Revista Arte Brasileira A Metafísica Poética na Arte Brasileira Nilson dos Santos: uma dimensão lúdica da vida
A Metafísica Poética na Arte Brasileira Arte é política Artes Plásticas Entertainment Especial Exposição Extras Geral Literatura Livro O mundo pela arte PARA SE INSPIRAR

Nilson dos Santos: uma dimensão lúdica da vida

1.

Nilson dos Santos

Há artistas cuja obra não nasce apenas da técnica, nem do aprendizado formal das escolas de belas-artes, nem muitos menos do convívio com museus, galerias ou tratados de estética. Com efeito, existem pintores cuja paleta parece ter sido retirada diretamente do chão onde viveram, como se as cores lhes chegassem pelas frestas da infância, pelos ventos quentes das estradas de barro, pelas paredes caiadas das casas antigas, pelo rumor das feiras livres, pelo aboio distante cortando a vastidão do sertão a dentro. Assim sucede com a pintura de Nilson dos Santos (17.06.1970).

Sua obra não se organiza somente como representação imagética de cenas sertanejas. Ela funciona como uma espécie de arquivo afetivo do imaginário nordestino, um reservatório de memórias coletivas onde a figura humana, os animais, os brinquedos, os casarios, os cactos, as árvores e os céus excessivamente azuis não aparecem apenas como objetos visuais, mas como signos de pertencimento.

Cada tela parece guardar uma pequena cosmologia do interior, um microcosmo no qual o Sertão deixa de ser apenas espaço geográfico para assumir uma condição de território simbólico.

Na verdade, o Sertão nunca foi somente uma paisagem física. Desde Euclides da Cunha, passando por Guimarães Rosa, Câmara Cascudo e tantos outros intérpretes do Nordeste, o semiárido tornou-se também um espaço mental, um lugar onde o humano testa sua resistência diante das intempéries da realidade do nosso entorno. Nilson dos Santos não escolhe representar o Sertão pela via da tragédia absoluta, nem pelo excesso de dramaticidade tão recorrente em determinadas leituras da região. Sua pintura prefere outra direção: a do afeto, a da delicadeza e a da permanência. De toda maneira, mesmo quando o chão exerce sua aridez, vigorando a dimensão da ausência de chuvas, outorgando à paisagem o fenômeno das secas, as figuras respiram ternura.

2.

Nilson dos Santos

Há qualquer coisa de infância persistindo nessas telas. Não uma infância cronológica, dessas medidas pelos calendários e pelos relógios da vida ordinária, mas uma infância enquanto estado de imaginação. Como se o pintor houvesse preservado dentro de si um núcleo intacto do menino sertanejo que observa o mundo com espanto e simplicidade.

As crianças empinando pipas, as mulheres segurando bonecas, os pequenos agrupamentos humanos, animais no terreiro, os quintais coloridos: tudo isso organiza uma gramática visual da memória. É como se as pinturas dissessem silenciosamente que ainda existe uma parte do Sertão resistindo ao esmagamento da velocidade contemporânea.

O mundo atual, atravessado por imagens velozes, ironias automáticas e excesso de informação, parece desconfiar da pureza. Nilson, ao contrário, insiste numa visualidade que ainda acredita na potência simbólica das coisas simples. Um cacto não é somente um vegetal resistindo à seca. É quase um personagem espiritual da paisagem. Uma casa colorida não representa apenas arquitetura popular. Funciona como extensão emocional dos corpos que a habitam. Uma pipa no céu não é somente brinquedo: é metáfora do desejo humano de ultrapassar os limites impostos pela matéria.

Dessarte, sua pintura aproxima-se do universo da arte popular, não por ingenuidade técnica — termo tantas vezes utilizado de maneira equivocada —, mas porque preserva uma relação não fragmentada entre homem e mundo. As figuras ainda pertencem ao lugar que ocupam. O céu conversa com o chão. Os animais coexistem com os humanos. As árvores parecem possuir vontade própria. As casas não obedecem ao naturalismo acadêmico, mas à lógica afetiva da lembrança.

