11 de julho de 2026

Lourdinete: o cárcere que estanca o tempo através de uma realidade outra

Mais digno de ser escolhido é
o bom nome do que as muitas
riquezas; e a graça é melhor do que
a riqueza e o ouro.

Provérbios 22:1
Lourdinete Albuquerque

A produção pictórica da pintora Lourdinete (Cruzeta, RN, 1946) irrompe e nasce de um lugar onde o tempo parece guardar suas próprias reservas de absoluto encantamento. A artista inscreveu e construiu uma trajetória singular e eivada de fôlego estético dentro do universo das artes visuais norte-rio-grandenses, marcada por uma relação profundamente imbricada com as manifestações populares, com as lembranças aurorais da infância e com as imagens que permanecem presas na memória coletiva de uma comunidade.

Com efeito, sua produção, desenvolvida com maestria no campo e no estatuto da arte naïf, revela um rico universo semiótico onde festas, procissões, brincadeiras, folguedos e variegadas cenas do cotidiano reaparecem recusando a cópia ipsis litteris ou o mero registro mecânico de um passado distante. Manifestam-se, outrossim, como acontecimentos plenos de imensa energia e vivacidade, preservados pela soberana força da imaginação e pelo gesto eivado de cuidado de quem transmuta a lembrança e o território em pura e legítima substância visual.

Sua aproximação com o universo da produção pictórica aconteceu de maneira absolutamente inesperada. Após o seu recolhimento institucional e aposentadoria, nos idos de 1988, Lourdinete buscou a Universidade Aberta para a Terceira Idade, imbuída da intenção inicial de realizar um curso na área de línguas. O encontro com os pincéis e as tintas, entretanto, abriu um caminho e uma solução de continuidade inteiramente diferentes daqueles antes imaginados.

Lourdinete Albuquerque

Logo nas primeiras faturas e experiências, sua mentora percebeu uma inclinação natural e intuitiva para a criação visual, identificando em seu fazer plástico o estatuto e as características intrínsecas da arte naïf, o que a levou a incentivá-la a singrar por essa direção. A partir desse preciso instante, em um pequeno quadrado e ateliê improvisado em sua própria morada, a artista começou a trazer para a superfície do suporte aquilo que durante anos permaneceu guardado no labirinto de suas recordações: as festas populares, as procissões, os parques de diversão, as brincadeiras aurorais da infância e os acontecimentos simples que constituem a memória afetiva e o território de um povo.

Inscreve-se algo de profundamente simbólico nesse nascimento artístico tardio. A produção pictórica de Lourdinete parece demonstrar, de forma inequívoca, que determinadas imagens e arquétipos permanecem adormecidos nas regiões pelágicas do indivíduo, aguardando o instante preciso em que encontram uma sintaxe e uma dicção visual capazes de revelá-los e trazê-los à tona. Recusa-se aqui a postura de uma artista que busca engendrar uma memória artificial ou inventar um passado idealizado; ao contrário, sua obra brota justamente daquilo que foi experienciado, observado e incorporado na rodagem de toda uma existência.

A tela na qual realiza seus trabalhos transmuta-se, dessa maneira, em um supremo espaço de retorno, uma pradaria estética e um território afetivo onde aquilo que as pressas do tempo poderiam levar consigo encontra uma nova, firme e soberana possibilidade de permanência, da qual os olhos do observador jamais vão se cansar de contemplar.

A totalidade de sua lavra artística engendra uma espécie de mapeamento geopoético e sentimental do Seridó potiguar. Criações sob a rubrica de “Carrossel”, “Procissão”, “As Lavadeiras”, “Boi de Rei”, “As Cangaceiras”, “Circo”, “Pastoril de Cruzeta”, “Forró no Interior”, “Festa de São João” e “Parque de Diversões” desnudam um persistente pendor pelas vivências comunitárias, por tudo aquilo que aglutina o corpo social em torno de uma efervescência partilhada. A artífice recusa volver suas lentes em direção a episódios de exceção ou cenários apartados da realidade; ela topa com a magnitude precisamente naquelas manifestações enquistadas na rotina comezinha, nas ocasiões em que o agrupamento humano se reconhece enquanto teia coletiva.

