29 de abril de 2026

Inspirado na arte circense, escritor Marcelo Soares lança o livro O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA [ENTREVISTA]

 

Ocorreu no último dia 05, às 19h, na Budega Arte e Café, localizada na Rua Arthur Américo Cantalice, 197, Bancários, João Pessoa, o lançamento do livro O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA, do jornalista Marcelo Soares.  O evento também contará com a apresentação musical da cantora paraibana Yanca Medeiros.

O livro conta a história de Juvenal, um ex-mágico circense que abandonou o ofício depois que sua esposa morreu e sua filha fugiu sem dar notícias. Anos depois, vivendo como gerente de uma concessionária de veículos, ele tem a vida mudada quando Reginaldo, seu antigo patrão, revela ter uma pista sobre o paradeiro da garota.

Segundo Marcelo, o imaginário circense sempre povoou sua mente. “Quando morava no interior a chegada de um circo era uma grande novidade na cidade e para uma criança tudo tinha proporções maiores, era realmente outro mundo. Depois que cresci esse gosto seguiu em filmes, séries e livros que tinham como ambientação esse espaço de arte tão popular. Nada mais adequado para mim do que meu primeiro romance tratar desse tema, que traz não só o lado artístico, mas, também, tem em sua essência questões sobre relacionamentos tanto familiares como de amizade”.

Ele destaca ainda que o livro originou-se de um conto homônimo escrito para seleção de um curso de escrita criativa, contudo, gostou tanto da idéia que resolveu desenvolver mais. “Tem idéias, cenários, histórias que nos pegam e pedem para serem contadas, com esse conto foi assim. Fiz para a seleção desse curso de escrita criativa, que acabou nunca ocorrendo, e depois fiquei com o personagem do mágico aposentado e sozinho na cabeça. Bateu a curiosidade de saber o que tinha acontecido com ele e o que poderia acontecer, quais caminhos seguiria. Então organizei as idéias, rascunhei capítulos e fui escrevendo, durou quase um ano e meio para conseguir completar a jornada de Juvenal e fico feliz de poder mostrá-la a mais pessoas agora”, conclui.

A escritora Letícia Palmeira, autora do prefácio da publicação, destaca que “o romance de estréia de Marcelo Soares é um livro que passeia entre a mágica circense e a realidade de um homem em um mundo convencional de trabalho e contas a pagar. Este livro é um convite ao tipo de narrativa muito utilizada por Hermann Hesse, em O Lobo da Estepe; um homem assombrado por si mesmo e seu mundo mágico e, sobretudo, lunático”.

A publicação é da Editora Penalux (São Paulo), tem 184 páginas, custará R$ 40 e está a venda pelo seu site: www.editorapenalux.com.br.

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com o escritor.

 

 

Como chegou na história do livro? O que te inspirou?

O imaginário do mundo circense sempre esteve na minha mente, assim como a imagem do mágico com seus truques mirabolantes. Um dia pensei nesse personagem que já foi mágico e vivia em um emprego menos emocionante, a partir daí fiquei pensando como seria o cotidiano de alguém que já fez por muito tempo o que gostava e agora só sobrevivia meio sem sentido para viver. O conto sobre o Juvenal saiu para uma seleção de um curso de escrita criativa daqui, depois a curiosidade me fez pensar nos outros elementos como o passado dele, seus amigos, família, traumas e fazer o livro.

A inspiração para a temática veio da observação sobre como a minha geração, principalmente nas redes sociais, vive reclamando de sonhos que morreram, de como a vida adulta acaba com as coisas que imaginávamos. Então pensei, e a geração de meus pais como lidava com essa mesma questão? O livro traz muito das coisas que observei ao longo dos anos para ter uma idéia de algumas respostas.

 

Para você, o que esse livro significa?

Além de uma conquista pessoal de superação da procrastinação e daquele complexo típico de autodepreciação artística, vejo o livro como uma reflexão sobre nossas escolhas e saber lidar com elas mesmo quando achamos que já é tarde demais. Temos a mania de não dizer o que sentimos, de nos esconder de conflitos e ainda mais de confrontar nossos demônios, busquei falar disso usando esse tom lúdico que o universo do circo tem. Apesar de esse espaço de diversão estar mais esquecido pela sociedade de hoje, ele ainda tem muito que nos ensinar.

 

Fale para nós como você escreveu o livro. Como foi seu processo criativo.

Eu me considero até bem organizado para a escrita, monto planejamentos de capítulos, de fatos que devem ocorrer, quando devem, linhas temporais da história, ficha de personagens, mas deixo sempre espaço para mudanças. Esse processo durou por volta de um ano e meio entre o primeiro parágrafo e o ponto final.

