24 de outubro de 2026

[ENTREVISTA] André Graciotti dispensa fronteiras em álbum criado por ele e músicos que conheceu na WEB

Por Roberto Seba

 

Parcerias além das fronteiras. É isso que André Graciotti fez. O músico, buscou parceiros ao redor do mundo, por meio do site SoundClub, e além disso, também traz na bagagem musical do álbum SEASHORES & RIVERSIDES, um conceito diferente e sem amarras em algum gênero musical em específico.

O álbum, é composto por letras em inglês, com nove faixas inéditas criadas por ele próprio com esses vários parceiros da web. No álbum, André pensou na conexão entre tudo e todos. Esse é o pilar de sua obra.

“Sempre acredito que o melhor que a internet trouxe para a cultura moderna foi a possibilidade de compartilhamento quase infinito; de furar as mediações; de borrar todo e qualquer tipo de barreira, seja cultural, política ou geográfica.”, comenta o músico.

 

 

Segundo release, você conheceu seus parceiros estrangeiros na web. Como foi isso? E como eles entraram para o álbum?

Desde uns anos atrás, eu já vinha trocando mensagens com outros artistas independentes no SoundCloud em busca de parcerias. Percebi que se tratava de uma excelente plataforma para isso e muito pouco utilizada nesse sentido. Após umas 4 parcerias bem sucedidas, em músicas lançadas em EPs anteriores, resolvi levar essa ideia mais a sério e pensei “por que não fazer um disco inteiro assim?”. Comecei então a ir atrás de cantoras independentes para colaborar, e à medida que as parcerias foram surgindo, eu ia também recebendo propostas. Foi um processo muito rico e interessante, pois as novas composições a partir dali já foram pensadas com a dinâmica de dueto em mente.

 

Qual o conceito do álbum? E o significado do nome do trabalho, qual é?

O nome SEASHORES & RIVERSIDES foi tirado de um verso da faixa TRAVELLERS, aquela que melhor representa o conceito do disco: a busca por conexões geograficamente distantes; o ímpeto de querer alcançar para além dos limites de terra; ressignificar os mares e rios não como divisórias, mas como aquilo que nos une. Era um conceito que representava minhas próprias experiências em viagens pelo mundo nos últimos 10 anos, com todas as conexões que criei e deixei em cada lugar que passei, e as duas palavras também me soavam fortes o suficiente quando contextualizadas com o mundo de hoje. Atravessar mares e rios acaba tendo um significado não só filosófico e de auto-conhecimento, mas também político — como lugar de fuga, de busca, de conquista. É através das águas, e para além delas, que nos conectamos. Nada mais coerente para um trabalho colaborativo e global como esse.

 

 

As letras das músicas são em inglês. Acredito que você as compôs assim como uma forma de quebrar fronteiras, não é?

Na verdade nunca foi uma decisão deliberada. Sempre compus e escrevi em inglês, por uma mera familiaridade musical mesmo, e por ter crescido ouvindo tanta coisa na língua, as melodias e versos acabam vindo naturalmente assim. É meio inevitável, creio eu, em se tratando de música pop. Veja a Suécia, por exemplo, que sempre lançou tantos artistas pop bem sucedidos mundialmente. Todos cantavam em inglês e a língua nem está entre as oficiais do país. Ainda penso em escrever algo em português, talvez em outro projeto, mas mais como um experimento estético do que uma afirmação cultural. Sempre preferi pensar música em termos globais. Mas, sim, por essa ótica, de fato este projeto de conexão além-fronteiras só foi possível porque componho em inglês.

 

Como você diria que é a parte musical/rítmica do álbum?

Não é exatamente um álbum pensado em termos rítmicos, como foi o EP RANDOM ALARMS, de 2013, por exemplo, que compus todo partindo do estudo de beats e subgêneros da música eletrônica. Este trabalho já busca um pop mais voltado às melodias, climas e texturas. Tem a THE WEIGHT, que busca como referência um som mais industrial-rock aliado a batuques tribais, mas é uma exceção. No geral, é um disco mais preocupado em timbres e songwriting do que ritmos propriamente dito.

 

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?

Histórias tem várias, algumas frustrantes (como colaboradoras que desistiram no meio do caminho por problemas pessoais, depois de já terem gravado metade dos vocais) e algumas curiosas (como uma colaboradora que sugeriu mudar um verso em uma letra para que soasse mais “feminino”), mas a melhor talvez seja a da faixa HEIR APPARENT, que foi a mais desafiadora pra mim. Não só porque a ideia dela veio num metódo, digamos, não-convencional (enquanto a maioria das canções foi composta no violão, no piano ou a partir de uma sequência eletrônica, esta veio a partir da melodia, que fiquei cantarolando ao sair do cinema), como o estilo de valsa clássica que tinha em mente também era muito novo pra mim, me forçando a fazer busca de referências e estudar mais sobre arranjos de orquestras. E também a letra, em terceira pessoa, foi uma novidade pessoal, principalmente pelo tema, sobre uma suposta rainha que foi tirada do trono ao qual tinha direito e busca vingança, como metáfora à opressão de um regime patriarcal (era um momento que eu estava assistindo muito GAME OF THRONES e lendo livros sobre representação feminina no cinema…deu nisso). E ter achado a Akina – que é uma cantora de blues – para cantá-la deu uma personalidade incrível e que jamais imaginava para a música.

 

Fique à vontade para falar o que quiser

Acho que as criações artísticas ainda não estão explorando tudo o que podem – e deveriam – de tudo isso. Ao menos não em larga escala. Então, de certa forma, vejo este álbum também como um tipo de manifesto pessoal, de que podemos ir sempre além do lugar que vivemos e do familiar; de que temos que abrir a mente para a ideia de que o mundo está menor e mais próximo, e podemos criar juntos, mudar juntos. Se este álbum inspirar alguém que faça música em casa em seu quarto a se juntar com outra pessoa do outro lado do mundo para criar algo, já vou me sentir realizado.

 

 

 

 

 

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