12 de maio de 2026

CONTO: A Confirmação do Segredo de Confissão (Gil Silva Freires)

Matar é fácil, até mesmo porque é a arma quem faz o serviço. A mão é apenas o instrumento da vontade do freguês ou de uma desavença pessoal. Difícil é conseguir conforto espiritual depois do ato.

Jeremias tinha matado ás dezenas e a carga era incomensurável. Essa culpa acumulada nos anos de pistolagem fez com que ele, pela primeira vez, quisesse buscar expiação na casa de Deus. O padre Alberto era muito respeitado nas redondezas e não havia ninguém mais confiável para ouvir sobre seus atos violentos.

Jeremias adentrou a Matriz de Poço das Trincheiras e perguntou do padre.

– Na sacristia – disse a velha Quitéria, que era responsável pela limpeza da igreja. – O moço quer o que com ele?

– Quero me confessar, com a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Velha Quitéria estranhou que aquele homem de fama tão perversa quisesse se confessar. Mas, pensou ela, devia ter mesmo muitos pecados para aliviar.

O padre veio e chamou Jeremias ao confessionário.

– Seja bem-vindo na casa de Deus, meu filho.

– Padre, eu tenho muita coisa ruim nas minhas costas. Acho que Deus não vai me perdoar, não…

– Deus é infinito em sua misericórdia. Ele não abandona nem mesmo os maiores pecadores. Pode abrir seu coração, filho.

Jeremias falou tudo, de crimes encomendados e traições. Padre Alberto escutou a narrativa sangrenta em total silêncio. Ao final, com voz penalizada e severa, disse:

– Filho, você cometeu pecados muito graves. Precisa pedir muito perdão.

– O padre não me perdoa? – perguntou Jeremias, confuso.

– Você precisa do perdão de Deus e, daqui pra frente tem que fazer por onde merecê-lo.

– O padre não vai contar isso pra ninguém, vai?

– Isso é segredo de confissão, filho. Fique em paz.

Jeremias foi embora depois de receber uma extensa penitência e pedir a benção do padre. Foi mas voltou na calada da noite, depois que a cidade foi dormir.

Vai que o padre deixava de ser padre de repente.

Escrito por Gil Silva Freires em 23/09/1993

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