16 de janeiro de 2026

[ENTREVISTA] Documentário relata o movimento Emocore no Brasil

 

Hoje a “molecada” tá com o Sertanejo Universitário e o Funk contemporâneo passeando em suas cabeças. Mas, para quem era adolescente em meados de 2005, sabe bem o que é viver a moda dos “Emo”: o movimento musical que chegou ao Brasil, e que se tornou um estilo de vida (o que foi bom e ruim).

Esse trecho em parênteses é um dos principais assuntos do recém lançado documentário “Nem Tudo Que Acaba Tem Final”, do produtor independente Igor Néder Lopes.

Na raça, Igor relatou com o apoio dos ícones do movimento como Lucas Silveira (Fresno), Koala (Hateen) e Nenê Altro (Dance of Days), o que realmente foi o EmoCore brasileiro, e principalmente, o que muita galera não sabe.

Ao longo dos 40 minutos de duração do material, o público pode entender melhor essa fase incrível do rock nacional, na qual o gênero (muito pouco usual na mídia) se consagrou em todos os setores.

E é claro que a gente da Arte Brasileira não poderia deixar esse documentário “inusitado” passar em vão. Por isso, realizamos uma entrevista com o autor do trabalho. A seguir, você confere o material na íntegra, e em seguida, a entrevista. 

 

 

Primeiro, quero saber se esse é seu primeiro trabalho profissional? Se não, quais foram os outros?

Autoral e independente, sim. Me formei em Audiovisual em 2012 e desde então venho trabalhando na área. Passei por lugares como TV Cultura e Fox Life, trabalhando em produções como “Cocoricó”, “Roda Viva” e o “Programa da Palmirinha”. Além de alguns outros documentários em que co-produzi, carrego no currículo o longa nacional “Na Quebrada”, de 2014, onde atuei como operador de áudio e produtor de objetos.

 

Quais foram os desafios na produção desse documentário?

Desde quando decidi, de fato, produzir um documentário autoral e completamente independente já surgiram desafios. Como gravar, quais equipamentos, personagens acessíveis, agenda livre, etc. Acredito que conciliar faculdade e trabalho talvez tenha sido o maior dos desafios, sobretudo considerando a agenda dos entrevistados que, por serem artistas e profissionais, sempre têm tempo incerto para uma gravação dessa natureza com um anônimo que queria realizar essa produção em tempo hábil.

 

E o que de bom você aprendeu para sua vida pessoal e profissional?

Aprendi ainda mais a me virar sozinho, mesmo que acreditem ser algo difícil ou impossível de se conseguir. As primeiras tentativas de contatos, os vários “nãos”, a correria em alugar equipamento de imediato para uma entrevista “de repente”, a dificuldade em carregar sozinho todos os equipamentos, etc. Tudo isso me desperta um auto-orgulho ainda maior em ver a repercussão causada de um trabalho desses realizado sob inúmeras adversidades.

 

Por que escolheu falar do mundo EmoCore no Brasil? Para mim foi super importante. Difícil achar um material tão completo sobre um movimento que marcou minha adolescência.

Não teria muito sentido fazer sobre outra coisa que não a respeito daquilo que serviu de base para minha adolescência, me ensinando a agir e pensar de uma maneira como nunca antes. Com o emocore eu entendi que havia uma cena/tribo/estilo onde várias características que já tinha desde a infância se encaixavam perfeitamente. De modo particular, falar do emo é muito mais do que expor uma fase musical que abarcou uma geração; é de certa forma traçar uma linha tênue que vem desde minhas primeiras recordações e vivências interpessoais, passando pelo ápice da coisa em se assumir humano demais confessando o que se sente sem medo algum, e desaguando no hoje, meio a uma sociedade enferma e blindada emocionalmente.

 

O título do documentário “Nem Tudo que Acaba Tem Final” seria uma forma de esperança para vocês e para as tribos que seguem o emocore de que esse movimento pode voltar? E que mesmo que não exploda novamente, ainda continue em nossos corações para sempre?

Curiosamente ele foi pensado antes mesmo de os personagens estarem definidos. O paradoxo do título é justamente pra mostrar que mesmo que o emocore tenha “acabado”, ele não teve um fim definitivo. Haja vista que há ainda muita gente que na individualidade dos fones perpetua o movimento e consequentemente mantém a chama acesa. Sobre um possível retorno, eu acredito sim que possa acontecer sem tanto alarde e espetáculo. Se for, será com aqueles que foram e ainda são aquilo, em sua essência.

