Uma geração vai, e outra geração vem;
mas a terra para sempre permanece.
E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar,
de onde nasceu.Eclesiastes, 1:4-5
1.

Ancelmo (Currais Novos, 1965) é autodidata. Começou desenhando ainda na infância. Sua primeira e única profissão foi a de letrista. Hoje trabalha na internet, vendendo peças para carros e motos antigas. Em 2026, sua pretensão é se dedicar por inteiro à pintura naïf, para que ocorra a boda entre o que ficou adormecido durante muito tempo e sua verdadeira natureza de artista visual.
Bastante eclético, realiza com qualidade tudo o que empreende: escultura em madeira, barro ou cimento; revistas em quadrinhos; serigrafia; ou pintura sobre tela. Foi selecionado para participar da Mostra Internacional Totem das Cores, em 2024 (Socorro, SP). Também participou da exposição coletiva Era uma vez… (2024).
2.
Bem claro que a pintura dita ingênua retém, como é consabido, um horror vacui, quer dizer, um horror ao vazio. Não existe hiato algum, lacuna, fresta ou espaço sem a presença de qualquer elemento; tudo deve ser preenchido em um plano no qual predominam tão-somente o comprimento e a largura. Não existe a terceira dimensão, que seria a perspectiva.
Quase sempre o fulcro da temática pode até encontrar-se em evidência; contudo, ao redor, multiplicam-se abundantemente toda uma sorte de imagens, como se fosse uma espécie de subconjuntos temáticos autônomos, nem sempre conduzindo a lugares semânticos que evidenciem a importância do que o artista busca destacar, fazendo a diferença entre um trabalho e outro, embora mantendo sua dicção estética.
Assim, ocorre esse fenômeno da interdependência de núcleos que têm vida própria, favorecendo para que a temática aparente uma riqueza maior de detalhes, além de constatarmos a ausência de um ponto de fuga que centralizasse a personagem ou o motivo principal.
Na grande maioria, os naïfs orquestram dessa maneira seus quadros. Além de não haver a perspectiva, o desenho, muitas vezes, é subordinado à cor, e não existe a preocupação de irromper com as figuras em sua exatitude realista. Pelo contrário, fazem questão de marcar um lugar para ser antípoda ao realismo, na medida em que operam uma proposta de um mundo, a partir de uma realidade diferente.
Com efeito, estou fazendo essa pequena digressão com o objetivo de definir as características dessa forma de arte não filiada às tradições das Belas Artes. É quase uma regra geral que os primitivos têm apreço pelas cores fortes, evitando os tons. Acabam por ser, além de espontâneos, os que manuseiam com capricho a paleta de onde extraem os tons vibrantes. Em virtude de sua preferência por temas ligados à cultura popular, logram êxito por meio de um esmero que produz o detalhamento.
Antes de qualquer coisa, é interessante salientar suas temáticas mais recorrentes e cujo interesse denota a identidade e o sentimento de pertencimento das classes populares, com seus folguedos, danças, quermesses, feiras. Trata-se da expressão de uma realidade inexistente, de um tempo passado que só comporta essas formas de ser, sentir e agir por meio da memória, transfigurada através da arte e da sua capacidade de reinventar o que seja.
3.
Só para se ter uma ideia, vejamos como se vive hoje em dia. O modus vivendi não passa de um monte de fotografias postadas nas redes sociais, mostrando todo mundo alegre e possuidor de uma grande felicidade. É uma forma de vida artificial, com seus atributos: um deles é erguer uma taça grande com uma bebida dentro, nos ambientes em que tudo que é gente presente, com seu sorriso forçado, é seu amigo; os familiares são adoráveis; na casa de morada repousa o que todos desejariam alcançar; as academias mostram corpos sarados ou roupas delineando o corpo, sempre com a indefectível garrafinha de água.
Urge adequar-se aos paradigmas ansiosamente aguardados para sair do anonimato e resplandecer como os influencers (influenciadores digitais), ditando regras de como viver, debochando das boas maneiras, quando, na verdade, detêm um comportamento extremamente narcisista e infantil, proclamando o desejo de uma uniformidade, como se não houvesse lugar para a diferença, para formas subjetivas de comportamento.
Ainda mais, nesse cenário, onde ficam as pessoas com limitações físicas devido às enfermidades que são muitas, ou os que já nascem para serem martirizados em vida (Síndrome de Down, autismo, dislexia)? Onde ficam os portadores de problemas emocionais, os doentes dos nervos, os ansiosos que necessitam de tomar remédios muitas vezes caros, os chamados esquizofrênicos?
