5 de junho de 2026

Claudio Agá apresenta o álbum “Lugar de Fala”, uma leitura dinâmica da sociedade contemporânea

Não é correto dizer que “Lugar de Fala”, o novo álbum de Claudio Agá, lançado nas plataformas nesse 17 de janeiro de 2025, traz as novas canções do cantor e compositor. As 13 músicas do disco foram compostas entre 2017 e 2019, na pré-pandemia, e talvez ou também por isso jamais haviam sido registradas em estúdio e lançadas no streaming. Como nos trabalhos anteriores, Agá optou por gravar em casa, ele, violão e alguns poucos instrumentos, resultando numa sonoridade “low-fi”, rústica, mas bem próxima da forma como nasceu cada música. A canção como ela é. “Mesmo sem alcançar a qualidade técnica comum no mercado, tenho me sentido mais satisfeito com o resultado final das gravações caseiras dos meus discos recentes do que com alguns registros anteriores, com maior refinamento sonoro”, diz o artista.

É fácil reconhecer semelhança – seja em temática, estilo, som… – entre as composições de “Lugar de Fala” e as 12 faixas do álbum “Eu & Eu”, lançado em 2022, ou as 3 do single “Esse Tal de Brasil”, de 2023. “São músicas da mesma época, daquele momento difícil que passamos, tenso, da polarização política, depois o confinamento…”, contextua o autor. “A pandemia me levou a pular, ou seja, não gravar esta leva de canções entre 2017 e 2019. Isso me incomodava. Decidi e consegui cumprir essa obrigação comigo mesmo e com quem curte o meu trabalho”, acrescenta.

Como a maioria das canções dos outros álbuns que integram a trilogia “Lugar de Fala”, o nome já sugere, é marcado por crônicas e temáticas sociais e políticas do Brasil e do mundo contemporâneos. Seja a legitimidade da voz em questões de preconceito, na faixa-título (“Lugar de Fala”), o medo e a violência urbana (em “Preste Atenção”) ou a polarização política (em “Pau que Bate em Chico” e “Humanos Direitos”). Ou ainda ao tratar dos estereótipos sobre brasileiros do Nordeste (“Nem Paraíba e Nem Baiano”) ou retratar as relações sociais de hoje na favela e entre as comunidades e o asfalto (“O Morro Mudou” e “Foguetório”).

A rotina profissional e desafiadora nas mulheres (“Rê”), as dificuldades das populações vulneráveis de periferia (“Caixa-prego”) e o cinismo na glorificação da beleza negra (“Regra Geral”) são outras visões, entre ácidas e irônicas, da vida nos dias de hoje, em que somos levados seguidamente a sensações de estresse, insegurança e loucura, musicadas e letradas em “Sacode”, “Sinuca de Bico” e “Lé-com-cré”.

Todas as canções são de autoria de Claudio Agá, com exceção de “Rê”, parceria com o também compositor carioca Luis Carlinhos – com quem já fez outras músicas, como “Escapulário” e boa parte do repertório do projeto infantil “Macatchula”. As edições e mixagens foram feitas pelo próprio artista em seu estúdio caseiro, a partir de gravações originais captadas à época (2017 a 2019) por aplicativos de telefone celular, e com inserções de novas vozes e novos violões registrados em 2024.

Em março do ano passado, Agá lançou um trabalho fora dessa linha crítica – ou ‘pandêmica’: “Pra Não Dizer que Não Falei de Amores”, reunindo 13 canções românticas e inéditas. “Com ‘Lugar de Fala’, dou por encerrado o registro desta fase de composições ‘filhas da pandemia’, embora ainda tenha muitas músicas guardadas feitas no período”, conta. “Mas já me sinto à vontade, comigo mesmo, para lançar álbuns com minhas canções mais recentes”, antecipa. Ou seja: em 2025, com certeza, teremos mais Claudio Agá.    

Sobre Claudio Agá

Claudio Agá é cantor e compositor – não necessariamente nessa ordem. Seu instrumento principal é o violão (de nylon, sempre); sua cidade, o Rio de Janeiro, Brasil. Mas na pandemia se mudou para Teresópolis (RJ), na Serra, onde mora, gravou, produziu e finalizou seus lançamentos mais recentes.