 

Como foi para você, como produtor independente, chegar até ícones do movimento como o Lucas Silveira da Fresno?

Foi o auge da vida, apenas [rs]. Além de Ayrton Senna, só o Lucas conseguiu alcançar o topo da minha prateleira de ídolos da vida. Há quem ache exagero e eu até entendo, mas da mesma forma que Senna era meu modelo de ser humano a me tornar, a partir da adolescência Lucas se tornou esse exemplo. Já perdi a conta de quantas vezes fui ridicularizado por essa idolatria sem nunca ter me importado. Você conseguiria me dizer quantas pessoas conseguiram realizar algum trabalho com seu ídolo? Eu sou uma delas e me sinto infinitamente contemplado por isso. Cheguei a brincar com ele ao final da entrevista dizendo que um terço da minha vida estava sendo zerado naquele momento, tomando por base minha idade e o quanto aquilo tinha significado

 

Você deve ter estudado um tanto sobre o movimento para criar o documentário. Com essa bagagem e outras, como você vê o atual mercado da música no Brasil?

Sim, foi mais do que necessário ler livros e buscar conhecimento teórico acerca de tudo que permeou o emocore. Pra ter uma noção, cheguei até mesmo em Lacan. Produzi um relatório de final de curso na faculdade em que tratei de questões identitárias e culturais, podendo assim gerar uma peça audiovisual com embasamento suficiente. Dessa forma, hoje eu consigo entender que a febre do sertanejo universitário é mais como uma peste negra. Não desmerecendo os artistas, muito pelo contrário. Eles chegam às pessoas e fazem parte de suas vidas por algum mérito ou motivo. O lance é que infelizmente se estabeleceu uma regra de que só esse tipo de som (incluo aí também o funk contemporâneo) seja consideravelmente válido e aceitável. Nas reuniões de família são sempre as mesmas músicas repetidas vezes, e se eu pensar em colocar um Zezé Di Camargo raiz – que é mais sertanejo que qualquer outra coisa dessas de hoje, por exemplo, sou o “diferentão”. Mas, paciência, isso é algo crônico e cultural, como uma espécie de analfabetismo.

 

Acredita que, em algum momento, o rock possa voltar a mexer com a cabeça dos jovens como na época dos Emocore?

Eu tenho bastante esperança de que sim, ainda mais se levar em consideração algumas bandas da cena underground que vêm angariando um público bem cativo como Pense e Far From Alaska. Pode não ser com a intensidade que aconteceu com Fresno e NX Zero, mas só de tocar o jovem e inclui-lo num movimento onde ele se sinta parte daquilo e peça fundamental de difusão já vale a pena.

 

Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) sobre o documentário?

Cara, sim, e mais de uma até [rs]. Nos extras do documentário eu coloquei alguns erros que mais servem como alívio cômico do processo como um todo, sobretudo envolvendo a Sky, filha do Lucas. Volta e meia ela surgia no estúdio dele onde gravamos, já que fica em sua casa, tanto que ela aparece em alguns momentos de fala importante do músico no documentário. Mas enfatizo o dia que gravei com o Marcelo Mancini, do Strike. Depois da gravação nós ficamos conversando a respeito da cena de rock, e eis que em determinado momento ele ofereceu uma carona de moto até o metrô mais próximo. Montamos em sua Harley e fomos. No desembarque ele fez questão de pegar meu número pra que fizesse a ponte entre eu e o Lucas Silveira, até então não contatado. Depois disso fiz uma graça com ele nos stories publicando um vídeo do rolê, mencionando que tinha voltado pra casa graças ao “motuber” vocalista do Strike [haha]!

 

Fique à vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Não há estímulo maior do que alguém duvidar de que você é capaz. Há uma década, quando junto com uns amigos, despretensiosamente disse que um dia iria trabalhar com os caras das bandas que eu admirava. Nunca fui tão ridicularizado por dizer algo em público e só não chorei por vergonha. Desde então eu carrego a descrença dos outros como combustível, seja qual for a circunstância da vida. E isso tende a ser mais positivo do que qualquer outra coisa. Nunca fiz questão de revidar aquela situação, só deixei o tempo passar e responder por mim. Mas acho que esse documentário diz – ou cala – mais do que imaginava.

 

 

 

 

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