Lourdinete Albuquerque

A potência que rege as composições de Lourdinete repousa exatamente nesse labor de resgatar o que o olhar desatento julgaria de menor monta. O folguedo infantil, as marcas coreográficas do pastoril, o lento deslocamento de um préstito religioso, a síncope da música regional ou o congraçamento em um festejo tradicional não se oferecem como registros subalternos, senão como pilares substantivos da condição humana em sociedade. É por meio desses ritos públicos que um povo verte seus vetores axiológicos, seus mitos fundantes, suas táticas de sociabilidade e sua forma peculiar de apreender o cosmos.

Sob essa perspectiva, sua sensibilidade tangencia as veredas que luminares da antropologia cultural. A exemplo de Luís da Câmara Cascudo, se abalançaram a perscrutar as criações do vulgo enquanto matrizes legítimas de sabença e enunciação. O estofo da cultura popular não se resume a um inventário de hábitos arcaicos retidos pela inércia do tempo; ele consubstancia um modo autônomo de raciocinar, fabular e decodificar o real palpável. Um folclore, um auto sacro ou uma recreação de calçada portam sedimentos históricos densos, emblemas e lições repassados de forma ancestral.

Lourdinete parece absorver por via puramente instintiva esse estofo conceitual. Seu pincel não converte tais rituais em fetiches exóticos ou peças museológicas congeladas no ontem. Ao invés de mimetizar a rigidez dos arquivos moribundos, ela outorga dinamismo a esses instantâneos, logrando que mantenham sua vigência no aqui e agora. A cronologia pretérita, em seus quadros, abdica do estatuto de coisa finda e passa a atuar como energia propulsora que fertiliza e redesenha o presente.

Lourdinete Albuquerque

A lavra artística de Lourdinete não se limita, entretanto, a registrar eventos que pertencem apenas ao calendário das festas populares. Há, em sua maneira de arquitetar a imagem, um desejo firme de impedir que certas vivências se apaguem. Não se trata de uma nostalgia que busca restaurar um tempo perdido, como se o passado pudesse regressar intacto ao presente. O que a pintora faz é diferente. Ela compreende que a memória jamais retorna por inteiro; ela reaparece em fragmentos, atravessada pelas emoções de quem recorda. Por essa razão, suas telas não reproduzem literalmente o mundo, mas o recompõem. Cada préstito, cada folguedo ou roda de crianças parece nascer menos daquilo que os olhos registraram e mais daquilo que o espírito conseguiu reter.

Existe uma honestidade muito grande nesse procedimento plástico. Lourdinete não demonstra qualquer preocupação em construir um artifício de perspectiva ilusionista ou em obedecer aos convencionalismos acadêmicos que, durante séculos, ditaram as regras para representar o espaço. A arte naïf, afinal, nunca pretendeu competir com a fatura erudita segundo os mesmos critérios. Sua potência reside justamente na liberdade de organizar o mundo conforme outra lógica, ligada ao afeto e à experiência coletiva. O horizonte deixa de obedecer às leis da óptica para seguir o ritmo da lembrança. O tamanho das figuras varia conforme sua importância simbólica, e as cores abandonam a cópia fiel da natureza para revelar a efervescência que a festa desperta no coração de quem dela participa.

É precisamente nesse ponto que se encontra uma das maiores virtudes dessa vertente artística. Durante muito tempo, alimentou-se a falsa ideia de que apenas a tradição clássica seria capaz de produzir elevado valor estético, como se a ausência de formação acadêmica implicasse necessariamente pobreza de invenção. Lourdinete desconstrói silenciosamente esse preconceito. Sua pintura demonstra que a sofisticação pode brotar da aparente simplicidade, que o rigor pode habitar um traço espontâneo e que a beleza não depende da submissão às regras renascentistas. Sua obra fala outra língua. Um idioma aprendido nas ruas, nas igrejas, nas festas de padroeiro, nos terreiros e nos largos onde a comunidade inteira se reconhece e partilha a vida.

