Somos uma revista de arte nacional, sim! No entanto, em respeito à inúmeras e valiosas sugestões que recebemos de artistas de diversas partes do mundo, criamos uma playlist chamada “Além da BR”. Como uma forma de estende-la, nasceu essa publicação no site, que agora chega a sua 296ª edição. Neste espaço, iremos abordar alguns dos lançamentos mais interessantes que nos são apresentados.
Até o primeiro semestre de 2024 publicávamos também no formato de texto corrido, produzido pela redação da Arte Brasileira. Contudo, decidimos publicar apenas no formato minientrevista, em resposta aos pedidos de parte significativa dos nossos leitores.
The House of Christian Eusterqnote – “Open Wound” – (Suécia)
– Qual a melhor sinopse dessa música? Open Wound é uma balada de soul retrô que nasceu de um dos períodos mais sombrios da minha vida. Não é apenas uma canção – é um diário em forma de música, um testemunho de traição, perda e sobrevivência. Cada verso foi escrito em noites sem sono, quando eu tinha apenas meu violão e o silêncio ao meu redor. A faixa transforma dor crua em som cheio de alma, convertendo o luto em resiliência e cicatrizes em hino.
– Qual o tema da música, qual sua mensagem? O tema central de Open Wound é o peso emocional da traição – quando alguém em quem você mais confiava escolhe o silêncio, a distância ou até a crueldade. A música pergunta: _Como continuar quando o amor se transforma em abandono?_A mensagem é que a dor não precisa terminar em derrota. Mesmo quando o coração está sangrando, há dignidade em se recusar a fechar-se para o mundo. Open Wound traz uma promessa: suas feridas podem se tornar sua força, e sua dor pode se transformar em uma voz que ressoa além da sua própria história.
– Quais são suas características artísticas presentes na música? Musicalmente, a faixa mistura soul retrô com influências de gospel. Há camadas de sopros que adicionam calor, linhas de guitarra sutis que ecoam a melancolia da letra, e uma interpretação vocal que carrega tanto vulnerabilidade quanto poder. Eu quis que a produção soasse atemporal: limpa e moderna, mas enraizada na tradição da soul music, que sempre transformou o sofrimento humano em algo transcendente. O que torna essa música profundamente pessoal é que cada progressão de acordes foi construída em cima das emoções que eu sentia na época – não é perfeição polida, é a realidade vivida traduzida em som.
– Qual a proposta da arte de capa da música? A capa mostra um coração aberto, sangrando mas vivo. Para mim, essa foi a forma mais honesta de representar Open Wound: prova de sobrevivência. Os contrastes – presença forte contra fragilidade rasgada, luz contra sombra – capturam o paradoxo da dor e da força coexistindo. A capa é crua, quase desconfortável, mas também espiritual. Assim como a música, não esconde a ferida; honra-a como parte do que nos torna humanos.
– Por fim, qual a ligação dessa música com o seu país, a Suécia? A Suécia tem uma longa tradição de produzir música com honestidade emocional – desde baladas pop melancólicas até projetos indie de alma profunda. Open Wound reflete essa tradição: pega o clima frio, silencioso e muitas vezes solitário da paisagem nórdica e o transforma em algo universal. Na Suécia, os invernos são longos e escuros, e o silêncio pode ser ao mesmo tempo opressor e belo. Esse silêncio moldou esta canção – porque foi em noites suecas, sozinho com meus pensamentos, que escrevi Open Wound. Nesse sentido, a faixa carrega a alma do meu país: melancólica, reflexiva, mas sempre buscando encontrar a luz na escuridão.
Respostas The House of Christian Eusterqnote
Rosy Nolan – “How It Feels To Fall In Love” – (EUA)
– Como você descreveria “How It Feels To Fall In Love”? “How It Feels To Fall In Love” é uma rumba leve e dançante com um toque de calipso sobre o caos emocionante de um novo caso de amor. Ela captura aquele palco elétrico quando tudo é excitante, movido pela luxúria e um pouco insano. Eu queria capturar aquele momento fugaz antes da realidade se instalar… o momento em que o amor faz você se sentir sobre-humano, e parece que o mundo inteiro está torcendo por você.
– Qual é a mensagem da música? Esta música não é tanto sobre entregar uma mensagem, mas sim sobre capturar um instantâneo de um momento muito específico da minha vida. Ao contrário de muitas das minhas outras composições, que tendem a carregar temas mais pesados, esta é sobre as puras sensações físicas e emocionais de se apaixonar… um momento fugaz em que eu estava totalmente imersa no presente, com todos os sentidos aguçados.
