felicidade de
um anjo com
um rosto sérioModigliani
1.
A estampa colorida, justaposta como se fosse cortes de um tecido, estando presente uma profusão de elementos, é o primado do requintado e diferente trabalho da artista visual Ariel Guerra. Sua paleta pictórica multidiversificada em cores claras, esquece o desenho e elege as cores como o atributo a ser responsável pelo contorno de personagens, objetos ou paisagens a ser apresentados. Bastante curiosa essa não presença do que seria mais primário, o riscar como esboço quando se trata da arte da pintura. Basta lembrar como opera uma criança, embora o desenho também desponte como o que risca pelas paredes ou folhas brancas.

A artista — quando nos deparamos com sua obra — parece nunca se contentar com as séries que pinta: pode ser grande internamente, com suas telas retratando a mulher quase sempre no campo, mas também trabalha com maestria em arte urbana (pintando partes de prédios), em murais que também podem fazer parte de uma parede. Outra beleza são as pinturas de um pátio interno inteiro, pegando três paredes e demonstrando sua dicção como um manancial de arte que parece não se esgotar. É como se fosse uma mescla de razão e intuição, nunca deixando-se repetir. O tédio resolveu habitar outras paragens, longe dessa jovem mulher.
Evoco como se gestou o Movimento Cubista, citando apenas — a título didático — dois dos seus principais mentores: Pablo Picasso e Amedeo Modigliani. Esses dois estuários deságuam em um mar cujo caudal fora, desde os primórdios das vanguardas, uma corrente abundante em quantidade e qualidade, nunca deixando de manar, ao longo do tempo, um fenômeno que parece ser uma seara que não dá conta à sua sega.
Assim, edifica-se a obra de Ariel Guerra, com a presença de rostos assemelhando-se a máscaras africanas, como fizeram os cubistas. Essa presença, essa fresca sombra do cubismo, limita-se ao rosto, ainda mais por que não existem olhos e bocas, os elementos primordiais de um semblante a apresentar os sentimentos, as emoções, o que alguém está sentindo.
Ademais, não foi só nesse estilo histórico que acendeu uma lamparina para iluminar seu trabalho: há um forte travo do estilo Barroco, quero dizer, da presença de toda uma sorte de fragmentos, grandes ou pequenos, a se fazerem justapostos. Não apenas para adornar ou enfeitar mas também para integrar o conjunto, que não apela com exagero para uma epifania ou um despertar de fortes emoções no íntimo, como almejava o Barroco.
Contemplar uma dessas telas, nas quais predomina uma semiótica de imagens extraídas do mundo rural, muito mais conduz a um estado plácido, outorgando àquele que contempla uma serenidade evocadora de outra realidade, a que provavelmente não é a dele, não é a nossa, tampouco o futuro anuncia alvíssaras. Cronos parece que amolou seus punhais de cortar tempo, deixando a humanidade solta ao léu. A morte agora perdeu sua cadência medida por idade ou determinadas enfermidades. No Ar do nosso Tempo, vale tudo.
2.
Não precisa se deter em demasia sobre grande parte de suas telas para constatarmos a presença de uma invariante que se dobra e desdobra em tantas formas que parece não haver cansaço em se retratar: a presença da mulher, que varia em todo tipo de trabalho ou divertimento, com animais ou silentes descansos no campo ou na casa, portando atributos de signos atribuídos desde sempre ao feminino. Há ainda figuras elaboradas a partir de estampas retiradas de uma paleta mesclada de cores múltiplas, configurando no conjunto uma fina estampa que, aos olhos de quem contempla, deixa a pessoa inquieta; também flores e emoções ao lidar com animais.
Com efeito, iremos evocar o “Eterno feminino” de Goethe, conceito que aparece no final da peça de teatro Fausto. Antes, gostaria de lembrar um dado biográfico da artista, reforçando o que depois se segue. Ariel Guerra é de Caicó, porém, sempre passava temporadas no sítio da sua avó. Isso talvez explique a presença de símbolos rurais na maioria dos trabalhos.
O Eterno Feminino é uma noção que rege uma reflexão de Goethe acerca de uma força transcendente e criativa, não apenas um contorno da mulher mas também uma espécie de presença em tudo o que nos cerca, seja criando, seja dando formas do feminino como elemento presente ao redor com contornos, ou melhor, com uma aura que impulsiona a tudo em estado de vir a ser: qualquer objeto, maneira, jeito de ser ou que diga respeito ao comportamento humano.

