Somos uma revista de arte nacional, sim! No entanto, em respeito à inúmeras e valiosas sugestões que recebemos de artistas de diversas partes do mundo, criamos uma playlist chamada “Além da BR”. Como uma forma de estende-la, nasceu essa publicação no site, que agora chega a sua 281ª edição. Neste espaço, iremos abordar alguns dos lançamentos mais interessantes que nos são apresentados.
Até o primeiro semestre de 2024 publicávamos também no formato de texto corrido, produzido pela redação da Arte Brasileira. Contudo, decidimos publicar apenas no formato minientrevista, em resposta aos pedidos de parte significativa dos nossos leitores.
80won – “For you” – (Reino Unido)
– Descreva o conceito geral da música. “For You” mistura a suave profundidade emocional do R&B dos anos 90 com o ritmo e a alma da afro-fusão, unidos por toques sutis de pop contemporâneo. A produção é rica, mas discreta — projetada para ser envolvente sem sobrecarregar a mensagem.
Há um calor nas harmonias que remete aos clássicos, enquanto o groove e o fraseado melódico trazem uma pegada moderna e global. É o tipo de faixa que se adapta a qualquer humor — seja para relaxar tarde da noite ou começar o dia com propósito.
Ele foi criado para ser atemporal, algo que se encaixa perfeitamente em qualquer momento, mas ainda carrega uma personalidade distinta.
– Quando surgiu essa composição e o que a inspirou? “For You” foi inspirada em experiências passadas de amor — momentos de desejo, vulnerabilidade silenciosa e aquele sentimento universal que todos nós conhecemos quando desejamos alguém profundamente, especialmente alguém com quem realmente nos importamos.
Trata-se do vai e vem emocional que acompanha a abertura, mesmo quando não temos certeza do que está do outro lado. Eu queria capturar essa tensão de uma forma que soasse gentil, honesta e real — como uma conversa particular com música.
– Musicalmente, como você definiria e descreveria essa música? “For You” é uma expressão musical sincera de amor — terna, honesta e profundamente comovente. Com melodias calmas, porém tocantes, que envolvem você como um abraço caloroso, a música carrega uma intensidade suave que perdura por muito tempo após a nota final. A letra é despojada de pretensão, falando diretamente do coração, capturando a força silenciosa e a vulnerabilidade de amar alguém plenamente. Cada batida, cada acorde e cada palavra são elaborados para dar vida à emoção — não apenas para ser ouvida, mas verdadeiramente sentida. ” For You” é mais do que uma música; é um clima, um momento e uma promessa.
– Como foi a abordagem à produção musical e o que você acha do som geral? Nunca fui de perseguir notas agudas — meu alcance vocal tem limites, e estou tranquilo com isso. Em For You , o foco nunca foi mostrar potência vocal, mas sim honestidade emocional. Tentei manter tudo o mais equilibrado e natural possível, deixando o sentimento guiar a entrega. Cada palavra carrega uma intenção. Gravei a música no estúdio de um amigo enquanto estava em Gran Canaria, e aquele ambiente relaxado e ensolarado definitivamente encontrou seu lugar no coração da faixa.
Respostas 80won
Joshua Gellman – La Noche – (Canadá)
– Descreva a proposta geral da música. La Noche é uma homenagem à vida noturna como um espaço de inspiração, liberdade e liberação emocional. A música fala sobre como a noite desperta a criatividade e a conexão — através do som, do ritmo e da energia. Ela convida o ouvinte a entrar nesse mundo onde a escuridão não esconde, mas revela.
– E em qual momento surgiu essa composição, o que a inspirou? A música nasceu tarde da noite, em um momento de reflexão profunda e fluxo musical. Sempre senti que a noite é quando me sinto mais vivo — seja compondo, caminhando pela cidade ou dançando em alguma festa. Essa mistura de solidão e estímulo inspirou o groove, a melodia e a letra.
– E a letra, o que especificamente ela diz? A letra convida o ouvinte a se entregar à noite — a deixar-se levar pelo ritmo. Fala sobre se perder no momento, seguir a música e permitir que a noite revele algo novo sobre si mesmo. É ao mesmo tempo sensual e introspectiva, com um convite aberto à descoberta.
