15 de outubro de 2026

MPF pede reparação de mais de R$ 13 milhões pela venda de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena; essa história é tema do novo single da banda de metal DarkTower

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou em 20 de agosto uma ação civil pública para responsabilizar instituições de Minas Gerais e a União pela venda de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena. Segundo a petição, ao menos 105 pessoas internadas de forma compulsória tiveram os corpos comercializados entre 1971 e 1975 e usados em aulas de dissecção na então Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. O pedido de reparação chega a R$ 13,7 milhões.

O caso voltou ao noticiário na mesma temporada em que ganhou versão sonora. O DarkTower, banda carioca de metal extremo na estrada desde 2006, acaba de lançar “Colônia dos Condenados”, segundo single do álbum “DISSENSU”. A faixa é inspirada em “Holocausto Brasileiro”, livro da jornalista Daniela Arbex que reconstituiu as mortes no manicômio, e trata o assunto não como capítulo encerrado, mas como ferida ainda aberta.

Há material de sobra para isso. Criado em 1903, o Colônia funcionou por mais de 80 anos e recebeu não apenas pessoas com transtornos mentais, mas homossexuais, militantes políticos, mulheres rejeitadas pelos maridos e qualquer um considerado indesejado pela sociedade da época. Cerca de 60 mil pessoas morreram ali e pelo menos 1.800 corpos foram vendidos a universidades. Documentos levantados pelos procuradores apontam que cada corpo saía por 50 cruzeiros, num período em que o salário mínimo no Estado era de 216 cruzeiros.

Além da indenização, a ação pede desculpas públicas formais, um memorial em Belo Horizonte, a digitalização dos arquivos históricos e a inclusão obrigatória de conteúdos sobre violência manicomial e bioética nos cursos da faculdade. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) já haviam se desculpado publicamente neste ano. A Faculdade de Ciências Médicas não chegou a acordo na fase administrativa, o que levou ao processo, e afirmou em nota que sempre cooperou com as apurações e que apresentará suas teses de defesa no momento oportuno.

Do lado da música, a escolha do tema partiu do guitarrista Rafael Morais, historiador de formação e leitor antigo da obra de Arbex. “Trata-se de um episódio abominável, pesado e profundamente doloroso, que precisava ser abordado em um álbum dedicado ao lado obscuro da nossa história”, afirma. Segundo ele, a letra foi escrita ao lado do baixista Rodolfo Ferreira com a intenção de tratar a memória das vítimas com a seriedade que o assunto exige.

O resultado leva o grupo a um de seus pontos mais extremos. O guitarrista Nonu Pirozzi conta que a base nasceu com influência declarada de thrash e death metal e ganhou depois riffs abertos de black metal, acordes menores e dobras melódicas herdadas do heavy metal tradicional. “Minha intenção era criar algo extremo, rápido e brutal”, diz. O contraste entre agressividade e melodia é o mesmo do primeiro single de “DISSENSU”, “Invasão”, sobre invasão territorial e apagamento cultural dos povos originários.

Completado por Flávio Gonçalves no vocal e Gabriel Bastos na bateria, o DarkTower tem no novo disco seu primeiro trabalho inteiramente cantado em português — o que o coloca numa linhagem que passa por Sepultura em “Dante XXI” e por Ratos de Porão, bandas que também transformaram violência institucional brasileira em matéria-prima. A discografia anterior reúne “…Of Chaos and Ascension”, de 2013, “Eight Spears”, de 2016, e “Obedientia”, de 2019, e a banda já dividiu palco com Cradle of Filth, Krisiun e Crypta.

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