Bem-aventurados os teus homens,
Reis, 10:8
bem-aventurados estes teus servos
que estão sempre diante de ti, que
ouvem a tua sabedoria!
1.

José Francisco Borges ou J. Borges (1935–2024) nasceu e faleceu em Bezerros, no Agreste de Pernambuco. O seu ateliê integrava parentes e filhos, despontando, quase todos, como grandes artífices da xilogravura, sendo reconhecidos não só na cidade pernambucana, expandindo a fama para o mundo. A capa do livro de Eduardo Galeano As palavras foi feita pelo nosso artista.
No Brasil, não há como tratar do assunto cordel ou xilogravura sem que se passe ou se evoque a figura emblemática de J. Borges, cuja história de vida é deveras interessante, na medida em que menino já começou a demonstrar seu interesse pelo trabalho; visivelmente precoce para sua idade, começou a confeccionar colheres de pau para vender na feira. Com oito anos, ajudava o pai na agricultura; também trabalhou como oleiro, fazia brinquedos artesanais e vendia cordel.
Portanto, o menino era o que nós conhecemos como “vivedor”, aquela fruta de vez ou inchada que tem pressa em amadurecer. Enquanto isso não acontece no físico, vai alargando seu espaço de se ocupar e ganhar dinheiro dentro do limite de uns tantos talentos inatos. Ora, o que podemos constatar é o fato de que haveria de ser algo importante na vida, haja vista os seus trabalhos como rapazinho, que têm a ver com confeccionar peças utilitárias a partir de uma matéria-prima vinculada à terra: a madeira das colheres de pau ou o barro para transformar em cerâmica.
Há outro elemento presente: o fato de utilizar as mãos, que, no futuro fundaria e edificaria seu definitivo trabalho para com a xilogravura. Parece evidente o uso das mãos? Não necessariamente, de forma tão conclusiva e parcimoniosa, pois não necessitava de mais instrumentos que não a goiva para ferir a madeira e os tacos para receberem o desbaste, configurando, aos poucos, figuras em baixo-relevo, para logo mais receberem o rolo com a tinta.
Consagrou-se como um dos mais importantes cordelistas com o poema A chegada da prostituta no céu (1976), com uma espantosa tiragem de 100 mil exemplares. Em média, um cordel detém cerca de 2.000 exemplares.

Segundo o marchand e colecionador Francisco Francinildo Silva, o ateliê de J. Borges era essencialmente familiar, participando dele como xilogravuristas seu filho Ivan (do segundo casamento), Pablo (filho), Bacaro (filho) e J. Miguel (enteado, filho da sua esposa). Seu irmão, Amaro Francisco, tinha um ateliê próprio. Em suma, todos, à sua maneira, destacaram-se como grandes artífices e artistas da xilogravura.
2.

J. Miguel é enteado de J. Borges (apenas filho da esposa; para o marchand Francisco Nildo, ele seria o melhor do ateliê). Vejamos algumas xilogravuras desse que é parente de J. Borges muito mais por afeição, visto não ser seu filho biológico.
Os motivos que demandam como cada um tem seu traço, seu estilo, sua pegada, ao dominar as goivas com as mãos, são quase sempre os mesmos. J. Miguel introduz alguns referentes que os outros não manuseiam, tais como O Galo valente, digladiando-se com uma serpente em pé. Muito provavelmente deve ter sido encomendada como capa de algum cordelista.
Das obras O Frevo e A Professora tive acesso apenas às versões coloridas, o que é um primor que dá tanto gosto de ver, evocando, o primeiro, o carnaval no Recife Velho. No segundo, há uma lousa com o nome de PROFESSORA; do lado direito, os alunos estão integrados à lição do dia, com a mão direita levantada, denotando entusiasmo e ânsia pelo aprender. Trata-se de uma obra de arte tanto na forma quanto na temática. Com efeito, é uma sala de aula de outrora, quando não havia celulares, quando educar era coisa da família e ensinar a contar, a ler e escrever, bem como os conhecimentos gerais de geografia e história diziam respeito à escola e a seu corpo de professores. Nesse caso, temos uma legítima homenagem àquela que traz o conhecimento e repassa para uma turma animada em aprender. A professora está reproduzida em colorido, bem como os três primeiros alunos mais próximos do birô.

Ainda temos um Bumba-meu-boi, um Maracatu bem mais elaborado, com a presença de personagens do séquito, como o rei e a rainha, quase sempre negros e pessoas vinculadas ao Candomblé (não consigo esquecer do mais importante Maracatu da cidade do Recife, o de Dona Santa, uma mãe de santo do Candomblé).
Enfim, não podemos deixar de discorrer acerca da xilogravura O Galo valente. Não conhecia xilo com essa temática, a de um galo peitando uma serpente em pé, pronta para dar o bote. Nessa obra, o galo ergue-se em sua majestade, como a dizer que não tem medo, que pode medir as forças. O esporão do pé direito já está enterrado no corpo da cobra e o pé esquerdo afasta o corpo do ofídio. As asas em prontidão, abertas para conduzir a força do combate. Do lado direito da xilo, galinhas estão observando, para ver no que vai dar.
Ivan é filho do segundo casamento de J. Borges. Também recebeu a influência do traço do pai. Há uma sua obra, A Vaquejada, repleta de detalhes, mais se assemelha a um desenho do que a um taco que espera o rolo com a tinta visando a ser impressa no papel. O taco já é uma obra de arte, seria até desnecessário o último procedimento, tornar-se xilogravura. O artista difere dos demais por essa delicadeza na arte do desenho.
4.