– Musicalmente, como você pode definir e descrever essa música? La Noche é uma fusão de Reggae, Rock & Roll, Cúmbia, Funk Latino, Soul e elementos psicodélicos — com texturas vintage e batidas modernas. Usei instrumentos clássicos como o Clavinet e o Rhodes para criar uma sonoridade rica e com camadas, misturando também Charango, percussão latina e uma linha de baixo hipnótica. Ela pulsa, ela dança e convida quem escuta a entrar no clima.
– Afinal, há algo de curioso que você queira destacar? Sim! A faixa foi criada em colaboração com músicos de diferentes origens, incluindo Brasil e Canadá. Grande parte da música surgiu a partir de uma jam session ao vivo, e decidimos manter muitos desses elementos brutos na mixagem final — capturando a espontaneidade e a magia daquele momento.
Tive a alegria de contar com três músicos brasileiros incríveis na produção: Antônio Guerra (acordeom), Jonas Hocherman (trombone baixo) e João Paulo Drumond (percussão), todos colaboradores via Musiversal. A energia deles trouxe um sabor autêntico e uma riqueza rítmica que ajudaram a definir a alma da faixa.
Respostas Joshua Gellman
Ziburta – “San Juan Chamula” – (México)
– Que reflexão ou ideia gerou essa canção? A canção nasceu de uma mistura de deslumbramento, respeito e confusão espiritual. A primeira vez que cheguei a San Juan Chamula, senti que havia cruzado para outro plano de realidade. Vi um México que eu não conhecia: profundo, ritualístico, onde o mágico não é metáfora, mas parte do cotidiano. Essa canção é uma tentativa de capturar essa experiência, compartilhar o que senti e homenagear o mistério desse lugar. Embora a música esteja atravessada pelo humor e pelo delírio, também funciona como uma paródia respeitosa do incompreensível.
– E a letra em especial, o que diz? A letra fala a partir do delírio, pelos olhos de uma forasteira fascinada e desconcertada. É uma narrativa fragmentada, quase alucinada, que mistura cenas reais com imagens simbólicas: galinhas oferecidas em sacrifício, santos pendurados de cabeça para baixo, castigos divinos, rituais de morte e cura. Ele também imagina como seria morar lá por três anos. Não pretende explicar nada; quer transmitir o impacto emocional de presenciar uma realidade tão diferente dela mesma.
– Musicalmente, como você descreveria? É uma mistura de rock psicodélico com elementos orquestrais, múltiplas camadas vocais, distorções e texturas que se entrelaçam como em um sonho ou numa cerimônia chamula. Quis que soasse como entrar em uma igreja de San Juan Chamula de olhos fechados: incerto, inquietante, belo. Não segue uma estrutura pop convencional; é mais uma travessia sonora do que uma canção tradicional.
– Como esse lançamento se relaciona com o seu país, o México? Essa música toca uma fibra muito profunda do México que me comove: sua diversidade espiritual, sua história indígena viva, seu sincretismo radical. É uma declaração de amor e de desorientação diante desse México oculto, que não aparece nos cartões-postais, mas que existe com toda sua força. Essa canção busca torná-lo visível por meio da arte, com respeito e assombro, sem apropriação nem exotização.
– Conte-nos sobre o videoclipe. Tentei gravar o vídeo em San Juan Chamula, mas é proibido filmar lá sem permissão — e você realmente pode ser preso. Então, decidi reconstruí-lo a partir da memória. Usei inteligência artificial para recriar o que vi, o que sonhei e o que imaginei. O resultado é uma colagem visual onírica, quase surrealista, que mistura o cerimonial com o fantástico. Não é um documentário: é uma visão pessoal, uma interpretação poética de um lugar que me transformou.
Respostas Ziburta
Project Earthbridge x Peter Mörlin – “Allt jag ville säga” – (Suécia)
– Descreva a proposta geral da música? “Allt jag ville säga” é uma balada melancólica na fronteira entre pop, rock e indie folk. O objetivo é destacar o quão difícil pode ser sair de uma situação difícil e o quanto o passado pode afetar nossas vidas, às vezes quando menos queremos. O cantor Peter Mörlin, ator profissional que, entre outras coisas, participou da adaptação cinematográfica de “Björnstad“, de Fredrik Backman, e desempenhou um dos papéis principais no filme biográfico “Ur mörkret“, canta o texto reflexivo e emocional com grande sentimento e empatia.