É mister compreender que a memória raramente recorda o mundo tal como ele foi. A memória intensifica, simplifica, exagera, colore, reorganiza. Nesse ponto, a obra de Nilson opera como um território da reminiscência. Suas telas parecem pintadas não pela observação direta da realidade empírica, mas pelo filtro emocional do vivido.

3.

Nilson dos Santos

Existe ainda uma geometria silenciosa organizando essas composições. À primeira vista, o observador desatento pode acreditar tratar-se apenas de cenas espontâneas, livres de construção formal rigorosa. Contudo, basta um olhar mais atento para perceber o equilíbrio interno das imagens. As casas distribuem-se em blocos cromáticos sustentando a composição. Os personagens ocupam lugares estratégicos. As árvores verticalizam determinadas áreas da tela. Os vazios respiram entre uma figura e outra. Nada parece excessivamente casual.

Como ocorre em certas manifestações da chamada pintura naïf, existe uma inteligência intuitiva da organização espacial. O pintor compreende, mesmo sem verbalizar teoricamente, que toda imagem necessita de ritmo. Assim, as cores quentes avançam enquanto os azuis estabilizam o olhar, as linhas simples conduzem a percepção; os pequenos detalhes retardam a contemplação, fazendo o observador permanecer mais tempo diante da cena.

A arte popular possui justamente essa característica: ela não nasce subordinada aos tratados acadêmicos, mas tampouco ignora completamente as necessidades formais da representação. Há um saber implícito, transmitido pela prática, pela observação e pela repetição dos gestos. O artista aprende com o próprio fazer, como o oleiro aprende a espessura correta do barro ou como o vaqueiro aprende o comportamento da terra apenas observando o movimento do tempo.

Nilson dos Santos parece pertencer a essa linhagem de criadores que organizam o mundo através da experiência sensível. Suas cores possuem temperatura.

Há vermelhos que lembram o calor das telhas queimadas pelo sol do Seridó. Há azuis semelhantes ao céu imóvel das tardes de estiagem. Há verdes que surgem não como abundância, mas como resistência diante da secura. Mesmo os tons terrosos parecem respirar. Tudo isso sem perder certa delicadeza lírica.

4.

Nilson dos Santos

Também merecem atenção os aspectos narrativos dessas pinturas. Cada tela parece conter uma pequena história interrompida. O espectador chega sempre no meio de alguma coisa: uma brincadeira, uma conversa, um deslocamento, uma celebração. Existe um antes e um depois sugerido pelas imagens. As figuras nunca aparecem completamente isoladas do tempo. Elas pertencem a uma continuidade invisível.

Talvez seja exatamente aí que resida uma das forças da obra.

Em vez de monumentalizar o Sertão como espetáculo exótico, Nilson o humaniza. Sua pintura não transforma o Nordeste em peça folclórica para contemplação distante. Pelo contrário, aproxima o observador da dimensão cotidiana das vidas simples. E simplicidade, aqui, não significa pobreza estética. Significa depuração.

As cenas parecem reduzidas ao essencial. Não há excesso de elementos. Não há barroquismo ornamental. Há apenas aquilo que precisa existir para que a memória permaneça respirando dentro da tela. Como certos poemas breves que, com poucas palavras, conseguem sugerir uma vasta paisagem emocional. Nesse sentido, o trabalho do artista aproxima-se muito mais de uma poética da permanência do que de uma estética do espetáculo.

Enquanto o mundo contemporâneo acelera imagens até torná-las descartáveis, Nilson produz imagens que pedem repouso. O olhar precisa desacelerar diante delas. É necessário algum silêncio interior para perceber a quantidade de afetos depositados nas pequenas figuras, nos animais, nas árvores tortas, nos telhados inclinados e nas ruas estreitas.

5.

Nilson dos Santos

O Sertão brasileiro, sobretudo o semiárido norte-rio-grandense, sempre conviveu com o risco da invisibilidade cultural. Durante muito tempo, os grandes centros econômicos insistiram em representar o interior nordestino apenas através da carência, da seca extrema ou do atraso. Entretanto, artistas populares como Nilson dos Santos realizam um movimento inverso, devolvem dignidade simbólica ao cotidiano sertanejo.

