Como um pastor, apascentará o seu rebanho; entre os braços, recolherá os cordeirinhos e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente.
ISAÍAS 40:11

1.Jonas Tito (Caicó, RN, 1957) é autodidata. Tudo o que fez e continua fazendo parte de uma anterior curiosidade das técnicas e de impulsos que o conduzem a elaborar ditos que necessitam serem expressos. Feito verdade o que digo, feito assim sem necessidade de prova, para a arte emergir de geografias riscadas em esboços no âmago de um indivíduo, basta uma desculpa. A arte só quer uma desculpa. E esse artista teve, pois logo cedo surgiu uma oportunidade de trabalho.
Descobriu por si mesmo um talento que era o de pintar letras e desenhos gráficos em estabelecimentos comerciais nas fachadas. Podiam ser figurativos ou abstratos. Seu instinto era consultado, encaminhava a proposta aos proprietários, e, sem hesitar, eles aprovavam e depositavam confiança naquele homem que, por meio do semblante e da tranquilidade do corpo, passava assertividade e confiança.
Portanto, tudo teve início como um trabalho funcional, seu ofício, sua profissão para sagrá-lo como um pintor que tinha seus trabalhos dispersos pela cidade, nas fachadas, muros, guaritas, portões de acesso de estabelecimentos comerciais. Contudo, além de passar uma mensagem inscrita visando chamar a atenção da clientela, a arte se achegava sem permissão, fazendo valer sua cota de harmonia, simetrias, justaposição de cores.
Além disso, o que de involuntário havia, o artista aprovava com seu olhar atento e um senso de estranhamento face a si mesmo. Embora nunca duvidasse de que algo chegava de algum lugar desconhecido, ao redor não havia ninguém instruindo ou ordenando a congregação de formas e cores.
Ninguém consegue ver a ponta do nariz, pois está muito próxima. Restava prosseguir e efetivar as encomendas.
2.Podemos realizar uma empreitada acerca da abordagem da obra do artista visual Jonas Tito. Concerne, para efeito de separação e para melhor contemplar o conjunto da obra, dividir em duas grandes planícies estéticas. Ambos os trabalhos foram elaborados com tinta nanquim da China, comercializadas nas cores verde, amarelo, azul, preto e branco. Em alguns trabalhos também foi usado o carvão. Em primeiro lugar, os trabalhos elaborados com tinta nanquim da China, nas suas cores básicas de preta e sanguínea.
Em segundo lugar, os trabalhos de uma maior complexidade estilística, também fazendo uso da nanquim e suas cores, mesclando um expressionismo muito singular, eivado de cores e adornos evocadores do Barroco, engendrando o pictórico e as formas em uma harmonia de uma individualidade estética elaborada a partir de meios não muito comuns. Poucos são os artistas do Rio Grande do Norte que conseguem se sair tão bem no uso da tinta nanquim da China como o artista de Caicó Jonas Tito. Tive acesso a poucos com tanta maestria e precisão no trato, resultando em trabalhos de uma grande individualidade e originalidade no resultado.
Ademais, o artista trouxe para o mundo da arte visual um componente temático que eu nunca tinha visto: a retratação de ruínas de casas de taipa.
3.De início, podemos dizer e apreciar o engenho e a arte feitos a bico de pena com nanquim da China e suas cinco possibilidades de cores. Desnecessário se faz o que vem a ser tema, importa o custo de domínio do desenho e a habilidade, com extrema maestria, de fazer contemplar casas de taipa destruídas e abandonadas pelos ermos dos caminhos e enclaves do que fora antes morada, provavelmente de famílias modestas, sobrevivendo, quando havia inverno, dos pequenos plantios de culturas sazonais.
Por outro lado, há que compreender e refratar essa rememoração de uma história por trás das ruínas. A arte não se propõe, na sua grande maioria de artistas, a remeter para as dimensões do engajamento político e social.
Quando isso sucedeu, por exemplo, no Realismo Socialista (União Soviética, 1930-1960), não se sustentou como proposta de uma arte engajada, voltada para uma eterna denúncia das misérias da vida social e de uma sua superação por meio de uma forma de organizar a sociedade e chantar uma vigilância em todos os níveis de relacionamentos sociais ou maneiras de agir e se comportar. E inexoravelmente havia uma estrela vermelha a contemplar e seguir (que deu no que deu: em nada!).
No que concerne ao desenho das ruínas de casas de taipa, podemos atentar para um entendimento de que nada mais é do que puro pretexto para exercitar o nanquim com suas possibilidades por meio de cinco cores.
Quando se trata de uma arte legítima, perfilando-se através de mãos exatas a configurar um desenho monotípico, não interessam retóricas para justificar o motivo pelo qual as casas de taipa, em suas ruínas, exponham suas vísceras, suas linhas principais de como era, assim como eram seus habitantes e o modesto que a tudo recobria, com sua parcimônia de um (sobre)viver com tão pouco, com pequenas casas vazias de móveis, apenas as redes nos caibros, aguardando o chegar da noite para espanar a fadiga de corpos lassos lanhados por sóis inclementes.