– E em qual momento surgiu essa composição, o que a inspirou? “Allt jag ville säga” foi escrita no início de 2025, quando Anders Hasselqvist teve ideias para letras e música para uma música que mais tarde foi concluída em colaboração com Thomas Karlsson (música/produção) e Jimmy Granström (letras). A música é inspirada principalmente pelo cantor e compositor Lars Winnerbäck, que é um dos maiores artistas da Suécia há quase 30 anos. Os textos de Winnerbäck são exclusivamente em sueco e descrevem nossos tempos de uma maneira pessoal.
– E a letra, o que especificamente ela diz?
O texto é sobre um amor que foi perdido e, de alguma forma, ainda consegue encontrar o caminho de volta à vida. O refrão vai
“Tudo o que eu queria dizer e tudo o que eu deveria ter feito,
Sonhos perdidos, o tempo todo desapareciam tão rápido
Já tentei escapar, mas sempre fico
À sombra da vida que um dia foi”
– Musicalmente, como você pode definir e descrever essa música? Musicalmente, é uma balada com um som predominantemente orgânico que contém elementos suaves e pesados para refletir o conteúdo e o sentimento das letras.
– Como foi trabalha a produção musical e qual seu comentário sobre a sonoridade em geral? Anders e Thomas trabalharam na música, que foi então produzida por Thomas. Anders também toca violão e violino na música. Estamos orgulhosos desse som que é um pouco diferente dos singles anteriores do Project Earthbridge.
Respostas sProject Earthbridge
Jordan Lee – “Love Ride” – (França)
– Em que momento surgiu essa composição, o que a inspirou? “Love Ride” veio de um lugar muito cru, muito humano. Foi uma daquelas músicas que meio que se escreveu sozinha depois de uma conversa difícil. Sabe quando você está discutindo com alguém que ama e, no meio do caminho, começa a se perguntar como chegou lá? Foi isso que a inspirou. Eu estava refletindo sobre aqueles momentos em que o amor se perde na tradução — em que o ego toma conta da empatia. E, em vez de uma escalada, eu queria imaginar um resultado diferente: e se pudéssemos simplesmente parar, ouvir e recomeçar? Essa ideia se tornou a semente da música.
– E a letra, o que ela diz especificamente? A letra fala sobre essa encruzilhada emocional — quando ambos estão magoados, ambos tentando ser ouvidos, mas também estão cansados do ciclo. O refrão diz tudo: “Se pudéssemos parar de discutir e brigar, teríamos ido dar uma volta… ou, em vez disso, teríamos feito um passeio de amor.” É uma metáfora, claro, para escolher a conexão em vez do conflito. Não se trata de fingir que as coisas são perfeitas — trata-se de abrir espaço para a suavidade no meio de uma tempestade. Eu queria que as palavras soassem reais, não poéticas por si só. Só honestamente.
– Musicalmente, como você pode definir e descrever essa música? Musicalmente, ela se encaixa exatamente naquele ponto ideal onde o soul encontra o groove, com um toque de retrofuturismo. É intimista, mas ainda tem ritmo — algo com o qual você pode se conectar emocionalmente ou se mover fisicamente. Há acenos sonoros para o calor do funk e do soul dos anos 70, mas também aquela textura analógica e elegante com a qual adoro trabalhar. É o tipo de faixa em que o groove contém a emoção, então você a sente antes mesmo de processar a letra.
– Como foi feita a produção musical e qual é o seu comentário sobre o som geral? A produção em “Love Ride” é muito intencional — como tudo em Fighter For Love. Combinei instrumentos ao vivo com equipamentos vintage e plug-ins analógicos para manter o som quente e humano. Há uma delicadeza no arranjo, mas também uma pulsação que o impulsiona para frente. Eu não queria produzir demais — precisava respirar. A tensão e a liberação na mixagem refletem a dinâmica emocional da letra. É uma daquelas músicas em que menos é mais, em que o groove precisa ter tanto significado quanto as palavras.
– Qual é a proposta da fotografia da capa da música? Não criamos uma capa separada para “Love Ride” — faz parte da experiência completa do álbum. Mas se você olhar para a arte do álbum — eu estilizado como uma espécie de Bruce Lee da era soul — trata-se de incorporar a luta pelo amor, em todas as suas formas. No contexto de “Love Ride”, esse visual é sobre a coragem necessária para parar, ouvir, escolher o amor mesmo quando é difícil. Isso também é uma luta. Então, embora a imagem possa parecer ousada ou combativa, em sua essência,na verdade, trata-se de resiliência emocional — permanecer aberto em um mundo que o encoraja a se fechar.
Respostas Jordan Lee