Esse reconhecimento talvez explique a recorrente ausência de personagens dotados de estrita individualização. Mesmo quando cada figura possui seus traços fisionômicos, nenhuma delas reivindica para si um protagonismo absoluto, pois o estatuto do indivíduo dissolve-se no amálgama do coletivo. A efervescência da festa pertence a todos, e a tradição ganha fôlego porque muitas mãos diletas a sustentam. O vulgo deixa de ocupar apenas a passiva condição de espectador para consagrar-se como autor de sua própria permanência no tempo. A cultura popular jamais se deixa formatar pela lavra de um único sujeito; ela nasce da repetição paciente e ancestral de gestos que atravessam gerações, trazendo pequenas transmutações sem perder a sua matriz originária. Lourdinete domina com maestria essa dinâmica comunitária e a converte em pura matéria pictórica.

É precisamente em razão disso que “Pastoril de Cruzeta” assume um lugar de singularidade no conjunto de sua obra. Se os demais suportes perscrutam o território dos festejos, das recreações ou dos ritos sagrados, essa obra promove a feliz confluência de todas essas vivências em uma única superfície pictórica. É como se a artífice ali adensasse décadas de escuta, reminiscências e convívio com o solo cultural do Seridó. Longe de figurar unicamente como sua criação de maior projeção pública, o quadro manifesta o instante exato em que sua dicção visual atinge uma soberana inteireza.

Lourdinete Albuquerque

No horizonte das criações de Lourdinete, “Pastoril de Cruzeta” firma-se, em seu conjunto, como a mais bela e plena testemunha de todos os elementos que definem uma obra de feitura naïf. É lícito afirmar que se trata de sua opus magnum. Não porque se imponha perante as demais pela suposta imponência do tema, mas porque nela parece confluir tudo aquilo que sua visualidade vinha maturando ao longo do tempo. O tratamento dado às personagens, o rigor na estruturação do espaço, a justa medida cromática, a distribuição das partições, a finura do traço e a apreensão íntima da cultura popular alcançam, nesse suporte, uma rara e feliz unidade estética.

Torna-se imperioso reconhecer a existência de um tônus particular nessa composição, algo que lhe confere uma compleição distinta dos demais suportes. Não que a artista tenha refratado seu modus operandi habitual; ao contrário, permanece fiel ao mesmo repertório plástico que costura toda a sua produção. O que ocorre é que cada fragmento parece encontrar, nessa pintura, a exata destinação que lhe corresponde, como se tudo aquilo que antes se mostrava disperso houvesse finalmente alcançado uma arquitetura silenciosa. A tela sugere a busca de uma geometria, de uma ordenação interna que organiza o espaço sem jamais subtrair dele a sua espontaneidade. Há ordem, mas uma ordem que não aprisiona; há rigor, porém um rigor que não asfixia o movimento da festa.

Essa impressão torna-se ainda mais patente quando perscrutamos a estrutura da composição. Lourdinete distribui cuidadosamente a tela em três planos, orientando a mirada do fruidor sem recorrer a artifícios convencionais de profundidade. No quadrante inferior, localiza-se o público: homens, mulheres e crianças acompanham atentamente o desenrolar da celebração. O entusiasmo desse agrupamento humano não decorre apenas do espetáculo diante dos olhos; brota do fato de reconhecerem ali um legado que também lhes pertence. São eles que asseguram a continuidade do festejo, pois, destituída da teia comunitária, a cultura popular perde sua substância. Sem a participação coletiva, não há memória capaz de sobrevier ao tempo.

Lourdinete Albuquerque

O plano intermédio constitui o verdadeiro coração da pintura. Ali estão dispostas as pastoras, os músicos e os demais figurantes que convertem o pastoril em um dos mais belos autos do Nordeste. A dramaticidade da cena não brota do conflito, mas da pura alegria. Celebra-se a natividade através do canto, da dança e do instrumental. A religiosidade sertaneja nunca interpretou o sagrado como uma negação do júbilo, ao contrário, localizou justamente no congraçamento festivo uma de suas vertentes mais intensas de devoção. Perpetuam-se, assim, os corpos em movimento, as saias em pleno rodopio e as jornadas ecoando, como se a ação de Cronos não possuísse força suficiente para romper aquela coreografia ancestral.