Aonde isso vai parar? Ora, todos já sabem: em uma sociedade distópica, na qual tudo é ficção e condutor para os reinos da opressão, nos quais ocorre a perda da individualidade. Essa sociedade encerra todos os dissonantes, os que não se afinam com os chamados padrões de normalidade, em uma bolha de opressão e humilhação, refratária a qualquer proposta de uma utopia, de edificar um novo mundo, uma nova realidade.
4.
Em suma, só podemos propor essa outra realidade no mundo da arte. É o que Ancelmo faz, e faz muito bem, por sinal. Suas pinturas são de uma alegria amena, repleta de detalhes, com seu leque de cores vibrantes, fazendo reverberar uma forma diferente de encarar o seu entorno, acalentando os sinais que pulsam no seu íntimo, imagens que ascendem de regiões cujo domínio é do inconsciente, o pélago mais profundo, habitado por arquétipos, por estruturas antropológicas, dizendo respeito ao coletivo ou ao que concerne ao individual, à subjetividade de cada um.
Antes de tudo, para tratar da configuração estética de sua poética no ato de formatar as imagens acima referidas, podemos apontar uma das principais características de como expressa os temas dos trabalhos. Há de se remarcar que quase todas têm algo em comum: é o movimento, o ânimo aceso de homens e de bichos.
Mesmo considerando os planos nos quais os elementos encontram-se presentes e separados, imotos (o primeiro plano quase sempre recebe o adorno de flores), o fulcro essencial, quase sempre no meio da tela, é retratado em movimento, seja de homens pelejando com animais, carregando um jumento com ancoretas, seja de um panapaná de borboletas sobre flores.
Farei apenas uma enumeração das telas a que tive acesso, na medida em que já discorri acerca da dicção estética de Ancelmo. Os pontos básicos estão implícitos na descrição de cada trabalho. Reitero que o núcleo contrasta sempre com seu entorno.
Uma casa no terceiro plano, ladeada por árvores com frutos. Um homem a cavalo perseguindo um touro. No primeiro plano, palmatórias em flor. Um lago com quatro pássaros, dois bebendo água e dois sobre galhos, que caem sobre as águas; no primeiro plano uma coroa-de-frade em florado, ladeada por pequenas flores. No fundo, pequenas flores coloridas. Cerca de arame farpado, sol a pino. Flores amarelas e vermelhas. Galo-de-campina, Concriz e Bem-te-vi. Mandacaru em flor, forte contraste entre o azul-céu e o verde verticalizado do cacto. Mandacaru à noite, serras ondulam ao fundo; uma lua cheia ergue-se despótica, iluminando a água azul entre o primeiro e o quarto plano.
Por fim, no primeiro plano, um homem sobre um chão fortemente laranja puxa um jumento carregado com água. No segundo, um rio cheio de peixes, todos desenhados e pintados à vista, como se fosse um grande painel de água, no qual está presente um cardume de peixes. No terceiro plano, quatro árvores com frutos e um sol que deixa tudo translúcido. Em suma, as imagens trazem uma idealização da natureza, enchendo as telas de lugares nos quais tudo é beleza, graça e buscam despertar o ânimo para bem aproveitar a vida.
5.
Ancelmo começou a ganhar sua vida como letrista de empreendimentos comerciais, contudo, não abria letras e palavras apenas por abrir, já deixava entrever que não era algo mecânico para se ganhar dinheiro somente. Sim, era seu meio de vida, seu ofício, mas fazia com tanta dedicação que a expressão lançava seus vetores para a arte.
As fachadas resguardam um esmero, resultando em uma grande harmonia em sua totalidade, quando vistas a certa distância. Prova do seu domínio sobre as consoantes e vogais é que tanto trabalha a chamada letra de imprensa, em maiúscula ou caixa-alta (bastão), quanto a cursiva (como escrevemos, como assinamos documentos, com os signos do alfabeto interligados).
Portanto, muito do que faz de letreiros em lojas ou qualquer empreendimento comercial recebe também uma assinatura evocadora de uma organização estética, fruto da seleção das cores e das formas, enfim, da combinação dos diversos elementos que compõem o conjunto, remetendo ao que nós costumamos chamar, hoje em dia, de intervenção urbana, arte urbana ou pintura mural.
Além disso, torna o comércio uma configuração geradora de empatia pela casa, com seu belo e bom apelo de propaganda que vem a efeito por meio do modo como o artista dispôs a fachada para atrair fregueses.
No caso de Ancelmo, dos seus trabalhos em fachadas, é extremamente curioso como se pode contemplar algo que foi feito com o intuito de ser utilitário ou funcional. Quer dizer, para o proprietário da casa de comércio, não interessa muito essas especulações que o artista fazia involuntariamente. Acontece que, em se tratando de delineios estéticos, fica o dito pelo não dito.
