19 de agosto de 2026

Música nova de Caio Barros é construída por meio de reflexões socioculturais, filosóficas e psicanalíticas

(Capa do lançamento)

Um acontecimento aparentemente que passaria despercebido fez florescer a inspiração de Caio Barros. Foi assim, numa noite comum, após um grito vindo da rua, que o músico partiu para escrever “Preste Atenção”, canção que traz várias influências do disco music, música eletrônica, rock e música popular brasileira, tudo isso em uma atmosfera dançante.

Depois do susto, Caio passou a refletir questões sociais, culturais, psicanalíticas e filosóficas. Assim, “Preste Atenção” foi construída em uma estrutura conceitual fora da caixinha.

A história da música como um todo é muito interessante e, por esse motivo, conversamos um pouco com Caio, pequena entrevista essa que você confere a seguir.

Matheus Luzi – Como surgiu o single?

Caio Barros – O processo criativo de “Preste Atenção” se iniciou em uma noite de 2018 após eu ser despertado por um grito vindo da rua. Aquilo de fato, ativou meus gatilhos e levantei para checar se algo estava acontecendo, olhei da sacada, chequei o grupo de whatsapp dos moradores do prédio para saber se havia algum comentário. Nenhuma mensagem. Aparentemente, nada. Ainda assim, o sentimento de medo, ansiedade e impotência me tomou.

Fiquei aquela noite insone, com uma sensação de vazio e com a pergunta que introduz a música ruminando: “Será que alguém aqui ouviu? O grito da rua, o vazio”.

Matheus Luzi – O que a letra traz, qual sua mensagem?

Caio Barros – Após esse episódio passei então a um processo de associação de ideias utilizando recortes de pensamentos filosóficos, psicanalíticos e sócio-culturais (Freud, Marx, Walter Benjamin) como fonte de auto-análise e como insumo para minha composição.

 Quero dizer: o grito naquela noite me acordou. Isso é um gatilho pessoal, mas o que não me acorda? O que é o sono dos justos?

O quanto eu me deixo enganar por mim mesmo? Isto é, quando deliberadamente fecho os olhos para alguma situação por ser mais cômodo ou pela simples apatia que a vida diária ensinou.

Desta maneira, qual o cinismo que me – ou nos, se estendermos este pensamento para a sociedade – deixou assim? Qual foi o momento de cisão com os pensamentos ingênuos? Quando tudo desandou e desencantou? 

Em seguida, um pensamento de auto-censura: “Preste atenção pras coisas que importam”. Mas esse Preste Atenção também é paradoxal, afinal determinar apenas um ponto de foco é um processo que pode conduzir à alienação.

Passei a refletir também sobre as redes sociais que servem como distração – um alívio talvez – para nos afastar da dura realidade, do enxame de pensamento que nos consome e  até mesmo como instrumento de prazer sexual, uma vez que “likes” liberam dopamina (segundo um estudo de 2016 da Universidade do Estado da Califórnia). 

Além disso, existe a questão política-fetichista envolvida nas mídias sociais ou, em outras palavras, como elas influenciaram as últimas eleições e como as pessoas passam horas a fio discutindo fervorosa e anonimamente. Este comportamento me parece, de certa forma, uma maneira também de atingir o gozo – sendo categoricamente freudiano – nesse aspecto. 

 Outro ponto da letra, é a produção de uma segunda realidade onde não existe a necessidade de fingir pra gostar de alguém. Primeiro porque o perfil das redes sociais é um avatar, uma invenção. Segundo, pois quando existe uma discordância online é possível simplesmente bloquear ou deletar o “oponente”. Comportamento que me parece extremamente violento quando transportado para o dia-a-dia.

Em suma, diria que “Preste Atenção” é um convite à reflexão sobre o amadurecimento pessoal, sobre as dificuldades relacionadas à vida contemporânea. Muito embora ela parta de uma experiência isolada e, extremamente pessoal, seu intuito é buscar conexões para ressignificar o sentido de prestar atenção. 

Matheus Luzi – O que você tem a dizer sobre a sonoridade da música?

Caio Barros – A sonoridade da música é fruto da combinação de diferentes gêneros como disco music, música eletrônica, rock e música popular brasileira. De fato, para mim é até difícil classificar em um determinado gênero, pois acho que ela reside na intersecção desses estilos.

Procuro criar uma atmosfera envolvente e tensa, mas ao mesmo tempo fazer uma música que seja minimamente dançante. Desta maneira, lanço mão do uso de sintetizadores, somados a guitarras e baixo funkeados. Além disso, como guitarrista de ofício, temos um solo com uma distorção carregada.

Enquanto isso, a voz tem um tom mais etéreo e melódico, conduzindo o ouvinte ao longo da música. Por esta razão, acredito que a sonoridade tenha um caráter experimental e moderno.

Talvez seja interessante citar que meu projeto é inteiramente gravado em home studio. Todos os instrumentos são tocados por mim (com exceção à bateria, que é criada eletronicamente) e sou eu mesmo quem desenvolve os arranjos. Após completar a gravação envio o projeto para um amigo – Marcelo Zanin -, que me auxilia com a pós-produção, mixagem e masterização.

Timothy James: “O Brasil tem sido um grande apoiador das minhas músicas”

Você, amantes do country americano, saiba que há um novo nome na pista: Timothy James. Nascido nos anos 1980, o.

LEIA MAIS

Comentários sobre “Saneamento Básico, O Filme”

Dialogo do filme: Figurante #1 -Olha quem vem lá!! Figurante #2 – Quem? Figurante #1 – É A Silene! Figurante.

LEIA MAIS

Mário Rasec: a celebração das coisas simples

 Por eso, muchacho, no partas ahora soñando el regressoQue el amor es simpleY a las cosas simplesLas devora el tempoCesar.

LEIA MAIS

Além deste sertão: a pintura de Celina Bezerra

É curioso observar a trajetória da professora norte-rio-grandense Celina Bezerra. Advinda das terras quentes da região do Seridó, de antigas.

LEIA MAIS

O cemitério velho da cidade de Patu

  Seguindo na Rua Capitão José Severino até o seu final, antes de adentrar pela Praça Padre Henrique Spitz, observa-se,.

LEIA MAIS

A obra de João Turin que sobreviveu a 2ª Guerra Mundial

No Memorial Paranista, sediado em Curitiba (PR) com intuito de preservar e expor a obra do paranaense João Turin, há.

LEIA MAIS

Pietro desce às regiões pelágicas do ser

Apesar dos sete mares e outros tantos matizes somos um. Henriqueta Lisboa 1. Malgrado as secas periódicas e as terras nem.

LEIA MAIS

Tom Zé já dizia: todo compositor brasileiro é um complexado

O álbum “Todos os Olhos”, lançado em 1973 pelo cantor e compositor Tom Zé, traz a seguinte provocação logo em.

LEIA MAIS

A invisibilidade da mulher com deficiência física (por Clarisse da Costa)

Eu amei o tema da redação da prova do ENEM de 2023: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho.

LEIA MAIS

Maria do Santíssimo e o seu caleidoscópio das coisas modestas

O  tempo farejou a fábulacontaminou-a. Projetou-atalhada à sua própria imagem.                 Henriqueta Lisboa 1. Maria Antônia do Santíssimo (São Vicente, 1890-1986).

LEIA MAIS