Assim compreendido, refrata o feminino, a mulher, e se expande e se transforma em essência presente em tudo o que nos entorna e causa movimento é o ser e o estar. Essa força subjacente, como se fosse uma energia transcendental, funciona como uma presença que renova a natureza e as relações do humano com seus semelhantes, não apenas sendo mas também transformando o que de um pode vir a ser outro, por meio de outra forma.
Enfim, é como se fosse uma força criativa advinda do feminino. Possivelmente, como dissemos, busca o encontrar mulheres de todos os jeitos e maneiras. Contudo, nunca estão com os traços da face: não vemos olhos e bocas, evocando as máscaras de origem africana de Pablo Picasso e Amedeo Modigliani. Acontece que não imita nem um nem outro. Sucede que apresenta sua própria caligrafia, como ocorre com todo bom artista recebendo influência, sombra, lembrança.
Ou seja, o que faz é dispor os elementos presentes nas suas referências do seu jeito, na sua solução, a partir do seu registro no livro de influências, de uma continuidade que evita que seus antepassados não serem lembrados. Apenas fizemos referência ao Cubismo e ao Barroco.

3.
A série Roçado foi elaborada por meio de uma técnica mista sobre papel algodão: lápis aquarelável, giz pastel, acrílica e pastel oleoso. Essa mescla de meios tornou esses trabalhos, na verdade, uma espécie de homenagem ao trabalho no campo, eivado de uma qualidade de amor ao que se faz, ou seja, se você escolhe um ofício de que gosta, nunca vai precisar trabalhar. A arrumação de frutos ou outras maneiras de apresentar o seu trabalho responde por um sempre silêncio, hirto, como se posasse para uma fotografia. Não há movimento, ou muito pouco, na gramática de Ariel Guerra.
“As mulheres do Roçado são uma constatação. Não são personagens idealizadas, nem são alvos de um retratismo realista. Tampouco são mera nostalgia, lembranças de uma infância reinterpretada. Também não têm a pretensão de ser uma homenagem poética e generalista a todas as mulheres do campo, como se vivessem uma mesma realidade.
Roçado é muito mais que isso: é um estudo acerca da mulher do campo que tem nome, que tem rotina, que tem sonhos, que tem família, que tem conselho. A mulher que colhe a safra do verão e põe para secar. A mulher que chora e ri vendo televisão na casa da vizinha. A mulher que muitas vezes tem razão, mas às vezes não. A mulher que leva a lata na cabeça. A mulher do corpo que entorta, mas que tem força no braço.
Assim são as obras que compõem a exposição Roçado. Mulheres do campo retratadas em situações do cotidiano de maneira honesta, sem os filtros da idealização. A realidade se encarrega da beleza, porque a simplicidade se encarrega da emoção. A delicadeza da artista, ao expressar o universo particular dessas mulheres por meio do seu trabalho, aproxima o observador de uma verdade que ele pouco conhecia” (André Diogo).
Outro significado para Roçado, em se tratando de uma geografia da zona rural, é um lugar cercado onde se aprisiona o gado, onde se planta a lavoura, mas também uma metáfora de tudo o que é utilitário para quem vive no sertão.

4.
Arrisco sem medo de errar, trato do meu gosto, o opus magnum dessa plêiade de séries, murais, grafites requintados é a sofisticação de uma série de 12 trabalhos cujo suporte são placas de madeira de jatobá pintadas com tinta acrílica, intitulada Valha-me. Essa iconografia pertencente aos santos e mártires da Igreja Católica recebeu um tratamento bastante diferenciado do que encontramos no interior das igrejas.
Com efeito, todos receberam seus atributos para eventual identificação. Permanecem os paradigmas de que fez uso desde sempre. As estamparias reaparecem de maneira mais discreta. Todos se revestem de um hieratismo que a moldura da madeira de lei jatobá salientou. De outra feita, o exercício do silêncio também permanece, insinuando o que fomos acostumados a compreender, o que integra os indigitados “santos”, para os que levam a mitologia das religiões como coisa séria.
5.
Por fim, ainda gostaria de dizer uma palavra e meia acerca do “Eterno feminino”. Essa noção destitui os dois papeis, masculino e feminino, historicamente construídos. Não são naturais, e que vêm a ser determinados como dicotomia social e sexual no grande teatro do mundo. Assim visto por essa lente, é muito mais um princípio, algo abstrato, como se fosse uma aura cósmica, regente dos indivíduos e da natureza, uma força a funcionar como o que gesta. Não apenas como a energia criadora mas também como o que possibilita a renovação do que está vivo, fecha seus ciclos, fenece, mas há o devir, a necessidade de potência dos seres.

Essa compreensão do “Eterno feminino” como algo completo em si, como se fosse o ideal além do tempo ou da geografia, vem a ser aquela necessidade de pura transcendência, vigorando no que demanda de uma força feita de pura criação presente na terra e no íntimo de todos os sencientes.
Ninguém melhor para isso tudo elaborar do que a artista Ariel Guerra. Assim como Helena, também mulher arquétipo do “Eterno feminino”.
OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

