24 de maio de 2026

Os avós nos ensinam o que é ser permanente em tempos líquidos (por Fredi Jon)

Num tempo em que o toque virou emoji, o encontro virou link e o “eu te amo” pode ser digitado sem sequer ser sentido, há uma presença que resiste — silenciosa, muitas vezes invisível, mas absolutamente essencial: a dos avós.

Os avós são os guardiões da nossa memória afetiva. São a raiz que segura a árvore da família mesmo nos vendavais. São eles que seguraram o mundo no colo para que outros pudessem caminhar. Com mãos que já trabalharam muito e hoje tremem de ternura, moldam uma pedagogia da delicadeza que vai desaparecendo no barulho das notificações. Entre histórias repetidas à mesa, orações sussurradas à noite e receitas passadas “de olho”, nos ensinam a arte esquecida do cuidado.

Em tempos líquidos, são âncoras. Em tempos imediatistas, são o tempo da espera. Em tempos ruidosos, são o silêncio que acalma. Em uma era que idolatra juventude, performance e produtividade, os avós permanecem como uma espécie de resistência afetiva. Um contraponto sereno a um mundo que corre sem saber pra onde.

Eles não nos oferecem likes, resultados ou metas. Eles nos entregam presença — esse dom sagrado que o mundo anda tratando como desperdício. E isso, no fundo, é revolucionário.

Por isso, quando um neto decide oferecer uma serenata aos avós, não está apenas oferecendo um gesto bonito. Está proclamando um manifesto. Um ato de gratidão e de retorno. Cantar para quem nos embalou a alma antes mesmo de sabermos quem éramos é como tentar nomear o inominável: uma tentativa comovida de retribuir o que nunca coube em palavras.

Serenatas aos avós resgatam a beleza do gesto livre. Em vez de curtidas, aplausos com olhos marejados. Em vez de stories de segundos, memórias que atravessam décadas. Em vez de um presente genérico comprado às pressas, o dom mais raro de todos: o tempo. Um tempo doado em forma de afeto, melodia e presença.

É curioso pensar que, enquanto corremos atrás de inteligência artificial e realidade aumentada, aquilo que verdadeiramente nos sustenta emocionalmente continua sendo profundamente analógico: o cheiro de café na cozinha, os bolinhos de chuva nas tardes de sol, a mão enrugada do avô segurando a nossa. A música que toca e, por um instante, faz o tempo parar.

E se um dia eles partirem — e partirão, como partem todos os que carregam o tempo nos ombros —, o amor deles não parte. Apenas muda de lugar. Passa a morar em nós. Na forma como olhamos o mundo. Na delicadeza de um gesto. Na paciência de um abraço. Na maneira como vamos amar os nossos filhos e netos.

Por tudo isso, talvez cantar para os avós seja mais do que uma homenagem. Seja uma oração sem palavras. Um agradecimento profundo, por tudo o que eles foram, são e ainda serão em nós. Porque em tempos em que tudo é passageiro, eles — ah, eles nos ensinam o que é permanecer.

Conheçam um pouco mais sobre o nosso trabalho 
www.serenataecia.com.br / 11 99821-5788

Artistas destacam e comentam álbuns de 2023 e de outros anos

Sob encomenda para a Arte Brasileira, o jornalista Daniel Pandeló Corrêa coletou e organizou comentários de onze artistas da nova.

LEIA MAIS

Geração com cérebro desperdiçado (Clarisse da Costa)

Se buscamos conhecimento, somos viajantes nesse vasto mundo. Mas quando deixamos o saber de lado o que somos? Em pleno.

LEIA MAIS

CONTO – “Luen: Na completa escuridão” (Samuel da Costa)

Alika, não sabia o que dizer, nem o que fazer, paralisada ela passou a prestar atenção, na figura abissal, que.

LEIA MAIS

Existe livro bom e livro ruim?

Muitos já me perguntaram se existe livro bom e ruim, eu costumo responder que depende. Se você leu um livro.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: O funcionamento de um cineclube (com Cadu Modesto e Tiago Santos Souza)

Neste episódio, Matheus Luzi investiga os cineclube, casas de cinema independentes cujo o viés comercial é, na prática e teoria,.

LEIA MAIS

Curta a Festa Junina ao som de “Arraiá da Aydê”

A festa junina originou-se antes mesmo da Idade Média, há séculos. No Brasil, foi trazida pelos portugueses ainda no Brasil.

LEIA MAIS

MÚSICA CAIPIRA: Os caipiras de 1962 ameaçados pela cultura dos estrangeiros

Em 1962, Tião Carreiro e Carreirinho, dois estranhos se comparados ao mundo da música nacional e internacional, lançavam o LP.

LEIA MAIS

Rodrigo Tardelli, um dos destaques das webséries nacionais

Divulgação Por mais que nossa arte seja, muitas vezes marginalizada e esquecida por seus próprios conterrâneos, há artistas que preferem.

LEIA MAIS

Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, é inspiração do também Bernardo Soares, cantautor do “Disco

Olá! Eu sou Bernardo Soares, um artista da palavra cantada, compositor de canções que atua a partir de Curitiba, no.

LEIA MAIS

Espiritualidade de pai para filho, a mensagem da nova música do israelense Ari Fraser

ARI FRASER, músico israelense, cria uma canção de ninar comovente e profundamente espiritual nesta canção. A letra se desdobra como.

LEIA MAIS