– O que realmente inspirou a composição? É baseada no início do meu último relacionamento… uma época selvagem em que havia um senso de urgência em tudo o que fazíamos. Não nos cansávamos um do outro. De repente, todas as canções de amor no rádio estavam cantando a nossa história.
– Como essa música se encaixa no universo da música country? Acho que “How It Feels” destaca a elasticidade do gênero country. Os primeiros artistas country, como Bob Wills, Hank Snow e Patsy Cline, já experimentavam ritmos caribenhos e latinos décadas atrás, inspirando-se na música tradicional de outras culturas. Viver nos Estados Unidos e tocar música é estar constantemente aberto ao que está ao seu redor… absorvendo ritmos, histórias e sons que se tornam parte de uma linguagem musical compartilhada.
– Por fim, há algo interessante que você gostaria de destacar? Estou muito animado com o lançamento do meu álbum, Main Attraction , em 17 de outubro. Pré-salvamentos e as pré-encomendas já estão disponíveis no meu site .
Eu também adoraria visitar você no Brasil 🙂
Respostas Rosy Nolan
BC25 – “Blue Thread” – (Alemanha)
– Qual é o melhor resumo geral deste lançamento? Unearthed é o EP de estreia do BC25 – um projeto silencioso moldado pela ausência. Começou com 18 instrumentais inacabados deixados por um amigo falecido. Barbonus os recuperou. Vela Sorell lhes deu voz. O resultado não é polido, nem barulhento, nem feito para impressionar. É simplesmente o que acontece quando duas pessoas entram no silêncio uma da outra e ouvem com atenção.
– O que inspirou a composição de “Blue Thread”? A faixa original – agora “Blue Thread” – era apenas um balanço suave de acordes, um ritmo suave e uma pulsação melódica. A letra surgiu da sensação de que algo nos conecta àqueles que perdemos, mesmo que não consigamos nomear. Não é tristeza, não é nostalgia – é algo mais leve. Um fio que você segue com a respiração.
– Que reflexão ou ideia deu origem a essa música? Há um verso na música: “Ela disse para dançar antes da melodia”.
Ele contém a ideia completa. Às vezes, você se move antes de entender. Você acredita antes que faça sentido. Foi assim que esta música foi escrita. Não é sobre o que se foi. É sobre o que permanece – no gesto, na melodia, na memória.
– O que a arte da capa representa? Duas pessoas. Um momento de silêncio. Sem drama. Sem clímax. Eles não se tocam. E, no entanto, algo flui entre eles – não físico, mas musical. A luz entre eles é o que importa. Essa luz é o fio condutor.
– Há algo curioso ou especial que você gostaria de destacar? Talvez apenas isto: BC25 é uma dupla, mas a terceira voz está sempre presente. O amigo que não está mais aqui. Ele não aparece nos créditos ou nas fotos, mas moldou tudo.
Além disso, BC25 não representa nada. Nem Before Christ. Nem Binary Code. Nem Barbonus & [insira a teoria aqui]. Barbonus pode sugerir algo. Vela permanece em silêncio.
Respostas BC25
ISA – “A Falta De” – (República Dominicana)
– E em que momento surgiu essa composição, o que a inspirou? Essa composição nasceu no meu primeiro ano fora do meu país, a República Dominicana. Quando me mudei para Boston. Tudo era diferente: as pessoas, o clima, a intensidade do sol, a comida… Senti um choque cultural muito grande e comecei a sentir profundamente saudades da vida acolhedora que tinha deixado para trás. Como todo imigrante, eu estava em busca de objetivos e oportunidades, e dessa mistura de nostalgia e adaptação surgiu a canção.
– Qual é o tema da música, o que retratas na letra? Com «A Falta De», mais do que um tema, procurei encapsular uma emoção: a nostalgia. Quis representar essa emoção de uma forma diferente e movimentada, mas ainda assim, na sua máxima expressão. Na letra, os versos refletem de forma literal e emocional tudo o que me falta. Por outro lado, no refrão da música, procurei substantivos que se encaixassem ritmicamente com a música a partir de uma abordagem mais festiva e pessoal, sem a necessidade de que tudo fosse 100% coerente. E então chega o bridge, que é a seção mais vulnerável de todas e, pessoalmente, a minha favorita.