4.Mais o que é mesmo uma casa de taipa ou de pau a pique, para, ao declinar sua estrutura a partir do abandono expor restos do que fora morada. No caso dessas representadas por meio do nanquim, é de identificar o caráter provisório, um tempo passageiro, subordinado às intempéries das secas periódicas, restando o total abandono.
Existem casas de taipa que duram séculos, como sucede em alguns estados do Brasil, sendo a moradia vernacular. Há também que se reportar ao fato de ser uma herança ancestral, tendo surgido na África, passado pela Europa e aportado no Brasil através dos portugueses. Ficou mais conhecida como habitação da região Nordeste, considerando a pobreza e a possiblidade de a qualquer momento arribar por conta das secas.
Diminutas, pareciam que a qualquer hora seus moradores não mais ali estariam, saindo pelo meio do mundo, com filhos pequenos, buscando guarida, compaixão ou um qualquer ofício que os fixasse em uma nova terra. A capacidade de aprender qualquer trabalho é apanágio desses estoicos sertanejos, cujos baldrames sustentam tanto físico quanto mentalmente. Vigora, sim, a consciência de quem tem em casa crianças aguardando o alimento, como se nada mais tivesse na existência.
Essas edículas, construídas com barro e com estrutura de varas entrelaçadas, resguardam determinados benefícios, tais como manter a temperatura interior sempre fresca. Quando bem elaboradas, são moradias de grande rusticidade, com grande tempo de duração e, como dissemos, conforto térmico. Diante do calor diurno, mantêm o frescor, bem como temperaturas amenas durante a noite.
O artista soube manusear o branco e o preto (ou a cor sanguínea), deixando um grande lastro em branco ao redor das ruínas das casas, como se quisesse ressaltar apenas a solidão e o abandono. Quer dizer, tudo que é impossibilidade de recomeço, tudo o que encerra seu ciclo de tempo, tudo o que detém a aura do que existiu, com a certeza íntima de seus moradores, com uma certeza no espírito sem gosto pela vida, sem afã pela chuva que caía.
A precariedade, os carimbos do destino com seus selos implícitos de uma jornada diária proclamavam a brevidade de um pouso ali aguardado. Os tabeliães da deusa Fortuna apressadamente colocavam suas ilusórias assinaturas de que “tudo era verdade e dou fé”. Pode ser até que pensassem que essa casa de taipa sem maiores elaborações ainda excedesse o que os oráculos íntimos faziam saber, como um tarô sem prenúncios de primícias ou alvíssaras.
Com efeito, há um realismo no uso da nanquim. Essa tinta opaca, e, via de regra, de qualidade, detém um desenho intenso que faz vibrar as cordas de um realismo que chega a ofuscar a vista de quem contempla. Aqui, na retratação dos restos das pequenas herdades, revelando as vísceras, de varas e vigas, foi de extrema pertinência, haja vista ter feito ressaltar as linhas e detalhes de natureza mais fina.
6.Por fim, gostaria de comentar um pouco os desenhos coloridos, apenas com a tinta nanquim da China, nas seguintes cores: verde, amarelo, azul, preto e branco. Todos os trabalhos têm em comum uma opulência de adornos, circundando a personagem que se encontra no fulcro, quer seja um homem dedilhando um violão, uma linda menina de olhos azuis, pessoas em um ateliê de pintura ou homens em um bar noturno.
Mais nada supera, mais nada consegue alcançar, mais nada se iguala à sua opus magnum. Isso mesmo. Um inusitado D. Quixote de la Mancha (Miguel de Cervantes, 1547-1616) em uma pose nada convencional. Ele está em cima do jumento de Sancho Pança, só que não é montado, mas deitado, com o espinhaço em cima do corpo todo do animal. Há uma simetria bilateral na tela. Metade dela, a parte essencial, onde Sancho está sentado no chão, enquanto o Engenhoso Fidalgo apronta mais uma das suas mirabolantes ilusões. Os tons variam em torno do ocre e suas adjacências. Nessa metade predominam, repito, os tons de ocre e o branco refletindo um sol a pino, lançando ambos ao campo simbólico da terra, do corpo, da carne, do empírico, do que estamos subordinados com o nome de realidade, de tudo o que se relaciona ao cerne da personagem Sancho Pança.
Nesse trabalho, o que fora a narrativa inteira (no livro), domínio antípoda do azul, presente no verticalizado D. Quixote, ocorre uma inversão, ou melhor, uma inclusão da saída do Cavaleiro da Triste Figura, para os domínios da razão, do bom senso, do compreender através dos fatos, lugar ocupado por Sancho montado em seu modesto jumento. Enfim, Jonas Tito aparece e mostra seu trabalho com tinta nanquim da China, perfazendo por meio de poucos trabalhos um grande domínio dessa técnica bastante antiga, tendo a exata inteligência de dispor em cena seu desenho de um esmero dificilmente alcançável. Faz saber, com grande modéstia, os torneios capazes de gerar uma infinidade de tons a partir de somente cinco cores. O certo é que, quando existe o verdadeiro talento, pandas velas amealham qualquer sopro de vento, criando cernes de cenas para protagonizar belos desenhos como os encontrados aqui.
OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.