Quem quiser que aprecie o que é belo. Os transeuntes passam sem se aperceberem de uma fachada que causa estranhamento. O artista cria para si, expressando seus sentimentos, sua emoção diante da realidade; parece que não interessa muito se alguém desfaz ou proclama uma retórica de elogios bem fundamentados.
6.
Desde quando não levamos conosco o que sentimos e pensamos? Para onde a gente entra ou sai de um lugar sem a presença das imagens fixadas em nosso íntimo? Assomam involuntariamente. E se o cabra tiver alma de artista, então, tudo conflui para que expresse da melhor maneira a dimensão simbólica, com seu conhecimento de geometria e da arte do paisagismo, interferindo em algo que destoa de uma rua comercial.
Vejamos alguns exemplos de letreiros pintados por Ancelmo. Loja Purina Potiguar Com. de Rações LTDA. Apenas duas cores – o azul-del-rei e o vermelho – foram capazes de compor uma bela fachada. A geometria foi usada com grande cuidado e com o intuito de provocar harmonia na totalidade do conjunto.
O letrista não se contentou com formas puramente abstratas. Em seu minimalismo cromático, introduziu um elemento figurativo: um círculo no qual estão presentes um touro, um porco, um galo e um cavalo, todos representados de maneira realista, deixando claro para a clientela a lembrança dos alimentos provenientes desses animais.
Em seguida, há uma pintura de um rádio de automóvel sobre uma parede, em uma loja que vende acessórios para automóveis (Blumenau, SC). Causa prazer aos olhos de quem passa ou se dirige ao comércio esse rádio repleto dos mínimos detalhes, como se fosse de verdade. Sem dúvida, demonstra o seu domínio do desenho.
7.
Vejamos como se porta diante das obras de arte com três dimensões: comprimento, largura e profundidade. Há um painel em cimento, cru, sem outras cores que não além da cor do próprio cimento. Encontra-se no Colégio Objetivo de Currais Novos, RN. Em alto-relevo, um livro aberto à guisa de copa de uma árvore, como se quisesse sugerir que o conhecimento aprendido na escola fosse algo semelhante a uma planta, que cresce e se desenvolve através de seus galhos.
Do lado direito do livro, está desenhada a fachada do colégio, assemelhada a um castelo, remetendo à História; do lado esquerdo, o pico de Currais Novos, que tem um açude que chamam de Açude do Pico, evocando a Geografia. Ao lado do tronco da árvore, dois cactos: um facheiro e uma palmatória, indicando que se trata de uma cidade situada na região marcada pelo bioma da Caatinga, no Seridó do Rio Grande do Norte.
Todo o conjunto evoca a importância do saber e dos livros para a formação de um cidadão. Trata-se de uma obra de arte com forte conteúdo didático, uma pedagogia que chama a atenção para o que deve ser valorizado, para a importância do estudo e do trabalho como edificadores de um bom caráter.
8.
Outro de seus interesses foi por coisas antigas. Desde sempre lhe chamaram a atenção as peças com as marcas do tempo, com as ranhuras da memória: moedas, armas, carros e motos. Hoje em dia, vende nos grupos de carros antigos peças para esse tipo de carro ou moto. Também, no Mercado Livre, expõe o que possui para comercializar. Atualmente, está montando um Ford 1929. Tem uma raridade intacta: Simca Chambord 1965, de cor verde-escuro (comprado no Recife), e os Ford 1929 (comprados em Jardim do Seridó). Nos dez anos da fábrica desse automóvel, só produziram 44 mil, em 14 modelos. O que pertence a Ancelmo é uma grande raridade.
Em suma, Ancelmo peregrinou por muitas estações dos domínios da arte, para enfim aportar com sua maturidade e experiência na pintura de natureza naïf. É o que pretende, é o que já demonstrou publicamente através das telas e da tradição da pintura ingênua ou primitiva à qual se filiou e que denota uma grande liberdade artística, fruto de uma autenticidade, de um vibrante uso de cores fortes que iluminam seus quadros, trazendo uma idealização da natureza, que parece intacta, não agredida pela cultura. Em virtude dessa sua filiação à tradição naïf, como não poderia deixar de ser, suas temáticas são aquelas em que a presença humana ou a natureza reverberando suas flores proclamam um registro diferente do que seja a verdadeira vida. Edifica uma realidade diferente, repleta de beleza, de um cotidiano cheio de cores vibrantes e com a presença de uma energia vital abundante, irrompendo por todo o espaço de cada tela, multiplicando-se e entornando para fora, para o espectador que, sem dúvida alguma, deixa-se contagiar por um ato de empatia e suave alegria, por saber da existência de uma realidade que é aquela que ele não vivencia.
OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.