Revista Arte Brasileira Além da BR Andinho de Bulhões: ausência de lume na justaposição e na aglutinação
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Andinho de Bulhões: ausência de lume na justaposição e na aglutinação

O sol novifluente
transfigura a vivência:
outra figura nasce
e subsiste, plena

Orides Fontela

1.

Andinho de Bulhões

Andinho de Bulhões nasceu em um povoado pertencente à cidade de Acari, povoado de Bulhões (1977). De grande relevância imagética, suas obras são o que podemos indigitar de “composições”, haja vista sua diferença em relação às artes culturais e às de natureza naïf, esta bifurcação que perdurou na classificação das formas e das tradições artísticas. Vigorou até o final do século XIX, com o francês Henri Rousseau (1844–1910) sendo incorporado como integrante em igualdade aos demais artistas dos salões oficiais que sucediam à época, e tendo o seu reconhecimento o tanto quanto os nomeados como artes culturais, cindindo essa bipartição rígida que assegurava a noção de “Belas Artes”.

Ora, a arte manuseia artifícios para se manifestar com todo o seu cabedal de elementos para ungir e definir não apenas a beleza, mas também o diferente. Vejamos como Andinho de Bulhões veio a se firmar como artista visual. Ele pediu para um amigo fazer uma arte para ele. O amigo comprou uma lata de tinta, um pincel, e lhe disse, como se ordenasse de maneira afetuosa: “pinte, você sabe fazer”. Assim, surgiu esse artista cujo valor e pendores encontram-se. Caso queira uma heurística, caso busque uma interpretação, uma metáfora, de suas formas, cores e linhas, é necessário lançar suas categorias analíticas em outros prados, que não as comumente manuseadas, para dar conta das descobertas e desvelar os sentidos presentes em cada uma.

2.

Andinho de Bulhões

Há que discernir com redobrada atenção cada elemento, à medida em que tudo está justaposto em uma individualidade, com uma autonomia de referentes que não afinam no mesmo diapasão, que não repetem os mesmos temas outorgados a determinadas tradições das artes visuais, objetivando confluir as formas, texturas e cores, visando retratar uma paisagem ou uma natureza morta. O que ocorre na organização dos trabalhos de Andinho de Bulhões não é uma aglutinação, no sentido de que os elementos postos um ao lado do outro sofrem alteração (podemos arrolar como exemplo a formação de novas palavras nas quais de duas se produz uma. Com o processo da fusão, alteram-se as sílabas, diferindo de um jeito novo. Perdendo sua individualidade, surge uma nova palavra).

Andinho de Bulhões

E ainda muito menos quando empreende justaposições, pois suas imagens coloridas permanecem autônomas, sem uma lógica aparente, sem uma razão que explique e imprima sentido ao que se encontra lado a lado. O certo é que os elementos, nesse processo de se avizinhar uns dos outros, embrenham-se por uma compleição de esquisita, de estranha beleza, de uma raridade que destoa de todos os artistas visuais conhecidos. É como se fosse uma espécie de transe que rege a organização de uma plêiade de serpentes corais, rostos com olhos mirando de chofre, árvores, desenhos parecidos com rostos.

A figura que aparece em quase todos os trabalhos é o peixe em sua forma natural ou uma parecença dele. Muito provavelmente tem a ver com a relação de Andinho de Bulhões com as águas da grande represa de Acari, um dos mais belos açudes do Rio Grande do Norte. Dessa maneira, o peixe funciona como fulcro modal de toda sua obra, expondo-se como uma metáfora que organiza seu imaginário, inscrevendo-se como o bicho que mais detém familiaridade, pois acaba sendo seu ofício e sua alimentação.

A metáfora do peixe, para além dos significados religiosos relativos ao Cristianismo desde os primórdios dessa religião, detém outros sentidos que nos conduzem a refletir acerca da condição humana. Vejamos como isso pode ocorrer: o lugar ou ambiente onde habita o peixe, a água, acaba convertendo a forma dele, levando-nos a refletir que muitas vezes há que mudar o lugar onde se encontra o indivíduo para que ele não apenas sobreviva, mas também alcance o que deseja como sentido da vida.

3.

Andinho de Bulhões

Antes de tudo, deve-se abandonar a ideia de uma heurística subordinada à razão, à medida em que tudo parece aleatório, pouco assemelhando-se às estruturas chantadas na realidade. É como se seus desenhos pontilhados por cores firmes e reverberativas estivessem presentes não para outorgar um sentido, uma geometria ou topografia da realidade, mas para ocupar o plano de fundo do suporte. Tanto é que, cada personagem, com suas cores de uma beleza contrastante, perfazem uma singela harmonia de uma sempre presente linha curva, quer seja um peixe, uma cobra coral, pequenos homens puxando animais ou uma casa esplendendo em cores brilhantes.

Os suportes também não obedecem ao que conhecemos como telas na sua largura e comprimento. Por vezes, qualquer pedaço de tábua, sem se ordenar em uma determinada geometria, funciona como suporte. Assim como se pegasse por acaso uma qualquer lasca de madeira e tivesse o trabalho de lançar tintas sem obedecer a um eventual desenho. Assemelha-se aos procedimentos da Art Brut — sem cáculo, sem base, sem referência a qualquer espécie de arte. Lança as partes com tintas diferentes, como as formas que estão pintadas nos suportes. Como se quisesse exprimir alguma coisa visceral, que emana de dentro, sem passar por nenhum filtro da razão, do bom senso.

Com efeito, parece mais um improviso, algo aleatório, que o artista mesmo não sabe direito do que se trata, apenas segue as ordens do seu íntimo, largando esses suportes com suas formas e cores em qualquer lugar, apenas para que se registre por meio da fotografia. Sendo assim, estabelece-se uma forma de arte sem nenhuma pretensão, erma, paralisada, como se tivesse cumprido uma obrigação, uma ordem.

Andinho de Bulhões

Após isso, provavelmente retorna ao seu ofício de pescador do Açude Gargalheiras, de Acari, bem como a orientar passeios de barcos de turistas que chegam para apreciar a grande lâmina d’água circundada pela vegetação da caatinga. Acontece que as águas represadas detêm duas paisagens diferentes: a da estação chuvosa e a da estação seca, ambas belas à sua maneira.

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