Amaro Francisco é irmão de J. borges, o único da família que tinha ateliê próprio. Vejamos o que o define como xilogravurista e como se delineia sua dicção estética. De início, podemos afirmar que se rege por uma necessidade de preencher todo o espaço do taco, o que seria uma espécie de tela, digamos assim, na qual não existe qualquer hiato em branco, pois quando a temática primal finda, como no caso da xilogravura com pessoas dançando, Lambada nordestina, ornamenta o plano do fundo erguendo uma enorme casa.
Em seguida, dos dois lados do comprimento do retângulo, ornamenta com pequenas fachadas de modestas casas, com uma porta e uma janela, todas iguais, comprovando o valor de ornamento. Pouco ou nada existe de relação entre as fachadas das casas e os três grupos que estão envolvidos no ato de dançar.
Além dessa necessidade de ocupar todos os espaços do retângulo ou quadrado do taco, outro elemento se desataca na obra de Amaro Francisco, é o movimento. Na xilogravura, quase sempre as figuras estão imotas, paradas em uma inércia relacionada ao tempo, como se aguardassem os relógios trabalharem com seus mecanismos, escandindo as horas.

Com efeito, os motivos retratados festejam uma alegria, no caso da Lambada nordestina, os pés e as mãos estão acompanhando o ritmo da dança, sobretudo das mulheres, sugerindo fazer uma coreografia. O restante dos ornamentos do taco só pode ser o que é: fachadas de casas em uma imobilidade visando tão-somente a preencher as lacunas que sobraram, contornando, por meio de geometrias, o que pode ser o mais simples de uma casa, assemelhando-se a um desenho infantil.
O movimento aparece também na xilogravura Maracatu. O cortejo segue, em compasso majestático e lento, com a rainha sendo protegida pelo pálio, damas de honra a seu redor. Na frente, os músicos tocam no compasso rítmico de instrumentos de sopro e percussão, para o séquito avançar lentamente; quase todos se encontram com as pernas esquerdas fora do chão, sugerindo o movimento de andar com passos curtos do grupo. As ruas estão repletas de gente, de espectadores. De certa forma, também funcionam como ornamentos, no intuito de não deixar qualquer espaço em branco.
5.
No trabalho de Amaro Francisco, podemos constatar um tanto de metonímia nos seus trabalhos, ou seja, faz uso da parte pelo todo. Pressupõe-se que aquele que encomendou a xilogravura, ou o que irá contemplá-la, sabe do todo que é um salão com pessoas dançando lambada, sabe como é um Maracatu percorrendo as ruas do Recife ou já viram uma performance do Bumba-meu-boi em algum festejo popular.
Por fim, temos o Pau de sebo, antiga brincadeira de um tronco alto, circular, ensebado, para fazer escorregar quem ousasse subir até o cume. Lá tinha uma certa quantia de dinheiro. Nesse caso, repete-se o estilo de Amaro Francisco, com fachadas de casinhas preenchendo todo o lado esquerdo do retângulo, ainda com uma planta assemelhada à palmeira ou à bananeira, pois tem um cacho de frutos. Do lado direito, perpendicular, porém, em ângulo mais fechado, descem as mesmas fachadas de casas, com a presença de pessoas, árvores. Não há verossimilhança.
Há inúmeros elementos que estão presentes muito mais como ornamentos, quer ver? Como é do seu feitio: um pequeno animal no terreno, provavelmente um cachorro, duas plantas ornamentais no primeiro plano; a parte superior do retângulo foi preenchida com fileiras de bandeirinhas. Dois meninos mais afoitos tentam subir para alcançar o pico; um terceiro ensaia colocar o pé. Há um homem tocando um tambor, como se fosse para animar a festa.
Assim, não é necessário compor toda a narrativa. Se a xilogravura foi encomendada para ser capa de um cordel, ainda mais isso se confirma, pois, no ato de leitura, encontra-se presente o que vigora na capa, conduzindo o leitor a imaginar como é cada evento discorrido na xilogravura.
6.

Em conclusão, só temos a elogiar o fato de um senhor que faleceu aos 88 anos ter edificado sua casa sobre a rocha do trabalho e da busca de ocupar grande parte da família com uma maneira honesta de ganhar a vida. Ele e seus tantos filhos: Ivan, J. Miguel, Bacaro e Pablo. Ele e seu irmão Francisco Amaro. Todos encaminhados na vida. Ainda mais temos a folgar o fato de, ao mesmo tempo que é algo utilitário ou funcional, as xilogravuras são capas para cordéis ou mesmo impressas como gravuras para a venda avulsa de quem estiver interessado, assim como o xilogravurista Samico, de Olinda, que apenas imprimia como obra de arte. O uso de quem adquire – seja para uma capa de livro, seja para mandar colocar uma moldura, pregando na sala de estar –, isso pouco interessa, pois já foi feito, já expressou a demanda de um espírito que sentia a necessidade de transformar sentimentos, de plasmar emoções, escavando a madeira com as goivas e com o necessário silêncio de quem edifica
OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

