O que é preciso é ser-se natural e calmo
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda
1.

Nildo Câmara (Natal, RN, 1952) tem uma trajetória de vida digna de ser registrada e admirada. Dela é possível extrair essências de suaves incensos existenciais, para quem interessar ou para quem ainda se compraz em buscar os caminhos adjacentes da sabedoria. Calmo, relata qualquer espécie de assunto.
Vemos como tudo se deu. Trabalhou como pintor industrial. Presenciou, na empresa em que trabalhava, O Grilo, um pintor muito famoso em Natal fazendo letras. Aprendeu a abrir letras com este pintor. Depois, foi trabalhar como pintor letrista na Petrobrás, em uma empresa terceirizada, tanto nas plataformas de petróleo quanto em terra. Era um trabalho árduo, pois passava 14 dias no mar e 14 dias em terra.
Dessa maneira, não perdia tempo em ganhar o seu dinheiro honestamente. Ademais, gostava desse manuseio com as letras. Fazia placas para empresas da construção civil, onde adquiriu muito conhecimento e teve vontade de trabalhar como pedreiro. Então, passou a trabalhar por muito tempo como pedreiro de acabamento, até que, enfim, aposentou-se. Contudo, mesmo sem o trabalho formal, continuou a atuar na empresa Moura Dubeux até 2019, quando fez um acordo para sair.
Foi aí que iniciou seus trabalhos como artista visual. Não fez curso, tampouco teve um mestre. Tem um bom amigo a quem recorre quando surgem dúvidas: o artista visual Aluísio Fernandes Pernambuco.
2.
Percebemos, através do seu relato de vida, uma fala sincera, assertiva e transparente, exaltando o valor do trabalho honesto como a forma mais sensata de se ganhar a vida, o pão de cada dia. Não como discurso preparado, mas como o relato de uma experiência de vida que se construiu através de um ofício: o de abrir letras. Durante muitos anos, não tinha consciência de que o trabalho de abrir letras nas plataformas da Petrobrás, no mar ou em terra, já era a presença da arte buscando um meio de se expressar. Sua caligrafia ninguém podia botar defeito. Estava habitando o mundo digital (oposto ao analógico), com seu alfabeto, criando sílabas, depois palavras. Alcancei alguns pintores de parede que depois se tornaram artistas visuais.
Via de regra, fazia tudo com esmero, tanto que ficou conhecido em seu meio. Entretanto, a arte quase sempre se manifesta por meio de um desassossego do espírito, mesmo que essas pulsões não interfiram diretamente no cotidiano de quem é assinalado logo cedo para cumprir, no roçado das imagens e dos símbolos, a faculdade de se expressar por meio do que integra o discurso estético. É como se fosse determinado a capinar a gleba de terra com a enxada do talento e de uma aptidão que ninguém pode barrar, seja qual for o desejo de outrem ou da própria pessoa. Ora, tudo concorria secretamente para conduzi-lo às veredas que o levariam ao campo do seu pendor.
Os diversos trabalhos por que passou eram como etapas para um devir que só seria outorgado a ele como homem maduro. Até parece que esse mundo futuro de imagens nas telas não era impaciente: deixava-o viver, ganhar seu dinheiro honestamente. Assim, o tempo parecia se cumprir, sendo ele observador do que se gestava, para proclamar, quando chegasse a hora, que seria um artista visual.
A vida tem dessas coisas: veja como cada um caminha por uma vereda longa, através de dias e noites que se alternam, até que, com parcimônia, a vida chega e entrega coisa pouca. É como se quisesse nos submeter ou avaliar o grau da nossa perseverança em algo que nos pertence, de querer tornar concreto aquilo adormecido em nosso ser. Enfim, bom que em nosso artista tudo acabou se alinhando, foi-se organizando no escorrer do tempo na ampulheta.
3.
O artista Nildo Câmara detém bastante consciência dos processos que conduzem a uma anterioridade de aplicar na tela sua técnica de trabalho. Consegue teorizar de maneira categórica, descrevendo os processos que o levam a representar determinada obra. Segundo ele, não utiliza óleo de linhaça nem gel secante. A tinta a óleo demora a secar. Com o secante, a tela trinca. Com o óleo de linhaça, a tela fica amarelada. Uma boa base faz a tela durar muito tempo. Faz uso da que considera de melhor qualidade, a Arcllez.
Exulta em dizer que apenas com uma paleta de seis cores consegue pintar qualquer um de seus quadros: preto, branco, verde-musgo, amarelo-limão e vermelho. Da mescla de uma ou de outra, logra êxito em ampliar as cores para declinar o que busca delinear no suporte. Essa habilidade cromática conduz a plácidas paisagens nas quais o tempo parece estático, com a presença de uma hidrografia.
4.
Há uma série de pássaros que nos são familiares: galo-de-campina, corrupião, xexéu ou japim, coruja, arara-vermelha, quero-quero. Aqui o artista se prova na arte do desenho, garantindo-se como artífice não só da pintura, mas também por meio de uma pegada realista do retrato, evocadora imediata do comportamento dessas aves, com seus cantos e seus maneirismos.
Contemplam-se as verdes paisagens com um viés reflexivo, bandeando-se para pensar que a vida, incorporando o que é natural e belo, deveria ocupar um lugar de maior importância, implicando em uma qualidade de vida mais saudável.
