8 de outubro de 2026

O Som do Passado: Como os Equipamentos Vintage Estão Reconectando Gerações

Mais pessoas, a cada dia, vão além de um breve lazer em ambientes que fazem da viagem no tempo sua proposta comercial. Não se contentam em vivenciar apenas alguns momentos nostálgicos com a família e amigos em restaurantes, lanchonetes e outros espaços temáticos. O desejo de resgatar lembranças afetivas e experiências sensoriais tornou-se um fenômeno crescente, refletindo um anseio coletivo por uma conexão mais profunda com o passado.

A busca por artigos vintage que emocionam pelo histórico, importância e design segue intensa, seja em casas de presentes, marketplaces ou encontros entre amigos apaixonados por itens clássicos. Mas por que certos artigos estão voltando com tanta força? O que esse fenômeno revela sobre nossa relação com o passado e o presente?

Como seresteiro e produtor de eventos na Serenata & Cia há 23 anos, percebo que a música é um dos principais elos entre o presente e o passado. Através das serenatas embasadas por canções de todas as nacionalidades e estilos, vejo pessoas se emocionarem ao reviver memórias de infância e adolescência. O som de uma melodia pode transportar instantaneamente para momentos específicos da vida, trazendo consigo cheiros, rostos e sentimentos que pareciam adormecidos no tempo.

Para ampliar essa sensação nostálgica, o figurino da trupe resgata a cartola, a casaca, o fraque, as luvas e os chapéus usados em tempos antigos, remetendo ao berço da serenata. Pequenos detalhes como esses tornam a experiência ainda mais imersiva e significativa para aqueles que buscam reencontrar um pedaço de sua própria história.

Recentemente, por uma necessidade pessoal de ouvir antigas gravações em fitas K7, comecei uma jornada em busca de um bom tape deck. Navegando pela internet e explorando lojas físicas, conheci verdadeiros apaixonados por equipamentos vintage como toca-discos, receivers e tape decks. Descobri que, em muitas eletrônicas, os donos estão reformulando seus negócios para atender a uma demanda cada vez maior por esses aparelhos.

Em Guarulhos, por exemplo, conheci Flávio e sua esposa, que se especializaram na venda de equipamentos dos anos 60, 70, 80 e 90. Segundo eles, a procura é tão intensa que decidiram parar de consertar novos equipamentos para focar exclusivamente em modelos vintage. Pais que recordam histórias de vida, filhos que querem experimentar algo que não viveram diretamente e colecionadores estrangeiros que percorrem o Brasil em busca dessas preciosidades são parte desse movimento.

Outro encontro marcante foi com Valter Venturolli, que já trabalhou com sonorização de ambientes e hoje se dedica à venda de equipamentos clássicos. Segundo ele, a memória afetiva é o principal fator que impulsiona essas compras, seguido pela durabilidade e pelo design diferenciado dos aparelhos. “Muitos clientes rejeitam as versões digitais e preferem buscar equipamentos com história. No exterior, essas peças são cada vez mais raras, o que leva colecionadores a garimpar o mercado nacional em busca do ‘equipamento perfeito’,” relatou Valter.

Refletindo sobre essa onda nostálgica, percebo que vivemos um tempo de contrastes. Se, por um lado, a tecnologia avança em ritmo acelerado, por outro, cresce a valorização de produtos feitos para durar. No passado, as grandes empresas competiam para oferecer qualidade e resistência, enquanto hoje o conceito do descartável se impôs. Lembro-me de uma conversa com Everaldo, dono de outra eletrônica, que me contou sobre uma reunião em que participou como diretor de empresa. Segundo ele, uma das pautas era justamente criar equipamentos descartáveis, encerrando a era dos “maravilhosos titãs”.

Essa busca pelo vintage não se limita ao áudio. Em um estúdio fotográfico no Campo Belo, em São Paulo, descobri que as máquinas mais utilizadas para capas de revistas e materiais comerciais ainda são as analógicas dos anos 70 e 80. A textura, a profundidade e a autenticidade dessas imagens são incomparáveis às versões digitais. Isso mostra que, apesar da evolução tecnológica, certas formas de produção mantêm seu valor e até se tornam mais desejadas com o tempo.

O que essa tendência nos diz? Talvez seja um reflexo do desejo de desacelerar, de recuperar vínculos com o passado em um mundo cada vez mais fugaz. O vintage não é apenas sobre nostalgia, mas sobre resgatar a qualidade, a identidade e a longevidade que parecem cada vez mais escassas na era digital.

E quanto ao tape deck? Comprei o que desejava… e alguns outros que não resisti!

Por FREDI JON (Músico, escritor, jornalista, apresentador e produtor de eventos)

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