Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
1.

Silvo Carlos (João Pessoa, PB, 1978), hoje em dia, reside em Acari. Para lembrar sua trajetória como artista visual, de imediato não há como deixar de evocar ao percurso do poeta Manuel Bandeira. Ambos estão intrinsicamente relacionados ao fato da arte ter surgido e instalado seus sinais, suas necessidades de expressão, a partir de enfermidades. Silvo era agricultor quando adoeceu. Preso aos cômodos da casa, antes de tudo, já detinha um instinto de buscar formas através do lápis grafite e do papel branco. Assim, se expunha a noções que, como todo mundo sabe, é o delineio de uma persona que se lança para os domínios da arte, involuntariamente. Eis que seu quadro de uma enfermidade o obrigava a ter um comportamento resiliente e eivado de silenciosa paciência.
Pausa para a cura, espera para ficar bom, e paciência com um outro tempo que se instalara, não somente com outro nome, mas como outra forma de sentir através da intuição, da emoção. Esse tempo tem o nome de durée (“duração” – é uma noção de tempo não cronológico, dos relógios de parede com seus pêndulos, diferente das horas, escorrendo nas ampulhetas, sua ligeira areia, com pressa, sem dar nenhuma explicação, só sabemos por meio da lupa da razão, a um passar matemático, cuja compreensão subordinava-se a esse novo tempo criado, analisado e interpretado pelo filósofo francês Henri Bergson).
Não tão distante de compreender, para um bom observador do seu próprio corpo, esse tipo de pessoa que tateia sua sensibilidade, tocando partes do corpo, ansiando por sentir — mesmo que no léxico de sua língua — não encontre a nomenclatura ideal ou mesmo aproximada. O que importa é ter consciência de uma forma do tempo bem diferente do tempo cronológico. Esse tempo físico dos relógios de pulso e das torres sineiras das igrejas, que anunciam o passar do tempo, em sonoras badaladas, calculando os expedientes, analisando o que já escorreu ou quanto falta para completar as horas das sombras da noite.
2.
Enquanto aguardava a cura, começou a esboçar desenhos com lápis grafite. Não tendo consciência de uma circunscrição nova em sua vida, um novo ciclo firmava-se involuntariamente, sem nome, sem serventia, ou a que dizia respeito na sua vida. Apenas deixava-se ser manuseado por essa força que o distraia da doença.
Acabava por ser uma espécie de terapia, transferindo as inquietações, o não entendimento do que se instalara no seu corpo. Apenas sabia que iria passar. Só não sabia quanto tempo ia durar essa enfermidade, com manchas de esquisita forma e sensibilidade, espargidas pelo corpo. Porém, não se deu por derrotado. Avançou no exercitar do lápis comum. De garatujas, de esboços de corpos e casas, até uma busca de um desenho mais elaborado, impulsionado por essa força emanada do seu íntimo, sem entender direito o fato de ele ter sido eleito para cumprir essa sina, essa vereda, essa estrada sem saber nem o objetivo, tampouco para onde iria esbarrar.
A certeza era de um ouvir dizer de outros que passaram pela mesma situação, de conversas pousadas sobre sua fronte, em uma esperança como uma estrela a guiar em noites nas quais os nervos não permitiam a quietude de um repouso merecido, após um dia iluminando às reflexões do medo, dos anseios sem saber que futuro as luzes reverberavam como atrozes testemunhas de uma longa jornada, apoiada nos baldrames firmes do incerto. Não conseguia jogar o baralho com suas enigmáticas cartas de ases e paus.
3.
Esse tempo se cumpriu em largura e comprimento, incensando indulgências para que o homem Silvo Carlos atravessasse o passadiço que separava uma data de terra de outra, onde se estabeleceria em uma vida “normal”. Hoje, homem maduro, permanece preso aos desenhos arquitetados com lápis grafite (lápis comum), usando como suporte o papel branco 180g/m² (marca Senninha). Os frutos de uma ocupação que o distanciava de pensamentos relativos ao corpo ergueram-se em uma seara farta de desenhos marcados pela ingenuidade.
