26 de junho de 2026

Música nova de Caio Barros é construída por meio de reflexões socioculturais, filosóficas e psicanalíticas

(Capa do lançamento)

Um acontecimento aparentemente que passaria despercebido fez florescer a inspiração de Caio Barros. Foi assim, numa noite comum, após um grito vindo da rua, que o músico partiu para escrever “Preste Atenção”, canção que traz várias influências do disco music, música eletrônica, rock e música popular brasileira, tudo isso em uma atmosfera dançante.

Depois do susto, Caio passou a refletir questões sociais, culturais, psicanalíticas e filosóficas. Assim, “Preste Atenção” foi construída em uma estrutura conceitual fora da caixinha.

A história da música como um todo é muito interessante e, por esse motivo, conversamos um pouco com Caio, pequena entrevista essa que você confere a seguir.

Matheus Luzi – Como surgiu o single?

Caio Barros – O processo criativo de “Preste Atenção” se iniciou em uma noite de 2018 após eu ser despertado por um grito vindo da rua. Aquilo de fato, ativou meus gatilhos e levantei para checar se algo estava acontecendo, olhei da sacada, chequei o grupo de whatsapp dos moradores do prédio para saber se havia algum comentário. Nenhuma mensagem. Aparentemente, nada. Ainda assim, o sentimento de medo, ansiedade e impotência me tomou.

Fiquei aquela noite insone, com uma sensação de vazio e com a pergunta que introduz a música ruminando: “Será que alguém aqui ouviu? O grito da rua, o vazio”.

Matheus Luzi – O que a letra traz, qual sua mensagem?

Caio Barros – Após esse episódio passei então a um processo de associação de ideias utilizando recortes de pensamentos filosóficos, psicanalíticos e sócio-culturais (Freud, Marx, Walter Benjamin) como fonte de auto-análise e como insumo para minha composição.

 Quero dizer: o grito naquela noite me acordou. Isso é um gatilho pessoal, mas o que não me acorda? O que é o sono dos justos?

O quanto eu me deixo enganar por mim mesmo? Isto é, quando deliberadamente fecho os olhos para alguma situação por ser mais cômodo ou pela simples apatia que a vida diária ensinou.

Desta maneira, qual o cinismo que me – ou nos, se estendermos este pensamento para a sociedade – deixou assim? Qual foi o momento de cisão com os pensamentos ingênuos? Quando tudo desandou e desencantou? 

Em seguida, um pensamento de auto-censura: “Preste atenção pras coisas que importam”. Mas esse Preste Atenção também é paradoxal, afinal determinar apenas um ponto de foco é um processo que pode conduzir à alienação.

Passei a refletir também sobre as redes sociais que servem como distração – um alívio talvez – para nos afastar da dura realidade, do enxame de pensamento que nos consome e  até mesmo como instrumento de prazer sexual, uma vez que “likes” liberam dopamina (segundo um estudo de 2016 da Universidade do Estado da Califórnia). 

Além disso, existe a questão política-fetichista envolvida nas mídias sociais ou, em outras palavras, como elas influenciaram as últimas eleições e como as pessoas passam horas a fio discutindo fervorosa e anonimamente. Este comportamento me parece, de certa forma, uma maneira também de atingir o gozo – sendo categoricamente freudiano – nesse aspecto. 

 Outro ponto da letra, é a produção de uma segunda realidade onde não existe a necessidade de fingir pra gostar de alguém. Primeiro porque o perfil das redes sociais é um avatar, uma invenção. Segundo, pois quando existe uma discordância online é possível simplesmente bloquear ou deletar o “oponente”. Comportamento que me parece extremamente violento quando transportado para o dia-a-dia.

Em suma, diria que “Preste Atenção” é um convite à reflexão sobre o amadurecimento pessoal, sobre as dificuldades relacionadas à vida contemporânea. Muito embora ela parta de uma experiência isolada e, extremamente pessoal, seu intuito é buscar conexões para ressignificar o sentido de prestar atenção. 

Matheus Luzi – O que você tem a dizer sobre a sonoridade da música?

Caio Barros – A sonoridade da música é fruto da combinação de diferentes gêneros como disco music, música eletrônica, rock e música popular brasileira. De fato, para mim é até difícil classificar em um determinado gênero, pois acho que ela reside na intersecção desses estilos.

Procuro criar uma atmosfera envolvente e tensa, mas ao mesmo tempo fazer uma música que seja minimamente dançante. Desta maneira, lanço mão do uso de sintetizadores, somados a guitarras e baixo funkeados. Além disso, como guitarrista de ofício, temos um solo com uma distorção carregada.

Enquanto isso, a voz tem um tom mais etéreo e melódico, conduzindo o ouvinte ao longo da música. Por esta razão, acredito que a sonoridade tenha um caráter experimental e moderno.

Talvez seja interessante citar que meu projeto é inteiramente gravado em home studio. Todos os instrumentos são tocados por mim (com exceção à bateria, que é criada eletronicamente) e sou eu mesmo quem desenvolve os arranjos. Após completar a gravação envio o projeto para um amigo – Marcelo Zanin -, que me auxilia com a pós-produção, mixagem e masterização.

ENTREVISTA – Literatura de Renan Wangler reforça ancestralidade e luta da população negra

A população negra precisa estar conectada com a literatura, cultura e arte, dessa forma podemos estar conectados com a nossa.

LEIA MAIS

Zé Alexanddre, o antes e o depois do The Voice+

Em tempos de queda de audiências na mídia tradicional, o The Voice permanece intacto. Os participantes saem do amadorismo, conquistam.

LEIA MAIS

LITERATURA DO RAP, por Luiz Castelões

O rap é o mais importante gênero musical-literário do final do séc. XX.Assim como o post de rede social é.

LEIA MAIS

Analice Uchôa: o vinco da arte nas dobras da realidade

Se acaso me tivessem dado o jugo e o poder de apontar a obra de um pintor naïf como um.

LEIA MAIS

Da MPB a Nova MPB; Conheça Bruna Pauxis

Reprodução do instagram da artista. Presente nas plataformas digitais desde 2021, a jovem Bruna Pauxis tem nos fatores regionais influências.

LEIA MAIS

A obra de João Turin que sobreviveu a 2ª Guerra Mundial

No Memorial Paranista, sediado em Curitiba (PR) com intuito de preservar e expor a obra do paranaense João Turin, há.

LEIA MAIS

Geração com cérebro desperdiçado (Clarisse da Costa)

Se buscamos conhecimento, somos viajantes nesse vasto mundo. Mas quando deixamos o saber de lado o que somos? Em pleno.

LEIA MAIS

O Brasil precisa de políticas públicas multiculturais (por Leonardo Bruno da Silva)

Avançamos! Inegavelmente avançamos! Saímos de uma era de destruição da cultura popular por um governo antinacional para um momento em.

LEIA MAIS

Ancelmo: todas as rodagens iam em direção à arte

Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.E nasce o sol, e põe-se o sol,.

LEIA MAIS

JORGE BEN – Jornalista Kamille Viola lança livro sobre o emblemático disco “África Brasil”

Representante de peso da música popular brasileira, Jorge Ben é um artista que, em todos os seus segundos, valorizou sua.

LEIA MAIS