Todo escritor deve dizer que os personagens têm vida própria, acabam fazendo o que nem pensávamos, e é realmente verdade. Coisas que planejei no fim saíram e outras apareceram, tudo porque à medida que se vai escrevendo vai ficando mais intimo das personagens, escutando elas, vendo o que realmente elas fariam e o que nunca fariam.

Outra coisa que me preocupei bastante foi sobre o uso de flashbacks. Como o livro também trabalha com memórias, lembranças, tinha que ter o cuidado para o ritmo da história não se perder ou ficarem cansativas as inserções do passado dos personagens na narrativa, espero que tenha ficado do agrado do leitor.

 

Na visão do personagem principal, qual seria a sinopse?

Pensando do ponto de vista do Juvenal, seria algo como “a intromissão de antigos amigos na sua vida que o levam a ter que enfrentar seu passado, seus erros, enquanto busca reencontrar a filha, a qual não tem notícias há anos desde que ela fugiu do circo onde viviam depois que sua esposa morreu”. O protagonista é bem reticente em se movimentar, sair de sua rotina que virou um tipo de escudo, lugar seguro para se viver sem pensar muito no que passou, então, para ele, qualquer alteração nisso é uma intromissão, um incomodo, que, no caso, vai ter que lidar por um bem maior.

 

Tem algo “pessoal” de você no livro? Tem elementos presentes no livro que fazem parte da sua vida/história?

Acredito que sempre tem algo “pessoal” do escritor naquilo que escreve, mesmo que seja bem pequeno. No meu caso tem muito da questão do alcoolismo do protagonista, uma doença que acometeu meu pai, hoje falecido em virtude dela. É um tema que sempre gosto de trabalhar como uma forma de alerta, entretanto, busco não ser panfletário, didático, acho que temas relevantes socialmente têm que ser trabalhados em auxílio da narrativa e não ser maior que ela.

Outros temas desses aparecem no livro, mas estão, digamos, naturalizados, como algo que realmente existe e vemos todo dia e não uma aula que se para para ensinar no meio de uma história.

 

O fato de você ser jornalista, ajudou em algo na construção do livro?

Acho que me ajudou na parte de planejamento, de ter certa objetividade no que devia estar no livro e como devia fazer. Jornalista é “treinado” desde a universidade a ter tudo pré-planejado, organizado e pautado para fazer suas matérias, mas, também, deixando o “sexto sentido” alerta para captar coisas que estejam fora da pauta. Muitos furos de reportagem ou pontos altos de uma matéria surgem fora do cronograma pensado, isso é algo importante para um escritor também estar atento aos estímulos externos que possam ser aproveitados na produção de um livro.

Ser jornalista se torna também um desafio, haja vista que a tal objetividade jornalística e o limite de caracteres de jornais nos pedem para sermos sucintos, “duros” no que escreve sobre um acontecimento. A escrita literária já nos pede o oposto, uma poesia na construção de frases, no ritmo, no desenvolvimento da narrativa, uma sensibilidade para ser lúdico ao mesmo tempo em que realista. Admiro muito os jornalistas como Gay Talese, Truman Capote e outros que faziam livros reportagens com todo o gingado da literatura em suas palavras, pois, é um trabalho realmente árduo.

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o livro?

Acho que a história mais curiosa está no período de busca de leitores betas. Diversas pessoas se colocaram a disposição para ler, muitas inclusive enviei arquivo para que olhassem e dessem suas críticas, sugestões, contudo, de todos que passei se não me engano só umas duas deram retorno.

Acaba sendo interessante demais a lógica de curiosidade das pessoas com a literatura e real leitura dela, penso que existe certo fetiche em torno do ideal em cima do escritor, do fazer literário, dos lançamentos, coquetéis, curtidas em redes sociais a parte da beleza “visual” de tudo isso e menos dedicação a prática de leitura mesmo. Não que seja uma obrigação, claro, que as pessoas tenham que ler, mas fica a observação.

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

Eu tenho escrito nos autógrafos desse livro que espero que a magia circense inspire as pessoas e o quanto o maior espetáculo da terra pode ser qualquer coisa que elas façam ou vivam com intensidade. Para mim, escrever é isso, viver intensamente da forma que pode, se salvar enquanto tenta ajudar outras pessoas seja por fazê-las refletir sobre alguma questão importante ou somente se divertir por um tempo. Acredito realmente que a palavra tem poder, seja ela falada ou escrita.

 

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