Quando um artista registra brincadeiras infantis, pequenas casas coloridas, mulheres conversando ou paisagens do interior, está afirmando que aquelas existências possuem valor imagético, histórico e afetivo. Está dizendo que o Sertão produz beleza. Que o semiárido não é somente lugar de ausência, mas também de invenção sensível. A arte popular nordestina sempre compreendeu isso.

Das xilogravuras dos folhetos de cordel às esculturas em madeira, dos ex-votos às pinturas murais, existe uma longa tradição visual organizando simbolicamente a experiência do povo nordestino. Nilson dos Santos inscreve-se nessa linhagem. Contudo, sua singularidade reside justamente na suavidade de sua abordagem. Não há brutalidade em suas imagens.

Mesmo quando o chão parece seco, existe um horizonte afetivo sustentando as figuras, como se o pintor soubesse que a sobrevivência humana depende também da capacidade de imaginar beleza em meio às asperezas do mundo.

Assim, suas pinturas tornam-se pequenas reservas de sensibilidade. Funcionam como cacimbas simbólicas num tempo excessivamente árido de espírito.

6.

Nilson dos Santos

Talvez por isso suas obras despertem uma sensação tão imediata de reconhecimento. Quem nasceu no interior nordestino identifica rapidamente os signos ali presentes: o terreiro, o vento quente, as roupas simples, os brinquedos improvisados, os animais soltos, os muros baixos, os quintais silenciosos das tardes demoradas.

Mas mesmo quem nunca viveu no Sertão consegue perceber a humanidade dessas cenas, porque a pintura de Nilson dos Santos não fala apenas de uma região. Fala da necessidade universal de pertencimento. Fala do desejo humano de guardar lembranças antes que o tempo as dissolva. Fala da tentativa de preservar pequenos mundos afetivos contra o esquecimento.

Talvez seja esse o papel mais profundo da arte. Não apenas representar um outro real, engendrando uma realidade e sua respectiva leitura e forma de viver, mas impedir que determinadas experiências desapareçam completamente.

Quando observamos suas telas, sentimos que alguma coisa insiste em permanecer viva — uma infância coletiva, um modo antigo de convivência, um tempo mais lento, uma relação ainda íntima entre homem e paisagem. No fundo, suas pinturas parecem dizer que o caráter impresso em ícones extraídos sertão a dentro não acabou. Ele continua respirando, pulsando sua paleta de cores vívidas, apresentando uma outra maneira de encarar a vida, como se conseguisse extrair, mostrando as personagens das telas, uma permanente dinâmica de formas, cores e texturas.

Sendo assim, nos imprime questões básicas acerca da condição humana, ou seja, a busca de, ao pertencer aos signos do entorno de determinado topos (modo, tema, assunto), também aparece um modus vivendi. No caso dessa série, uma plêiade de maneiras de matar o tempo, de se entreter, de tornar a vida mais leve.

Enfim, Talvez possamos afirmar de como o corpo e o espírito necessitam desses hiatos de instantes cujo ritmo é fazer do cotidiano algo um tanto mais suave, que traz em si uma resposta menos ansiosa e representa, como em uma peça de teatro, no qual a vida vem a ser de um outro modo.

Ademais, a arte, desde sempre, resguardou esse pendor para que, eventualmente, possamos imprimir um outro olhar ou sugerir outras formas de contemplar a dinâmica da vida, com seus momentos de festa, quando ela surge para elevar loas à alegria, com suas suaves asas de esquecimento do real empírico. A arte tem o dom de fazer reverberar esse sopro de alento, para que continuemos firmes diante das alternâncias do cotidiano.

Voltemo-nos à antiga Grécia. É suficiente observar como estava organizada a linha que simbolizava a trajetória da vida entre os antigos gregos: linhas justapostas em ângulos de 90°, perfazendo o desenho de uma linha que ascende, segue reta e, em seguida, desce perpendicularmente. As duas linhas paralelas à linha superior, à guisa de platibanda, representam a ascensão e a queda como dimensões intrínsecas e integrantes da condição humana.

 

 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

Sair da versão mobile