No quadrante superior, a cenografia arquitetônica e os músicos complementam o cenário, outorgando à composição uma estabilidade que equilibra a energia das figuras intermédias. Nada se mostra disposto ao acaso, cada figurante participa de uma engrenagem sutil que converte a tela não apenas em registro de um folguedo, mas na enunciação visual de toda coletividade, celebrando a sua própria vigência no tempo.

Essa organização rigorosa configura um dos aspectos mais admiráveis da obra. Costuma-se vincular a obras de feitura naïf a um mero automatismo ingênuo, como se a falta de treinamento escolarizado resultasse, de modo obrigatório, na ausência de reflexão espacial. “Pastoril de Cruzeta” contesta essa leitura ligeira. Sob a fisionomia despretensiosa do festejo, habita uma lucidez silenciosa que calibra pesos, vazios, pulsações e tons com invulgar harmonia. Lourdinete absorve, por via de sua percepção nativa, o que tantos artífices buscaram nos manuais: o equilíbrio não provém do imobilismo, mas da correspondência exata entre os fragmentos e a totalidade da obra.

Lourdinete Albuquerque

A estrita simetria bilateral atesta esse pleno domínio técnico. A superfície pictórica parece cindida ao meio, gerando dois campos de força equivalentes. De um lado, resguarda-se o cordão azul, do outro, o encarnado. Essa partição recusa ser apenas um jogo cromático fortuito, pois cada matriz transporta em si uma densa bagagem simbólica que singrou séculos antes de assentar morada no Sertão do Rio Grande do Norte.

O pastoril assenta suas raízes no teatro popular ibérico da Idade Média. Durante séculos, representações dramáticas inspiradas na natividade singravam vilas da Península Ibérica como parte do ciclo natalino. Com a chegada dos jesuítas ao Brasil, esse repertório cenográfico foi transplantado como instrumento pedagógico de catequese. Todavia, longe de se fixar em uma reprodução estática, o vulgo operou uma vigorosa apropriação desse legado, injetando-lhe síncope, coreografia e soluções lúdicas da cultura local. O auto religioso europeu tendeu a abdicar de seu estatuto estritamente litúrgico no plano empírico para transmutar-se em uma manifestação profundamente brasileira.

No Rio Grande do Norte, com proeminência no território seridoense, essa tradição encontrou solo fértil. Em centros urbanos como Cruzeta, o folguedo transcendeu a mera representação sacra para converter-se em patrimônio afetivo da comunidade. Dissolveu-se a dicotomia entre o sagrado e o profano, amalgamando o teatro, o instrumental e a convivência coletiva. A devoção passou a caminhar emparelhada com o riso e com a estesia das vestimentas. Sob essa ótica, Câmara Cascudo sempre interpretou tais folclores não enquanto curiosidades pitorescas, mas na condição de complexas formas de organização simbólica por meio das quais um povo decodifica a si mesmo.

É precisamente essa apreensão que impulsiona a fatura pictórica de Lourdinete. Ela não representa o auto sob o viés de um inventário documental, mas pinta-o como quem habita a sua efervescência. Existe um hiato profundo entre registrar um acontecimento e coparticipar dele. Sua pintura recusa o distanciamento etnográfico em favor de um autêntico pertencimento: cada figurante ocupa o seu espaço no ritual porque a própria artífice partilha dessa vivência desde a infância.

Lourdinete Albuquerque

Os dois cordões estruturam essa dramaturgia visual, operando como significantes de uma rica teia de significados. O azul, tradicionalmente sob a égide da contramestra, entoa jornadas voltadas à natureza e à contemplação, evocando a serenidade e a proteção do manto mariano. O encarnado, capitaneado pela mestra, direciona seus cânticos à exaltação cristã, vinculando-se simbolicamente à paixão e à intensidade da vida. Durante a performance, ambos alternam loas, desafios e coreografias, estabelecendo uma disputa que jamais promove uma solução de continuidade na unidade do espetáculo. O conflito mostra-se meramente aparente; no fundo, as duas alas confluem para celebrar a mesma matriz originária.