A presença das aves reforça o fato de a paisagem ser completamente natural, com seus campos verdejantes, rios que se estendem por entre serras, adentrando sua lâmina d’água por entre florestas intactas, onde quase nada da cultura humana se encontra presente. Poucas telas apresentam pequenas casas, mas não está presente a figura humana. A cultura, com sua intervenção na paisagem, mudando o que estava em harmonia e preservado, aparece de maneira implícita, pois se há casas, há moradores.
Isso se aplica de maneira explícita em uma cidade como Natal, RN, que tem o hábito de cortar as árvores da frente das casas. A sensação térmica aumentou consideravelmente nas últimas décadas, com asfalto por todo canto e rápida verticalização de edifícios monumentais, que barram os ventos assomados do mar.
5.
O artista Nildo Câmara caracteriza-se por deter uma exímia capacidade de retratar a natureza de maneira que logo desperta a empatia em quem contempla suas telas. Percebe-se vivamente, por parte de quem usufrui de sua arte, uma admiração por aquilo que apascenta o espírito, em plácidas paisagens ainda não alteradas pela mão do homem.
Outorga ao quadro a necessidade constante de observar o que é antípoda ao bulício da cidade, com seu trânsito lento e caótico, e a errância dos transeuntes desassossegados e abusados. Parece que o estar em casa é motivo de uma espécie de culpa ou inferioridade, pois muitos não suportam a rotina geradora de indiferença em relação ao que se passa nas avenidas e ruas.
As redes sociais difundem imagens de uma felicidade sempre presente, como se na vida não houvesse o imprevisto, a inevitabilidade das vicissitudes, as surpresas impostas pelo acaso e pelo que não rogamos suceder.
Vejamos como classificar a obra do artista. Há como organizá-la em dois subconjuntos: paisagens que retratam a natureza a partir de dois referentes. Temos, em primeiro lugar, as paisagens rurais, com seu intenso verde. Em segundo, as paisagens do litoral, com seus morros e quedas d’água.
6.
As paisagens naturais são de uma beleza extraordinária, sobretudo as que ainda se encontram intactas, sem a intervenção do homem, que quase sempre, ao invés de fortalecer o bioma com plantações de árvores e ervas rasteiras, como os capins, para segurar o solo, acabam efetuando a derrubada dos bosques, com o objetivo de semear culturas sazonais. Tudo bem, é necessário, mas poderia deixar um percentual de bosques intactos, para equilibrar não só o bioma, mas também reter os animais naquele lugar.
Algumas telas do primeiro conjunto chamaram-me a atenção. Há uma paisagem retratada com uma igreja em segundo plano, apenas a parede amarela da esquerda e uma torre sineira. No primeiro plano, um gramado límpido em seu intenso verde, pontuado por árvores, sugere passeios ou mesmo o ato de deitar-se sob as árvores marcadas com uma faixa branca, como sucede com as plantas em áreas públicas.
Uma outra tela, talvez sua magnum opus, apresenta um bosque que se abre para a vegetação rasteira: um capim de verde-claro resplandece. Uma nesga de luz adentra apenas no terceiro plano da paisagem, deixando implícito um transparente sol. A luz solar aparece apenas para reverberar, derramando-se sobre parte do gramado, contudo, alumia o firmamento de um azul claro. No primeiro plano, alguns pássaros quero-quero, logo acima, araras vermelhas empreendem voo.
Acredito que somente a arte pode ter essa continência, essa amplitude de edificar um lugar que não existe na realidade, mas que se encontra na cabeça do artista, configurando um locus amoenus, adicionando uma outra realidade ao real. Por conseguinte, também proclama uma crítica às formas de ver e sentir contemporâneas.
Essa é a tela com maior número de planos justapostos: o primeiro plano é o gramado, onde estão os quero-quero; o segundo é um bosque dividido pela intensidade verde do gramado; o terceiro plano são as serras ao longe, ondeando sua topografia; o quarto plano é um céu de puro azul transparente, com as araras vermelhas.
O segundo conjunto são retratações de paisagens marítimas. Seguem a gramática das demais paisagens rurais, ou seja, morros recobertos de vegetação muito verde e um mar que se achega à areia de maneira calma, como se desejasse imprimir no espírito de quem contempla um recolhimento interno, aspirando à maresia, sentindo o sal, pisando a beira-mar com os pés descalços, para se deixar possuir pelas energias tranquilas da terra, em uma busca de encontrar o que é extremamente difícil nos dias atuais: a saúde e o sossego.
7.
Por fim, há que dizer que a obra do artista visual Nildo Câmara se configura como um lugar híbrido, no sentido de que mescla estética e reflexão acerca do modo como a maioria das pessoas está vivendo. Esquecem o que realmente tem valor, o que deveriam buscar para sossegar momentos da vida, o que necessita mudar, mormente nos relacionamentos interpessoais, que estão em extinção e constituem um caminho sem volta, proclamando as áreas íntimas da educação.
Com efeito, é preciso enveredar pela rodagem do que é mais sensato para todos, deixando o excesso de narcisismo, a infantilização, a ausência de uma cultura mediana, para poder estabelecer relações entre os eventos e entre o que se contempla. Deixar de ressaltar os defeitos alheios, olhar para si, e também não ser implacável com as limitações do outro. Afinal de contas, cada um sabe de si. Deus é muito ocupado: preferiu deixar instituída a lei do retorno. Assim, caminhamos.