“Lugar de Fala” é seu 11º álbum de carreira. Nove deles registram o trabalho autoral do artista no Século 21, de 2002 para cá: 

“CH” (2002, Seven/Sony Music)

“#2” (2005, Seven/Universal Music); 

“Intruso” (2008, Tratore); 

“Vazio” (2014, Biscoito Fino); 

“Cavaqueando” (2017, Tratore); 

“Eu & Eu” (2022, Tratore); 

“Esse Tal de Brasil” (2023, Tratore);

“Pra Não Dizer Que Não Falei de Amores” (2024, Tratore);

“Lugar de Fala” (2024, Tratore)

Em sua discografia, há ainda 2 (dois) discos que, embora lançados no streaming recentemente (em 2024), reúnem parte de sua produção como compositor nos anos 80:

– O single “Dois”, único registro em estúdio do Compartimento Surpresa, banda do chamado BRock – em que era o vocalista. O grupo se desfez em 1987 mas a canção foi digitalizada, remasterizada e relançada nas plataformas de ‘streaming’ em 2024. 

– E “À Luz dos 20 Anos”, compilação de músicas recuperadas em fitas-cassete gravadas por Claudio Agá entre 1985 e 1990. Nas faixas, foram editados e mixados duetos entre o artista e ele mesmo 40 anos atrás.

Na contracapa do terceiro álbum, “Intruso”, lê-se: “Cuidado! este é um disco de compositor”. Um criador de canções, um contador de histórias. O trabalho de Claudio Agá já foi definido, pela crítica musical, como marcado pelas crônicas e narrativas de personagens e cenas atuais no Brasil e no Mundo. “Excelente letrista, dono de soluções improváveis e de uma levada (…) dos novos tempos, como aquele tipo de menina que atualmente cresce nas favelas do Rio, trazendo sangue nordestino e crioulo misturado nas veias”, escreveu o jornalista Álvaro da Costa e Silva. Para João Pimentel, em O Globo, Claudio Agá “navega com firmeza entre os universos popular e pop”. De fato, nos 11 álbuns há MPB, samba, rock, balada… Misturas de harpas com berimbau, guitarras com percussão, bandoneon e gaita e muitos, muitos, violões. Adauto Alves, do Diário da Manhã, em Goiânia, já exagerou: “É um Aldir Blanc com a verve coloquial rejuvenescida”. 

Durante esses 40 anos de jornada na música (o primeiro registro em estúdio, “Dois”, da banda Compartimento Surpresa, data de 1984) trabalhou como jornalista, professor, roteirista e produtor de filmes, cronista e escritor. Mas sem jamais abandonar o ofício que exerce desde os 14 anos de idade: compor canções. “Ainda muito pequeno, decidi que seria escritor. Um dia, folheando uma revista Pop, da minha irmã mais velha, li um artigo sobre Bob Dylan e descobri que a canção popular também era uma forma de contar histórias e retratar o mundo”, lembra. “Ouvi Chico Buarque, Zé Ramalho, Noel, Elomar… E me atirei na aventura de fazer canções. Foi como aprendi a tocar violão, fazendo uma música por dia.”

Vieram os festivais em escolas da Zona Sul do Rio, o Compartimento Surpresa, e acabou se afastando dos palcos, tragado e encantado por outros trabalhos. Mas nunca deixou de compor. Em 2002, esbarrou na rua com o amigo Alex de Souza, que fora tecladista do Compartimento Surpresa e tornara-se músico profissional, tocando e produzindo com Lulu Santos. Foi Alex o padrinho da volta de Agá. “Ele era sócio do Lulu Santos num estúdio e me chamou pra ‘dar um pulo lá’ com o violão. Quando cheguei, uma banda me esperava para gravar, a banda do Lulu”, lembra o artista. 

Nasceu ali o primeiro álbum, “CH”, ainda com o nome artístico de Claudio Henrique. Sobre a troca, aliás, registre-se que não foi motivada por numerologia ou algo do tipo. Um outro Claudio Henrique venceu o reality Ídolos (SBT), em 2012, e começaram os erros e trocas de identificação de autoria nas redes sociais e plataformas. Teve de mudar. 

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Capa da publicação – Crédito: Hudson Malta

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