Já é um sucesso o nosso quadro ALÉM DA BR, focado em artistas não-brasileiros. Com o ALÉM DA BR, já divulgamos mais de três mil músicas de artistas de todas as partes do mundo. Agora, apresentamos um novo lado desta lista, no qual iremos focar no processo de composição e criativo. Para isso, selecionaremos sempre cinco artistas, que irão contar com suas próprias palavras como foram estes processos de sus novas músicas. Vale dizer que o conteúdo produzido por eles tem exclusividade da Arte Brasileira, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.
Vamos nessa?
Tamar Berk – “stay close by” – (EUA)
Apesar de “Stay Close By” ser a faixa de abertura do meu novo álbum ocd, foi na verdade a última música que escrevi. Eu estava buscando uma maneira de começar o disco que estabelecesse o tom emocional e convidasse o ouvinte para o meu mundo — mas que também deixasse um certo mistério no ar. Queria algo íntimo, inesperado e um pouco fora do comum, que despertasse a curiosidade sobre o que viria a seguir.
Sonoramente, eu sabia que queria começar com distorção — mas não a minha distorção habitual. Eu queria algo mais grave e encorpado, como o som de um Big Muff que soa mais como um rugido do que um grito. Comecei com uma progressão de acordes marcada, quase hipnótica, e logo senti que a batida precisava ser diferente… meio torta, inesperada, com uma pegada estranha e envolvente. Essa bateria criou o alicerce da música e ajudou a levá-la adiante de um jeito único.
Na letra, falo sobre aquelas coisas que sempre dizemos que vamos fazer — uma viagem, uma mudança na casa, qualquer plano que vive na nossa imaginação, mas nunca se concretiza. Essa mistura de desejo e inércia foi o que me inspirou a compor. Quando eu canto “we always say we should get high… and go for a ride”, estou tentando capturar esse espaço entre o sonho e a ação — e aquela esperança silenciosa de que, talvez, um dia a gente realmente faça isso.
Comentário de Tamar Berk
wanderer – “Chimera” – (Alemanha)
Primeiramente, muito obrigado por selecionar minha faixa “Chimera” para sua versão especial da lista BEYOND BR. Sinto-me honrado por ser incluído e animado para compartilhar mais sobre o processo criativo por trás da música.
“Chimera” nasceu de uma profunda necessidade emocional de explorar a dualidade entre ilusão e realidade. A própria palavra, quimera, simboliza um sonho inatingível ou uma criatura mítica — e eu queria refletir aquele conflito interno que todos enfrentamos ao perseguir algo que desejamos, mas que no fundo sabemos que pode não existir da maneira que imaginamos. A faixa mistura paisagens sonoras etéreas com um ritmo impulsionador para expressar essa tensão emocional.
Escrever a música foi uma experiência catártica. A melodia veio primeiro, quase instintivamente, como um eco subconsciente. Depois veio a letra, que escrevi ao longo de várias noites tranquilas, deixando as palavras fluírem naturalmente de memórias pessoais e perguntas que eu vinha me fazendo há muito tempo. A metáfora da quimera me permitiu explorar temas de esperança, decepção e transformação — tanto pessoais quanto universais.
Este projeto foi de produção própria, então tive total controle criativo sobre a direção. Isso também significou que pude experimentar texturas e camadas com calma até que o clima ficasse perfeito. Eu queria que a música soasse íntima e expansiva ao mesmo tempo — como um sonho no qual você se perde e do qual está consciente.
Agradeço novamente pela oportunidade de fazer parte desta curadoria tão significativa. Espero que os ouvintes se conectem com “Chimera” à sua maneira e encontrem seus próprios reflexos nela.
Comentário de Wanderer
iEKNOWS – “Sun Beaming” – (EUA)
“Sun Beaming” é a minha declaração de independência renovada em um mundo cheio de barulho e distrações. É a celebração de anos de dedicação à minha arte e da elevação que sinto acontecendo na minha vida e na minha música. A música representa o bloqueio, o bloqueio de distrações e o avanço com clareza e propósito.
Escrevi “Sun Beaming” logo após a pandemia, durante um período de reconstrução e autodescoberta. Encontrei uma batida de um produtor chamado Bvtman no YouTube que tinha uma energia comovente e alquímica, e isso imediatamente me inspirou algumas ideias. O verso “Where I’m from, ain’t no ribbon in the sky, just wolf in sheep’s clothing in disguise” surgiu naturalmente e deu o tom para toda a faixa.
Para mim, “Sun Beaming” não é apenas uma música, é uma proclamação de ver a luz e criar a partir de um lugar de foco e gratidão. Ela me lembra por que comecei a fazer música e o quão longe cheguei.
Comentário de iEKNOWS
Kelli Baker – “Silk Flowers” – (EUA)
Meu nome é Kelli Baker, e estou muito feliz por me conectar novamente com o Brasil e sua cena musical. Minha música sempre foi bem no Brasil, e mal posso esperar para tocar no seu país.
Esta música é uma versão de uma música originalmente lançada por Aretha Franklin, em seu álbum de 1968, I Never Loved a Man the Way That I Love You”
Essa música fala comigo por causa da emoção crua e das ousadas linhas energéticas que foram cruzadas em uma época em que você não via coisas assim. Adoro traduzir isso em minhas próprias performances – superando o medo e me conectando verdadeiramente.
Essa música tem sido muito popular em nossos shows ao vivo, e nos pediram várias vezes para gravá-la. É uma honra cantar uma composição tão boa.
Comentário de Kelli Baker
Dan Pallotta – “Trash Man” – (EUA)
Certa manhã, passei por um homem carregando um barril de lixo no caminhão de lixo que passava. Já tinha observado esse tipo de cena mil vezes na vida, e isso nunca me inspirou a escrever sobre ela. Então, a questão sobre o que inspira uma música é interessante. John Denver costumava dizer: “As músicas surgem quando elas têm vontade”. O impulso de escrever essa música quando vi aquele homem foi imediato e visceral, e eu já tinha a letra principal pronta antes do fim da minha caminhada, cerca de 45 minutos depois. Originalmente, a música seria um retrato desse homem do lixo — sua história, sua família, suas esperanças, suas dúvidas, seus medos —, mas enquanto eu trabalhava nela, uma amiga me fez ótimas perguntas sobre o que, mais especificamente, se tratava. Ela sentiu que se tratava de se tornar obsoleto, de não ser mais necessário no mundo, então mudei o foco para isso, e essa se tornou a maior inspiração.
Tem um duplo sentido. O lixeiro leva o nosso lixo embora, sim, mas lixo é aquilo que se esgota, aquilo para o qual não temos mais utilidade, e essa também é a realidade no caso desse personagem. A robótica o está tornando obsoleto. Aqueles grandes braços mecânicos nos novos caminhões de lixo eliminam a necessidade de seus serviços.
A música é simples e tranquila. O arranjo foi pensado para ser um fundo suave contra o qual a história pode ser contada. Portanto, não há muitos enfeites ou enfeites para os ouvidos. Tínhamos alguns instrumentos muito atraentes que acabamos removendo porque eles estavam exagerando na importância de si mesmos. Com essas canções de história, é preciso ter muita moderação, para não criar um groove que leve ao movimento do corpo e ao bater dos pés em vez de ouvir e sentir. De uma forma estranha, é preciso ter cuidado para que continue sendo uma história, e não uma “música”, por assim dizer, se é que isso faz sentido.
Comentário de Dan Pallotta
