24 de maio de 2026

Luzia Dantas: permanência do Barroco na escultura popular

Luzia Dantas

A escultora norte-rio-grandense Luzia Dantas (Luzia de Araújo Dantas) nasceu no Sítio Riacho, distrito de São Vicente (RN), em 28 de fevereiro de 1937, vindo a falecer em 12 de fevereiro de 2022. As obras analisadas neste estudo integram a coleção particular do colecionador Francisco Francinildo  (Nildo).

Luzia é detentora de um estilo extremamente singular, pautado sob o signo de uma dicção que em nada se assemelha a outros escultores advindos de uma tradição cujas raízes são o fato de eles serem autodidatas, – refratando quase sempre uma linha de continuidade –, como sucede acontecer na chamada arte de tradição clássica, na qual estilos históricos alternam-se em uma linha temporal. Com efeito, nos artistas indigitados como ingênuos ou naïfs, pelo fato de quase sempre realizarem seus trabalhos com um ethos autodidata, o conjunto da obra acaba por se revestir de um caráter único e, via de regra, detentor de uma opulenta originalidade. Em assim sendo, esses artistas logram êxito em desenvolver uma caligrafia pessoal e original no nível expressional dos seus trabalhos.

Ora, o Barroco não surge no contexto da Contrarreforma? Assim, sua Ideologia congrega todo um conjunto de pensamentos buscando demonstrar o poderio da Igreja Católica e seu cabedal de verdades e dogmas –, sendo este ritualizado de maneira obsessional no rito da Liturgia como sagração de uma história que remontava 1500 anos.

Luzia Dantas

Luzia Dantas insere-se nessa tradição; contudo, caracteriza-se por filiar-se a uma tradição advinda da arte clássica, a saber, o Barroco, que, no caso do Brasil, é um estilo que opera seu número não somente nas nossas artes visuais, mas também vigora desde sempre na literatura, na pintura ou mesmo em artistas como Carmen Miranda.

Mesmo detendo uma fatura não passada por formação escolar ou influenciada por alguém da família, o Barroco imprimiu tento e tino na santeria de Luzia Dantas. Provavelmente teria vindo por meio de antigos santos das igrejas do Seridó, santos de oratório ou mesmo de estamparia em revistas. O certo é que ocorreu na escultora uma forte identificação dessa arte caracterizada por tudo o que excede, pelo exagero, pelo apelo à subjetividade.

Luzia Dantas

Nesse sentido é que se inscreve a obra de Luzia Dantas, caracterizada por um panejamento em dobras, dando a entender que a imagem é maior do que se imagina. Os talhes na madeira de Umburana também demostram o quão dúctil esta pode vir a ser, em uma maleabilidade que torna o conjunto escultórico eivado de uma leveza, evocando o etéreo de uma escultura religiosa de tradição Barroca.

As esculturas de madeira mostram certa leveza no seu conjunto, embora o semblante quase sempre registre um hieratismo nas faces cheias, plenas de silêncios. Os olhos detêm uma espécie de absoluta indiferença com relação a um possível entorno do que é conhecido como real empírico. Há uma estaticidade das personagens esculpidas na madeira, evocando as estátuas da tradição egípcia, como se a escultora havera querido imprimir um caráter eterno nas suas esculturas, ou melhor, como se o divino contido, atributo dos santos e santas retratados, resguardasse uma demanda de adoração ou homenagem por parte do espectador. Luzia Dantas soube escavar a madeira com propriedade, impregnando suas imagens consoante o demandado pela Igreja Católica nos sistemas de exteriorizar o culto dos ícones evocadores de uma sempre reverência, tendo em vista a necessidade de ritualizar a fé como um dos principais dogmas.

Luzia Dantas

Sua obra mostra certa leveza no conjunto escultórico, embora o semblante quase sempre registre um hieratismo, com rostos cheios, porém com os olhos de absoluta indiferença para o entorno da realidade que os cerca, afinal os dogmas da Igreja Católica os colocam em lugares de adoração e louvor, em uma atitude de buscar o pedagógico, servindo de exemplo aos praticantes de determinada fé. Bom evocar seu principal motivo esculpido: as imagens de Santana, que se bifurcam em duas direções, quais sejam: Santana em pé e Santana sentada, ambas com Nossa Senhora menina, sempre com um livro nas mãos, simbolizando uma pedagogia de uma completude cuja aura conteria as tantas virtudes daquela que viria a ser mãe de Jesus.

Eis que atestamos o fastígio do Barroco na arte escultórica de Luzia Dantas. O tratamento dos dois temas acima aludidos reafirma a assinatura desse estilo histórico, tendo em vista que a linha curva é desenhada em inúmeras variações, em uma busca que excede uma possível retratação realista. Haja vista o tratamento manifestado nos resplendores e nas coroas, e mais ainda no cume das cadeiras nas quais Santana encontra-se sentada, cujo efeito decorativo faz saber das formas em S, tanto para a esquerda quanto para a direita.  Ora, o Barroco é o lugar por excelência da evocação a tudo o que concerne à subjetividade, sendo a primazia das variações em torno da linha curva, criando um semblante decorativo por meio de toda uma série de volutas.

Luzia Dantas

Não há qualquer dúvida de que Luzia Dantas é a nossa melhor santeira, detendo uma história de vida pautada por uma imanente força que a impulsionou a elaborar um conjunto de obras conhecidas pelo esmero e pela homogeneidade nos seus traços evocadores da nossa tradição barroca. Há de se declarar, em certo sentido, a originalidade de seu trabalho resultado de uma força advinda do imaginário, plasmado no espírito dessa senhora de origem humilde, fazendo saber que a Arte, como queria Aristóteles, é o resultado de uma dynamis (potencialidade) buscando ser entelechia (atualidade). Alguém pode duvidar que Luzia Dantas e sua obra é resultado dessa boda barroca?

 

Na verdade, o talento, quando sofre o processo de lapidação, leva pouco tempo para assimilar as lições, logo buscando se afastar das dicções e singularidades dos professores. Introjeta a gramática e o vocabulário expressional do discurso estético. Sabendo como se elabora, previamente, o que fora delimitado, conduzindo, ou melhor, elaborando um trabalho não necessariamente seguindo uma lógica de início, meio e fim. Ora, não há acadêmicos e ensaístas que começam um trabalho pela conclusão?

 

 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

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