19 de outubro de 2026

“Boa noite”, conto de Brendow H. Godoi

Dei o último trago no cigarro.

— A gente tem que cobrir essa merda mesmo? Ô Júlio, bate o gancho lá pro redator-chefe! Deixa essa merda pra lá!

— Você entra ao vivo em dez segundos — Júlio respondeu.

— Ninguém liga pra essa gente. Ninguém quer saber disso.

— Sete, seis.

Eu tava puto. De novo, na portaria de condomínio de luxo cobrindo vítima de bala perdida. Ninguém dava atenção pra isso. Nas páginas policiais, os jornais só botavam uma coluna anêmica no canto da página. Sem foto e sem destaque. Só uma manchetezinha pífia: “polícia invade condomínio da zona sul e universitário é morto”.

— Quatro, três.

— Perda de tempo do caralho.

— Dois, um. Ao vivo.

Consertei a cara. Engoli uma bola grossa de saliva com gosto de tabaco. Alinhei as sobrancelhas. Microfone na mão, enquadro da câmera:

— Boa tarde. Estamos aqui na portaria do Condomínio ALPHACITY onde agora há pouco houve um tiroteio envolvendo a polícia e um grupo de empresários da cidade. A notícia que temos é que uma criança foi baleada. Josef Albuquerque de Junqueira Lemos Bragança de dez anos — li no papelzinho — chegou a ser socorrido, mas morreu a caminho do hospital. O menino estava voltando da escola. Estou aqui com a mãe de Josef, a Desembargadora Katrina Albuquerque.

Ela segurava a camisa de uniforme que o garoto usava. Ensopada de sangue e com um buraco na altura do abdômen. As bordas do furo ainda tinham resquícios de pólvora. A mulher se pôs a gritar compulsivamente:

— Quem matou meu filho foi a polícia! Assassinos, assassinos!

Ela agarrou o microfone. Terrulenta, com ódio. Olhou para a câmera:

— É só branco que morre nesse país! A polícia só invade condomínio e universidade particular! Nossos filhos são bichos! Tá aqui, pro Brasil inteiro ver a minha dor — estendeu o uniforme da criança.

Era o colégio mais caro e tradicional do Rio de Janeiro, como sempre. Já tinha visto aquilo centenas de vezes. Toda hora morria gente nessas operações da polícia. Fazer jornalismo sobre isso estava cada vez mais enfadonho. Eu já conhecia todos os condomínios de luxo, faculdades privadas e pubs da zona sul da cidade.

A polícia sempre adorou estes últimos. Não podia ter um festival de música que a civil, a militar e o caralho a quatro baixava na porta. Botava a cara da molecada no meio-fio. Blogueiro, intercambista, universitário da PUC. Todo mundo deitado de bruços, em fila indiana, igual cadáver no necrotério.

— Por que a polícia não invade favela? Por que filho de pobre não morre? Por que preto não é vítima de bala perdida? — a mulher continuou. Mais uma vida branca ceifada pela polícia! Meu filho estava voltando da escola. Era inocente. Não tinha envolvimento com nada.

Foi uma luta manter o profissionalismo naquela hora. Logo mais teria jogo decisivo do mengão, mata-mata. E eu ali, naquele mata-mata arrastado de gente branca e privilegiada. Quem se importava?

Deixei a mãe ser consolada pelos condôminos. O câmera-man puxou a fiação e me acompanhou. Fomos os primeiros a chegar ali. Como disse, a imprensa não ligava mais para esse tipo de ocorrência. Não foi difícil entrevistar o Sargento:

— Estou aqui com o Sargento…

— Silva.

— Sargento Silva, o que de fato ocorreu?

— Boa tarde Brasil, boa tarde a você, telespectador. Bom, estávamos em uma operação de rotina quando avistamos um grupo de suspeitos entrando no condomínio. Estavam num Porsche conversível. Quatro homens de meia idade. Todos brancos e bem vestidos, o que obviamente levantou as nossas suspeitas. Ao aproximarmos dos elementos, eles abriram fogo contra a guarnição. Revidamos. Houve uma intensa troca de tiros, onde além da criança, um dos indivíduos também foi baleado.

— Qual o nome do indivíduo?

— Ele foi identificado apenas como Armando Brant Vasconcelos. Na verdade, já era conhecido nosso. Médico. Tem uma cadeia de clínicas em todo o sudeste do país. Gente da pior espécie.

— Foi apreendido algum objeto com o homem?

— Uma pistola calibre 380 e vinte mil reais em dinheiro. Além de passaporte e um par de ingressos para o show do U2 que acontecerá em Moscou no mês que vem. Ao que tudo indica, ele planejava viajar com mais alguém. Nós já estamos investigando quem seria essa pessoa.

— Sargento, o senhor sabe dizer se o tiro que matou o garoto Josef Albuquerque de Junqueira Lemos Bragança partiu da arma de algum policial?

— Bom, isso daí só a perícia vai saber responder, ok? O projétil será analisado e dentro de quatro a seis meses o resultado vai estar pronto. Agora cabe à perícia.

— Obrigado, Sargento.

A noite já caía. Olhei para a mãe do garoto. Ela estava com a mão espalmada cheia de pílulas. Botou tudo aquilo pra dentro. Uma condômina lhe trouxe uma dose de uísque. Matou tudo num gole só. 

Retomei a atenção para a câmera:

— Eu sou Cristian Pereira, para o Jornal da Cidade. Boa noite.

— Ainda é boa tarde — Júlio me corrigiu.

Todos rimos.

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