5 de novembro de 2026

Milênios de história e ainda não aprendemos a viver (por Fredi Jon)

Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Voltava de uma serenata quando uma cena me chamou a atenção. Um olhar emocionado, duas pessoas se reconhecendo no meio da rotina. Algo simples, mas que me provocou uma pergunta incômoda: depois de tantos ciclos vividos, tantas gerações, dores, guerras, descobertas e recomeços, não deveríamos estar mais felizes? Não deveríamos ter aprendido a viver?
Afinal, não somos uma civilização recém-chegada. Já atravessamos impérios, epidemias, revoluções e guerras. Aprendemos a plantar, selecionar sementes, irrigar a terra, produzir alimentos, descobrir curas, viajar ao espaço e investigar os confins do universo.

Mas ainda não aprendemos a dividir o pão, respeitar diferenças ou conviver com o vizinho.

É uma espécie de contradição evolutiva: criamos inteligência artificial, mas preservamos com admirável dedicação a estupidez natural.

Transformamos o tacape em míssil, a espada em drone e a barbárie em estratégia militar. Chamamos isso de progresso. A crueldade, aparentemente, também evolui e ainda recebe investimentos.

Descobrimos os segredos do átomo, mas não os mistérios do afeto. Temos informação em abundância e sabedoria em regime de racionamento. Nossa inteligência, muitas vezes, não serve para compreender o mundo, mas para justificar nossas próprias misérias.

E a felicidade? Talvez tenhamos cometido o erro de procurá-la nas vitrines, nos títulos, nas conquistas e na aprovação alheia. Nunca tivemos tantos meios de comunicação e tão pouca disposição para escutar. Nunca fomos tão conectados e, paradoxalmente, tão distantes.

Começo a desconfiar de que evoluímos muito na capacidade de modificar o planeta, mas quase nada na capacidade de compreender nossa própria existência.

Naquela madrugada, porém, lembrei da cena que havia presenciado. Uma canção, um abraço, olhos marejados. Por alguns instantes, ninguém precisava vencer, comprar, provar ou competir. Bastava sentir.

Talvez o grande salto da humanidade não seja tecnológico, mas de consciência. Menos vaidade, menos ganância, menos necessidade de ter razão. Mais humanidade, justamente aquilo que parece estar entrando em extinção.

Afinal, de que adianta conquistar o universo se continuamos sendo estrangeiros dentro de nós mesmos? De que adianta prolongar a vida se ainda não aprendemos a vivê-la?

Acho que a maior descoberta ainda esteja por acontecer: descobrir o outro sem querer dominá-lo, amar sem possuir e viver sem precisar diminuir ninguém.

A humanidade chegou às estrelas, mas ainda tropeça na própria humanidade.

Sigo com meu violão, acreditando que uma serenata não muda a humanidade, mas pode lembrar a alguém que ainda vale a pena ser humano.

Contrate nossa serenata – serenataecia.com.br / 11 99821-5788

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