8 de outubro de 2026

CONTO: Aqueles Cães Que Latiam e Os Visitantes Que Não Batiam (Gil Silva Freires)

Desde que se mudara, Leonardo não conseguia dormir direito. E sua insônia não era causada por problemas financeiros ou sentimentais. Dinheiro ele tinha o bastante pra levar uma vida confortável naquela recém comprada casa na Vila Madalena. Sua namorada era sensacional, uma blondie de causar inveja, bunda e peitos de arrasar. O problema estava na casa do vizinho: dois malditos pastores alemães que latiam quase o tempo todo. Aqueles dois cães vinham tornando um inferno aquela primeira semana na casa nova.

Ainda na primeira manhã de olheiras, foi reclamar com o vizinho, um advogado aposentado e bonachão. Mas foi inútil, pois o homem disse que ele se acostumaria com os latidos, era questão de tempo. E ainda brincou, dizendo que o barulho dos cães era soava pra ele como uma canção de ninar.

– Mas seus cães são umas pestes – protestou Leonardo.

O vizinho riu e pediu mais paciência. Disse que a criminalidade era alta e a presença de cães de guarda era imprescindível pra reforçar a segurança.

Leonardo voltou pra casa odiando ainda mais aqueles cães. Onde já se viu manter aqueles animais barulhentos como mecanismo de segurança? A casa do vizinho era uma fortaleza e ladrões não entrariam ali nem de helicóptero. A presença daqueles bichos infernais era apenas pra deixar a vizinhança louca e insone.

Naquela madrugada encostou uma escada no muro e subiu com os bifes na mão. Os cães importunos latiam barulhentamente do outro lado.

– Trouxe um lanche pra vocês – disse, jogando os bifes envenenados.

Os cães avançaram nos petiscos letais e Leonardo foi dormir o sono dos justos.

Estava quase pegando no sono quando escutou o rumor de vozes. Foi até a janela do quarto e viu dois sujeitos se equilibrarem no muro e descerem pela escada que ele esquecera lá.

Pegou o telefone e desceu apressado pra conferir as fechaduras. Deu de cara com dois outros ladrões já na sala. Um deles deu um tiro certeiro no coração de Leonardo.

Havia duas semanas que tentavam roubar aquela casa, mas o assalto era sempre frustrado pelo alerta de cães na casa vizinha.

Escrito por Gil Silva Freires em 2 de dezembro de1995

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