– Em termos de sonoridade, como descreveria esta canção? Eu descreveria como fresca, com uma atmosfera calorosa e sedutora, uma representação sonora de tudo o que me falta.
– O que essa música diz sobre o seu país, a República Dominicana? Embora A Falta De tenha nascido muito longe da República Dominicana, a música está impregnada das minhas raízes. A nostalgia que sinto pela cordialidade da minha terra, a sua luz, a sua música e aqueles pequenos momentos do quotidiano refletem-se em cada palavra e em cada nota. É a minha maneira de levar um pedacinho do meu país comigo como um símbolo de honra e partilhá-lo através da música.
– Quem é a artista ISA? Eu escrevo canções porque acredito que a música, mais do que medicina, é companhia. ISA é simplesmente eu sendo artista, buscando transmitir emoções autênticas através da nostalgia, do amor e dos pequenos momentos da vida cotidiana. A minha música é a minha maneira de me conectar com as pessoas através de emoções e situações que todos vivemos. Como artista independente, gosto de explorar sons e letras que realmente me representam, sem seguir fórmulas, e é isso que procuro partilhar com quem me ouve.
Respostas ISA
Alex Hamberger – “Cruising Speed” – (EUA)
– E em qual momento surgiu essa composição, o que a inspirou? Esta composição surgiu em janeiro/fevereiro de 2024. Eu morava no sul da Califórnia. Não em áreas urbanas movimentadas como Los Angeles ou San Diego, mas em uma pequena cidade na região vinícola chamada Temecula. Embora houvesse menos “acontecimento” (era um estilo de vida mais tranquilo), a cidade tinha algumas das estradas rurais mais incríveis através das montanhas para andar de moto. Morar lá realmente me permitiu desacelerar (enquanto talvez, ironicamente, acelerasse na minha moto), o que é algo que considero muito importante para todos nós. Ter esse espaço realmente proporcionou muitos pequenos momentos de clareza em muitas áreas da vida – amizades, estresse familiar, incerteza e ansiedade.
– Qual o tema da música, qual aventura o ouvinte poderá mergulhar? Velocidade de Cruzeiro é a sensação de liberdade que um momento de clareza pode trazer. Quando você finalmente rompe o ciclo monótono da correria, quando os cruzamentos lotados dão lugar a estradas sinuosas nas montanhas, quando o tempo é medido apenas em “tempos além do horizonte”, quando o motor ronrona e nada segura os cavalos, é quando você atinge a velocidade de cruzeiro.
– Em termos de sonoridade, como você descreve essa música, e é possível comparar esta música com outros artistas e bandas? Eu diria que uma boa maneira de abordar essa música é como um quarteto de jazz: baixo, bateria, guitarra e saxofone. O sax conduz a melodia pela primeira parte, que se abre com um solo de guitarra pensativo, mas intenso. O sax retorna com tudo quando a música realmente atinge seu ritmo, e tudo volta para casa. Acho que quem gosta de Tom Misch, Yussef Dayes, Kiefer, Jordan Rakei e Khruangbin vai curtir essa vibe.
– Qual a ligação que pode ser feita entre esse lançamento e o seu país, os EUA? Muitas ideias provavelmente vêm à mente quando as pessoas pensam nos Estados Unidos da América. Gostaria de chamar a atenção para as belas paisagens que compõem este país. Muitas vezes, as pessoas tendem a pensar imediatamente em Nova York, Los Angeles ou grandes cidades como essas. O mais incrível é que, mesmo a uma hora de Los Angeles, você encontra montanhas e deserto, coisas realmente lindas e místicas. Quanto mais você se afasta das cidades, mais aberto, natural e belo o lugar se torna. A conexão também se fortalece à medida que faço todas essas explorações na minha motocicleta Harley Davidson, a motocicleta americana por excelência.
– Por fim, há algo de curioso sobre o lançamento que você queira destacar? Aprendi que, às vezes, leva mais tempo do que o esperado para lançar uma música no mundo. Na maioria das vezes, são obstáculos mentais, mas às vezes há razões práticas ou contratempos logísticos. “Cruising Speed” teve um pouco de tudo isso. Estou muito feliz por compartilhar essa música e fico muito feliz que todos vocês tenham se esforçado para se conectar comigo e me ajudar a compartilhar isso com seus leitores.
Respostas Alex Hamberger
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