algumas pessoas deixam heranças em bens. Outras deixam nomes em placas e edifícios.
Dr. Pedro deixou algo maior.
Deixou lembranças de dignidade, generosidade e afeto.
E toda vez que pego meu violão, gosto de pensar que certas pessoas não morrem por completo. Elas continuam vivendo no bem que fizeram e nos corações que ajudaram a curar.
O Dr. Pedro continua vivo assim. Como uma bela canção que o tempo não consegue silenciar.


Conheça nossas redes sociais – @serenataecia 11 99821-5788 / serenataecia.com.br


Newsletter

Clarice Lispector – Como seria nos dias atuais?

(Crônica de Brendow H. Godoi) Quem seria Clarice Lispector se nascida na década de noventa? Talvez, a pergunta mais adequada.

LEIA MAIS

As “Dancinhas de Tik Tok” são inimigas da dança profissional?

Os avanços tecnológicos e suas devidas popularizações presenciadas desde o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 se.

LEIA MAIS

Explore o universo literário

Você tem que se aventurar no campo literário e fazer novas descobertas. Você como leitor não pode ficar só focado.

LEIA MAIS

A obra de João Turin que sobreviveu a 2ª Guerra Mundial

No Memorial Paranista, sediado em Curitiba (PR) com intuito de preservar e expor a obra do paranaense João Turin, há.

LEIA MAIS

Pincel, o novo companheiro do cantor e compositor Bryan Behr

Reprodução/instagram do artista. Do seu atelier, Bryan Behr se mostra um artista inquieto, em constante atividade. O catarinense de 24.

LEIA MAIS

Rodrigo Tardelli, um dos destaques das webséries nacionais

Divulgação Por mais que nossa arte seja, muitas vezes marginalizada e esquecida por seus próprios conterrâneos, há artistas que preferem.

LEIA MAIS

Kelline Lima: linhas sinuosas e orgânicas como arquétipos do feminino

O  coração alegre aformoseia o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate. Provérbios, 15:13 1. Kelline Lima.

LEIA MAIS

Zé Alexanddre, o antes e o depois do The Voice+

Em tempos de queda de audiências na mídia tradicional, o The Voice permanece intacto. Os participantes saem do amadorismo, conquistam.

LEIA MAIS

Damião Costa: a pintura como morada do instante

O artista Damião Costa (São Vicente, RN, 1987), desde a infância, quando os olhos se detinham nos leilões televisivos de.

LEIA MAIS

Pedro Blanc estreia na Netflix e revela bastidores à colunista Fernanda Lucena

“Isso pra mim representa uma confirmação de tudo que eu planejei pra minha vida e ver que tudo com o.

LEIA MAIS