Essa sua dicção conforma-se em retratos da paisagem rural, com uma casa erguida quase sempre à distância de quem contempla os elementos presentes, a saber, uma invariante estrada, um caminho que conduz à casa, mas também pode passar ao largo. Outra obsessão são as cercas de arame farpado que seguem as estradas ou circundam o terreno das casas, com suas árvores dando sombra.
A ingenuidade de um traçado preciso nos elementos que concernem às paisagens rurais desperta uma enorme empatia naquele que contempla, pois tudo está repleto de uma beleza detendo apenas os contornos. Não existem cores, o que concorre para a apreciação esses desenhos, restritos somente ao preto e ao cinza, favorecendo um minimalismo, uma simplicidade não fácil de alcançar na obra de arte.
A presença de trilhas em quase todos os desenhos, bem como de cercas e casas ao longe, alternando a topografia dos terrenos, nos conduz a pensar acerca das sendas que a vida nos conduz a percorrer. Essas vias nem sempre são o verdadeiro caminho que nos conduz a um rumo que verdadeiramente objetivamos. Pode ser que talvez tenhamos entrado em uma bifurcação, encontrada na rota uma encruzilhada, e entramos no caminho equívoco, embrenhando-se por uma série que nos lança ao velho adágio “tudo que começa errado, vai errado até o fim”.
Conquanto, a consciência do sendeiro, com tantos carrascos, lajedos, arbustos espinhosos, sem nenhuma árvore para o pouso e o descanso, deve saber do erro, deve retornar ao triângulo da encruzilhada, para, enfim, recomeçar como epidemia, lançando-se ao verdadeiro vagar que sempre fora o verdadeiro. Assim, a vida lacra os olhos, em uma total indiferença, deixando-nos sozinhos à procura do que conduz ao rumo correto, da vera vereda, do que nos concerne, do que diz de nós o que somos e o que queremos.
4.
Vejamos as telas com cores, sem abandonar seus referentes preferidos: os temas voltados para casas erguidas no meio do mato. Curioso salientar que as edificações seguem a arquitetura das casas rurais do sertão do Seridó, com todos os detalhes pertencentes a uma tradição centenária, quando o ciclo do gado adentrava por terras áridas, periodicamente submetidas à fúria de secas.
Contudo, o artista optou por erguer suas casas durante a estação de chuvas ou inverno. Sendo assim, tudo se sagra verde e verticalizado por cactos, tais como o mandacaru. Os caminhos conduzem às casas, com águas paradas à beira da estrada, quiçá lagoas para refrescar os dias quentes. Essas casas têm invariavelmente o pé direito muito alto, com o intuito de se criar um grande vão interno, para adentrar o vento pelas portas e janelas, refrescando em um microclima o interior da herdade.
Há também um sótão, quase sempre usado para armazenar víveres ou objetos descartados do cotidiano da casa. No lado de fora, há uma janela na parte mais alta da figura geométrica que circunscreve os traços principais que desenham o traçado da edificação. Com relação ao telhado, as águas caem sempre para frente e para trás, bem diferentes do que comumente reconhecemos como a forma de uma casa, ou seja, um triângulo equilátero conforma o telhado.
Assim, podemos arrolar alguns detalhes pertencentes a essa tradição do Seridó. Na verdade, tudo rescende a algo funcional, no sentido de que serve para alguma coisa. Contudo, o conjunto desses detalhes: batentes que dão acesso ao alpendre, colunas de madeira para suspender o telhado do terraço, cancela para fechar o cercado onde está o limite da casa e do seu jardim e quintal, bem como o jogo geométrico das fachadas e das linhas laterais, concorrem para uma harmonia, para um equilíbrio de poucas cores e os respectivos elementos que discorremos.
Com efeito, essa harmonia lança esse conjunto para os limites da estética, para a beleza extraída de um minimalismo que só um observador sagaz poderá compreender, sentir empatia, sem conseguir maiores explicações para casas tão no distante não conseguirem refrear os traços de uma beleza resultado de um misto de funcional com fortes traços estéticos. Por fim, resultar, enquanto uma outra realidade, composta com a ausência da figura humana, em uma metáfora de alcançar uma casa de campo, na qual possa evadir-se da azáfama de concentrações urbanas. É com essa proposta que Silvo Caldas, em seus belos e ingênuos trabalhos, conduz a uma realidade de repouso em um campo onde reside a tranquilidade de espírito.
OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.