Sob essa ótica, a figura de Diana ascende com uma fulguração quase mítica no enquadramento da tela. Trajando uma indumentária cindida, metade imersa no azul, metade vertida no rubro, ela se esquiva de pertencer inteiramente a um único cordão. Sua função demiúrgica reside precisamente em neutralizar a fratura, impedindo que a dicotomia profana degenere em ruptura insolúvel. Diana opera um equilíbrio sutil, atuando como o verdadeiro eixo cósmico da festa: sua presença recorda que todo agrupamento social carece de vetores de conciliação. Na visualidade de Lourdinete, essa personagem transcende o mero constructo teatral para se firmar como uma metáfora viva da harmonia cósmica. Nada sobra, nada falta. A totalidade do quadro busca o seu ponto de confluência ideal.

Ao redor desse núcleo principal, gravitam outras figuras indissociáveis do imaginário popular. A cigana, a borboleta e o velho cômico introduzem no vórtice do auto uma atmosfera lúdica que sabota qualquer solenidade excessiva. O velho, herdeiro direto dos bufões medievais e dos palhaços de picadeiro, injeta na cena a irreverência necessária para demonstrar que o vulgo jamais apartou o sagrado de sua contraface terrena. A cigana evoca o fascínio do mistério insondável, enquanto a borboleta inscreve na representação uma estesia da efemeridade. É o lembrete plástico de que o festejo, tal qual a fugacidade das coisas humanas diante de Cronos — o tempo devorador — necessita findar na realidade empírica para alcançar o estatuto de imago eterna na memória coletiva.

Há, por fim, uma dimensão frequentemente obscurecida nas análises ligeiras, mas que Lourdinete apreende com agudeza: o fato de que a perenidade dessa tradição repousa no estofo do matriarcado. São as mulheres que modelam os simulacros dos figurinos, transmitem a oralidade das jornadas e preservam o fluxo geracional da manifestação. Existe uma linhagem ancestral feminina que sustenta essa arquitetura afetiva. Sob esse enquadramento histórico, a própria pintora se insere nessa árvore genealógica de guardiãs. Se suas antepassadas perpetuaram o pastoril pelo sopro da voz e pela síncope dos passos, Lourdinete o imortaliza pelo labor de suas mãos. Seu pincel executa o mesmo artifício do canto, resgata a tradição das garras do esquecimento e lhe outorga uma soberana permanência.

À guisa de desfecho, ao cabo dessa nossa imersão contemplativa e possivelmente descortinar outra realidade, evidenciou-se que a produção de Lourdinete almejou de modo involuntário uma transfiguração que vai mimetizar o real que se esgota na mera apreensão ocular. Seu pincel plasma aquilo que teimosamente resiste na interioridade do ser, quando as engrenagens de Cronos parecem decididas a tudo extinguir. Suas telas operam como uma analogia daquelas matronas de outrora que avivavam a chama do candeeiro antes que as sombras do crepúsculo sitiassem por completo o quadrado de morada. Não extirpavam a noite profunda, mas obstaculizavam o seu império absoluto sobre o ambiente.

Lourdinete engendra um ato de idêntica estesia. Seu fazer pictórico acende pequenas fulgurações no tecido da memória coletiva seridoense. Cada préstito sacro, cada ato de pastoril, cada folguedo infantil, cada parque nômade, cada templo e artéria urbana transmutados em tinta convertem-se em um foco discreto de resistência contra o olvido. É por essa exata razão que sua visualidade recusa transitar pelas margens e deambular pelas bermas da existência, onde tantos fragmentos do passado jazem desamparados pelo tempo devorador.

Ela elege caminhar pelo eixo central da estrada, nunca pelas beiradas das rodagens, tutelando um patrimônio afetivo e cultural que permanece encontrando guarida na sensibilidade do fruidor que se detém diante de suas composições. E, enquanto subsistir o olhar que as perscrute, Cruzeta preservará a efervescência de seus autos. A infância perpetuará suas recreações nos largos, os bronzes dos sinos continuarão a convocar a comunidade, e a memória executará o seu milagre mais diletíssimo, o de renascer, soberana, a cada instante em que alguém se dispõe a acolhê-la com a mesmíssima delicadeza com que a artífice, um dia, logrou traduzir o cosmos.

Produzido por alunos do ensino público, Jornal PUPILA CULT está disponível em plataforma digital

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